A Norma Técnica do Aborto em Debate
Luiz Carlos D. Formiga
Jesus, o Mestre, preocupado com a aprendizagem significativa,
buscou métodos de ensino, baseados na assimilação
ativa dos conteúdos. Utilizou para isso várias técnicas.
Não estava disponível o computador ou o retroprojetor.
Assim sendo, fez preleções; narrativas e perguntas. Deu
explicações, usou ilustrações, e se socorreu
da conversação didática. Seus exemplos foram inúmeros,
mas com a técnica do debate, entre seus discípulos, permitiu
que Pedro, no consenso, fizesse a síntese. Vamos recordar. Chegando
Jesus ao território de Cesaréia de Filipe, perguntou aos
discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?"
Disseram: "Uns afirmam que é João Batista, outros
que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas".
"Então lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que
eu sou?" Simão Pedro, respondendo, disse: "Tu és
o Cristo, o filho de Deus vivo."
O debate é tão importante que políticos
procuram adiá-lo para os dias que antecedem as eleições.
No debate temem "afirmar que é João Batista, que
é Elias, ou, ainda, que é Jeremias".
Anteriormente o Núcleo Espírita Universitário
do Rio de Janeiro usou o debate para estimular o voto consciente. Na
Revista Internacional de Espiritismo fez o confronto entre duas postulantes
à câmara dos deputados. Hoje é necessário
voltar ao debate. Por isso, convidamos ao leitor a rever aquele diálogo(2).
Na TV duas candidatas discutem tema de grande interesse.
No final você pode acabar mudando o voto. Cabe lembrar que se
a justiça do candidato não exceder as dos escribas e dos
fariseus, ele não deve entrar nem na Câmara nem no Senado.
Seus currículos se equivalem e nunca foram encontradas
ligadas a atos de corrupção, não sendo do nosso
conhecimento nenhum fato que desabone suas condutas. Com esse pano de
fundo devemos informar que uma delas havia enfrentado, com muita angústia,
um aborto espontâneo. Embora de mesmo credo apresentam posições
antagônicas.
Sim, são materialistas. Muitos têm fé
no niilismo e acreditam na inexistência de vida após a
morte, embora esta tese seja defendida sem nenhuma evidência experimental
que a suporte. Até hoje ninguém provou que não
existe vida depois da morte, mas, alguns defendem quase fanaticamente
essa idéia. Aliás, dos fanáticos não sei
qual o pior! As pessoas de credo materialista acreditam no nada, geralmente
se recusam a olhar pela janela espiritualista, que fica no lado oposto
do cômodo. O fanático materialista é cego às
evidências científicas acumuladas e que apontam na outra
direção.
“Richet disse que uma boa e completa experiência
vale por cem observações, e acrescentaremos: vale dez
mil negações, ainda mesmo quando essas negações
emanassem de sumidades de maior notoriedade, se estas não se
dignassem a repetir as experiências e demonstrar-lhes a falsidade”
(Gabriel Delanne, 1893)
Voltemos ao diálogo entre as duas senhoras (candidatas).
Uma opinião apresentada por uma delas, a de
que o aborto é um direito, foi o que nos chamou a atenção.
Vivemos nos equilibrando entre direitos e deveres!
Disse: “a campanha pela legalização
do aborto deve seguir na direção pura e simples do direito
de abortar, não necessitando a mulher explicar que há
problemas com o feto ou que foi estuprada. O aborto não deve
ser considerado crime e o argumento que invoco é um só.
A mulher pode dizer que não quer este filho e que seu corpo lhe
pertence. Este é o projeto de lei pelo qual anseiam as mulheres."
Diz a outra: “mas, aqui o direito de um implica
na morte do outro. Não podemos auto-atribuirmos a decisão
e a ação de matar o outro. Isto é questão
de poder acumpliciado a uma licença ética. É exatamente
o que se dá com o político que leva o povo à guerra;
dá-se ainda com o terrorista, com o torturador, com os assassinos
de todos os matizes. Poder e não-ética associados produzem
todas as lesões ao outro: o roubo, a censura, o seqüestro,
a lista é longa”.
Léon Denis, que foi um orador brilhante, fez
uma conferência em Tours, na sala do Cirque e posteriormente em
Orléans, na sala do Instituto, em fevereiro e abril, respectivamente.
A acolhida que lhe foi feita e o convite insistente, de um grande número
de ouvintes permitiram que hoje pudéssemos estudá-lo.
Nele Denis diz: “nós que desejamos uma ordem social baseada
na Justiça e na Liberdade, façamos inicialmente, justos
e virtuosos a nós mesmos, tornemos nossos corações
livres, as razões esclarecidas, os costumes dignos, as consciências
honestas e marchemos nós, em frente, sem fraquejar.”
Voltemos ao diálogo das duas amigas.
Em defesa de suas idéias, continuou a senhora:
“o aborto não é um direito, é uma possibilidade
decorrente do poder e da anestesia da consciência, como escravizar
o negro, matar judeus.”
“A Idade Média foi a idade de ferro, a
idade do feudalismo, a idade onde as fogueiras crepitaram, onde o sangue
corria em torrentes nas salas de tortura, onde as incontáveis
forças se erguem com os seus frutos sinistros.”(L.Denis)
Como que se não tivesse escutado os argumentos
apresentados, surge a réplica: “A legislação
do aborto não dá à mulher autonomia sobre seu corpo.
Precisamos entrar na modernidade! Estamos atrasados em relação
à Itália, Alemanha ou à França.”
O leitor também já ouviu essa conversa
antes, não?
Alguns acreditam que o que se USA lá deve-se
USAr cá!
Nem nos EEUU a lei é abrangente!
“Sim”, concorda a outra. “Mas, não
seria o caso de ampliar a informação sobre anticoncepção?
Usar do direito de não engravidar, nestes dias modernos de Aids,
usar a camisinha e exigir a colaboração do companheiro?
Afinal, a eficiência dos anticonceptivos é próxima
de 100%! “
“É, mas um dia a casa cai e você
aparece grávida, minha filha! - disse a outra."
A resposta veio na ponta da língua: “mas
a culpa é do bebê?” O óvulo é seu.
O útero, também, mas o ovo fertilizado é outra
pessoa!
“Na alma humana existe um sentimento natural
que a eleva acima de si mesma para um ideal de perfeição
no qual se resumem essas potências morais denominadas o Bem, a
Verdade e a Justiça. Esse sentimento, quando está esclarecido
pela Ciência, quando é fortificado pela razão, quando
tem por base essencial a liberdade de consciência, da consciência
autônoma e responsável, esse sentimento é o mais
nobre de quantos possamos conhecer.” (L.Denis)
Pudemos ouvir o silêncio, enquanto a outra engolia
em seco, embora não se desse por vencida.
“Sim, mas enquanto os t-e-ó-r-i-c-o-s,
como você, discutem se o feto com duas ou com quatro semanas já
é uma pessoa, a mulher engrossa as estatísticas. Você
sabia, minha cara, que nos meados de 1985 o aborto era a quarta causa
de morte? Que o INAMPS gastava 46% do orçamento de obstetrícia
em complicações causadas pelo aborto? Que a Organização
Mundial de Saúde indicava, em 1978, a ocorrência de 3 a
5 milhões de abortos anuais no Brasil e que isso representava
10% dos casos no mundo? As mulheres pobres vão continuar abortando
com agulha de tricô?
A conversa estava tão quente que resolvi escutar
ainda mais discretamente. Conclui que a intuição mais
uma vez havia me favorecido. Afinal poderia sobrar pra mim. E se uma
delas resolvesse olhar na minha direção e me perguntasse:
“o senhor não acha?”
Eu não poderia ser indelicado e responder: “Eu
não acho nada, minha senhora!”
De repente a outra, olhando para minhas mãos
e, como se quisesse me envolver na discussão disse: “Espera
aí, vamos entrar nessa de que o Ministério da Saúde
adverte... e, gastar fortunas dos recursos públicos, para tratar
enfisema e câncer pulmonar que apareceram por causa de uma droga
socialmente aceita?"
“Minha amiga”, falou com tom de piedade,
“não seria melhor investir numa estrutura melhor para gerar
filhos? Investir em creches e oferecer orientação sobre
contracepção? O país já tem os sistemas
de comunicação bem desenvolvidos é só questão
de vontade política fazer a opção pela educação!”
e, arrematou: “Isto não é o mesmo que colocar o
aborto na lei e a consciência fora da lei?”
Nesta hora achei que a outra não ia conseguir
sair da lona, enquanto eu, o juiz, contava até dez.
“Há pessoas com nervos de aço.”
(Lupicinio Rodrigues)
Como lutador de excelente preparo físico ela
ficou de pé, e: “Ora, minha amiga, eu e você estamos
discutindo a existência de alguém que ainda nem é
uma pessoa. É apenas um amontoado de células. Eu estou
defendendo a mulher e você vai ficar defendendo um feto!”
“A mulher é sempre ignorada. Essa é
a grande questão do nosso século. As mulheres que abortam,
no Brasil, não o fazem por opção. Quando falo no
direito de abortar falo em direito à vida humana, decente e digna.
É preciso existir estrutura para gerar filhos, foi você
mesma quem colocou!”
E agora, você já descobriu qual possui
a capacidade maior de argumentar e contra-argumentar? As mulheres que
defendem os seus direitos precisam ser ouvidas. Eu sou a favor da competência,
esteja ela de saia ou não.
“Sim”, veio a resposta: “e deve ser
aí que devemos gastar a nossa energia e não tentando desumanizar
o outro! Sempre que se quer humilhar, castrar, limitar ou matar o outro,
recorre-se a esta técnica consagrada. O primeiro ato é
des-humanizar. Se o embrião é um VIR A SER, mas NÃO
É ainda por que não suprimí-lo em favor dos que
SÃO?
Hitler e Stálin tinham idéias, até
nobres, pelas quais se auto-atribuiram o direito, e até o dever,
de matar judeus, dissidentes, capitalistas, comunistas e católicos.
O que se quer é “des-humanizar”
o embrião para adormecer as consciências com uma legitimidade.
"A ciência não tem uma definição
de vida, portanto não pode justificar um procedimento tão
grave sobre o que desconhece.”
“Há pessoas com nervos de aço,
sem sangue nas veias e sem coração.” (Lupicinio)
Eu não sei onde esta conversa foi parar, mas
ela me estava fazendo pensar tanto, que já me sentia cansado.
Foi com certa contrariedade que tomei o ônibus e deixei as senhoras
com as suas reflexões. Mas, ainda consegui ouvir: “O Brasil
continua na Idade Média em relação à condição
da mulher. Para essas mudanças chegarem, precisamos de pressão
e conscientização.”
Creio que concordávamos, aí não
tínhamos dúvidas! Pressão de ambas as partes, favorecendo
a reflexão. E, conscientização ampla, geral e irrestrita,
sem escamotear os argumentos espiritualistas.
Este diálogo foi retirado do opúsculo
que recebeu o título “Antes de Votar Pergunte ao Candidato
Sobre o Aborto”, que procurou responder as questões seguintes:
como age o cidadão espírita em relação à
política? Como vem sendo sua conduta em época de eleição?
Seu voto é realmente consciente? Será que o seu candidato
aceitaria o aborto de uma jovem, gestante HIV-positiva, grávida
pelo estupro? Será que ele se recusa a aceitar uma gravidez que
se originou de um ato violento? Será que ele na TV vai dizer
que não devemos permitir que uma mulher portadora do vírus
da Aids fique grávida? Será que sua candidata vai dizer
que seu corpo lhe pertence e que a legislação do aborto
deve dar à mulher autonomia sobre seu corpo? Será que
ele vai dizer que precisamos entrar na modernidade no que diz respeito
ao aborto e que o feto é apenas um apêndice da mãe?
Que diante de anomalias fetais graves e incuráveis o aborto seria
válido? Válido onde existem malformações
múltiplas ou aberrações cromossômicas graves.
Que argumentos são utilizados para conceder validez moral ao
ato da interrupção de uma gravidez complicada por ausência
dos hemiférios cerebrais (anencéfalos)? Poder-se-ia utilizar
os órgãos de um anencéfalo em outra criança?
A causa é nobre, você não acha? Pense na criança
que nasceu com uma hipoplasia de ventríloco esquerdo e poderia
viver com um novo coração transplantado.
Votar não é fácil, apertar botões
não deveria ser a única preocupação dos
educadores de época de eleição.
E você, em qual das duas materialistas votaria?
Ontem, o deputado Severino Cavalcanti (PPB/PE) falou
em luto nacional na sexta-feira, hoje, 9 de novembro de 2001, pelo horrendo
aniversário de três anos da Norma Técnica do Ministério
da Saúde editada no mesmo dia em 1998. Ele afirmou que a Norma
vem promovendo abortos em série e a matança indiscriminada
de fetos inocentes. E o que é mais grave: ela atropelou o Poder
Legislativo Brasileiro, pois em todos os países democráticos
do mundo o aborto sempre foi uma questão polêmica, a ser
decidida pelo Congresso Nacional.
Diz ainda, que os interessados utilizaram-se de uma
estratégia ilegal de regulamentar o aborto através de
uma norma técnica do Ministério da Saúde. E não
de um projeto de lei que precisava ser votado e aprovado na Câmara
dos Deputados e no Senado Federal.
Como é feita a prática da pena de morte
pelo aborto?
1. com o Cytotec. Elas nascem vivas, mas acabam morrendo
e são despejadas na lata de lixo.
2. pela "Aspiração Manual Intra-Uterina"
(AMIU), em que se suga o bebê em pedacinhos.
3. pela raspagem do útero, com duas lâminas
afiadas em forma de foice (curetagem). A criança é esquartejada,
em pedaços grandes.
4. pelo uso de dose enorme de hormônios que desestabiliza
a parede do útero impedindo o implante. Ocorre sangramento abundante
e o filho é descartado.
No Seu pronunciamento o deputado apelou para que se
vote urgentemente, o Projeto de Decreto Legislativo (O PDL 737/98),
de sua autoria, que susta a ilegal Norma Técnica do Ministério
da Saúde, assim como o Projeto de Lei 947/1999, também
de sua autoria, que "institui o Dia do Nascituro”, o”
Dia da Criança por Nascer”, a ser festejado no dia 25 de
março de cada ano.
Finaliza rogando a Deus que a "cultura da vida"
prevaleça sobre a “Cultura da morte”, que a Vida
esteja acima de interesses econômicos de organizações
internacionais que desejam, a todo custo, impor ao Brasil o aborto como
meio de controle de natalidade e investem na eliminação
de fetos e placentas que abastecem uma lucrativa indústria de
cosméticos.
Está aberto o debate!
Referências Bibliográficas
1. Cavalcanti, S. "Luto nacional – três anos de vigência
da norma técnica do aborto". Discurso pronunciado pelo primeiro-secretário
da câmara dos deputados na sessão de 8 de novembro de 2001.
2. Formiga, LCD. Eleição, mulheres e
voto consciente. Revista Internacional de Espiritismo, setembro de 2000.
(*) Artigo enviado ao local www.ajornada.hpg.com.br
, no dia 09 de novembro de 2001.