Vitória\ES
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O Comércio dos AbortosO dicionário diz que Lei vem do latim lex. Foi a sabedoria popular que distinguiu a Lei-dos-homens da Lei-de-Deus. A gente pode se submeter à Leide-Deus com ao menos o consolo de que esta é justa. Mas a Lei-dos-homens é tão falível quanto eles próprios! Por isso, muito bem fez quem colocou na justiça da Terra uma venda nos olhos. Pois, o que os olhos não vêem, o coração não sente ! Entre as Leis-dos-homens, há esta, promulgada no Estado de São Paulo, e que proíbe um homem de curar as mazelas do outro, a menos que possua um diploma de faculdade de medicina. Agora ando lendo a respeito de uma outra Lei, também promulgada num Estado, só que este não é brasileiro, é o Estado de New York, nos Estados Unidos. Chama-se "Lei do Aborto sob Pedido" e entrou em vigor em um dia que vai ficar marcado pelo seu horror, 12 de julho de 1970. Narrou um jornal que, mal publicada a Lei, 700 mulheres se inscreveram em vários hospitais para essa operação. Hoje em dia New York é chamada a "Capital do Aborto'', e se os seus habitantes se derem à leitura do Apocalípse, fugirão em pânico dessa floresta de cimento-armado e selva-no-asfalto. A lei afirma que todas as mulheres, de 17 anos para cima, podem praticar aborto até seis meses de gravidez, isto é 24 semanas. Mas a mulher de menos de 17 anos também pode abortar sem licença de seus pais, em casos cujo julgamento fica a critério das autoridades. A matança de crianças, nos hospitais municipais, fica em 200 dólares; nos assistenciais, de 300 a 500; e nos particulares, de 650 a 1.000. São os diversos preços para uma vida. E imediatamente 350 médicos foram mandados fazer cursos de especialização em ,abortos, pois as autoridades esperavam um grande afluxo de pacientes de todo o país, o que de tato sucedeu. Alguns jornalistas, - que Deus os haja! - escreveram que essa foi a Lei mais liberal aprovada no País. Entre 50 e 100 mil mulheres serão, - é o que se espera! - atendidas por ano, só entre as residentes em New York. Englobando as pacientes do resto do Estado e do país, as autoridades calculam em 500 mil as crianças que terão seus direitos à vida caçados na fase uterina. I; a movimentação em terno do assunto foi tão grande que o "New Health and Hospital Co." instalou telefones especiais para atender aos chamados constantes. A população newyorkina já criou um termo novo para esses telefonemas: "Discar um aborto''. É curioso notar que, se para inumeráveis doentes das classes pobres, - leia o leitor o nosso artigo "O Lixo Branco" '. - faltam leitos, para estes casos de abortos, anunciam os porta-vozes da companhia William Kerr, eles não faltarão. É, também, o que pensam as autoridades municipais. E, visto tratar-se do país com a economia mais próspera do mundo, organizações do tipo "Blue Cross" (Cruz Azul), que funcionam quase come uma companhia de seguros, já declararam que financiarão os abortos, não importando onde a operação vai ser feita. A í se encontra, leitor, uma das faces deste admirável Mundo Novo. Mas eu não me detenho nesse climax de carnificina organizada. Aguardava que um inesperado segmento do "affair-" se apresentasse. E eis que ele surge tia forma do depoimento de um médico, prestado à "Watchtower Bible and Tract Society of New York Inc.'' Por razões óbvias, esse cirurgião e manteve incógnito, o que não impede que a sua confissão signifique um dos mais chocantes documentos de nosso tempo. Eis o que .diz "Nos meus mais de trinta anos de experiência médica, como cirurgião-geral, tenho visto muita coisa. Mas, não estava bem preparado para aquilo que meus olhos viram naquela manhã de agasto de 1970. Foi meu primeiro dia de trabalho num hospital de Brooklyn, depois que se tornou legal, no Estado de New York, que os médicos realizem abortos à vontade. Ao me aproximar da secção de cirurgia, para fazer a operação que tinha marcada para o dia, notei a fileira de Macas hospitalares no corredor do lado de fora da própria sala. Em cada uma havia uma jovem paciente, meio tonta, devido à medicação pré-operatória, esperando a sua vez para um aborto. Dentro da secção de cirurgia, que consiste em três salas de operação, tornou-se logo evidente que todos, - médicos, as enfermeiras, os anestesistas, os serventes e vár ios auxiliares - trabalhavam mais do que sob a tensão comum, ao cuidarem de casos de abortos. Tais operações estavam sendo feitas numa taxa de unia a cada quinze minutos. Ao examinar a tabela de operações para aquela data, notei que meu caso era o único "legítimo" para o dia - as outras 24 operações planejadas eram todas abortos. Era óbvio quê a equipe operatória não se sentia feliz com aquela situação. Quando comentei que eu me sentia um tanto constrangido, no Mentido de que fazia a única operação i real do dia, um dos anestesistas, um médico que me era totalmente desconhecido, atravessou a sala de cirurgia, segurou a minha mão e apertou-a, .saindo sem dizer uma palavra sequer. Considerei isso com indício de que concordava com minha repulsa diante da situação. Durante a operação, conversou-se bastante sabre a questão. Diversas enfermeiras e auxiliares de enfermagem, revelaram sentir tamanha repulsa, ao trabalhar sob tais condições, que pensavam em outros tipos de emprego, longe das salas de operações. Algumas cogitavam em abandonar de todo a enfermagem. Visto que a Lei no Estado de New York permite abortos que incluam até vinte e quatro semanas de gestação, várias das dúzias de casos programados para o dia estavam sendo feitos em mulheres que se achavam em óbvio estado de adiantada gravidez. Em tais casos, o aborto não é uma operação simples, como comumente é o caso de quatro a seis semanas. Para se interromper uma gestação de vinte e quatro semanas, é, quase sempre, necessário fazer uma histerotomia. Isto significa abrir o útero por meio de uma incisão abdominal e remover o feto quase que como numa cesariana. Uma das enfermeiras, que tinha dado assistência em vários destes casos, me confidenciou que o "bebê é removido e colocado numa, bandeja paru morrer" . Um feto de vinte e quatro semanas de gestação, já se acha, naturalmente, desenvolvido ao ponto de ser facilmente reconhecido como criatura humana, com todos os seus membros. Consegue mover-se e produz sons e faz tentativas pelo menos de respirar. Por conseguinte, é considerado um indivíduo potencialmente capaz de viver. Um servente me disse que recusava passar a vassoura nas salas de operação em que estavam sendo feitos abortos, visto que tal atividade violava sua consciência relativamente à santidade da vida. Disse que, ao passar a vassoura numa de tais salas, encontrou a perna de um feto no chão. Outros empregados da secção de cirurgia confirmaram essa espécie de fato. Desde essa ocasião decidira não mais trabalhar na salas usadas para tal fim. Na realidade a intenção daquele homem era deixar de trabalhar no hospital e procurar emprego numa fábrica. A supervisora-auxiliar da secção de cirurgia me disse que ela também estava disposta a abandonar o seu posto e procurar outra colocação. Um jovem médico filipino, que recebia treinamento cirúrgico e me auxiliou em uma de minhas operações, falou-me de seu desapontamento por não estar recebendo treinamento em todos os campos da medicina. Isto sedava porque todo o seu tempo era tomado em cuidar de abortos. Estava, além disso, decepcionado com os médicos americanos, os quais tentavam justificar suas ações afirmando que isso ajudaria a resolver a denominada "explosão demográfica". Para ele tratava-se do perigoso jogo segundo o qual o fim justifica os meios. Naquele dia ao terminar meu trabalho, visitei minha paciente na sala de recuperação. Estava cercada de meia dúzia de sonolentas ex-mães que, ao acordarem, seriam levadas da secção de cirurgia para as enfermarias, onde permaneceriam até obterem alta. Ao deixar o hospital não pude deixar de notar a sala de entrada, que parecia estranhamente irreal, contendo uma fila de jovens mulheres sadias, esperando sua admissão. Uma fila similar podia ser vista no guichê de pagamentos: abandonavam o hospital depois do aborto já feito. Essas mulheres jovens e saudáveis entravam e saiam do hospital. Em alguns casos estavam acompanhadas por mulheres mais idosas, que podiam ser suas mães. Lembrei-me de um relatório publicado no "Medical World News" de 21 de agosto de 1970, que descrevia uma fila de espera de 5.000 candidatas a abortos nos hospitais municipais de New York. E em um deles havia de seis a oito semanas de espera. Ao me afastar de carro do hospital, sentia-me abalado demais parra dizer um mínimo que fosse. Perguntas turbilhonavam em minha mente, exigindo respostas. Quem era o culpado daquilo ? Qual seria a próxima medida tomada pelo homem para corrigir problemas sociais ou a população sempre crescente ? Pensei nos médicos que, quase sempre, justificam sua !participação alegando que ajudam a mulheres infelizes. Mas, é esse o único e verdadeiro motivo ? Não estão eles também interessados em ajudar a si mesmos, financeiramente ? Muitos, por certo, recusam-se a participar daquilo, mas outros não escondem que se tornaram especialistas num processo que, pouco tempo atrás, era considerado criminoso e imoral. Pensei nos homens que tornam legais medidas como aquela. Sua falta, contudo é apenas parcial, pois, na realidade, apenas refletem a vontade, os desejos dos seus constituintes - as pessoas a quem representam. Pensei também nas igrejas da cristandade e em seus pastores. Embora outros fossem, sem dúvida, responsáveis, também o clero o era. Não é prerrogativa dos médicos, nem dever dos professores, nem setor dos legisladores ensinar princípios de moral às pessoas, inculcando nelas uma elevada consideração para com a vida. Este é um assunto de natureza religiosa e, por anos a fio, presumiu-se ser a responsabilidade da igreja o ensiná-los." As considerações do médico americano seguem até mais longe. Discordo em que a função de predicar o verdadeiro seja função apenas religiosa. É um dever de todos os homens do mundo. E, a partir do decreto que proíbe a cura espiritual até ao que permite a chacina dos fetos, tudo é Lei. Houve uma breve agitação nas igrejas organizadas, quando a "Lei do Aborto sob Pedido" foi promulgada. Houve uma breve agitação nos meios espíritas quando a cura espiritual foi proibida. Depois, o horror se perde sempre na realidade do hoje ! Mas, por quanto foi dito aqui, mais uma vez fica provado a quanto erro o homem está sujeito. Pena de morte ! Aborto ! A principal função da Lei, será, um dia, tornar mais e mais profundo o Amor e o Respeito à Vida. A Lei cios homens, que apenas regulamenta e obriga, aplica-se ainda, e tão somente, à Terra na sua visão de Vale-de-Lágrimas. Mas, quando o Reino vier, pela expontânea e jubilosa conformação à Lei-de-Deus, a Terra será os Cumes-da-Exultação. "Quem não é por mim é contra mim !" A cada um de nós compete decidir. REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO – junho – 1971 Páginas 129 a 132 |