Vitória\ES
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ALMA E ESPÍRITO
CARLOS IMBASSAHY
Em o Nova Era de 17 e 24 de Outubro do anno passado, periodico que se publica em Franca, Estado de S. Paulo, Sthavira, pseudonymo de illustre engenheiro e theosopho, desenvolve extensas considerações a respeito de alma e espirito. O escriptor se surprehende por encontrar, a cada passo, nos trabalhos sobre espiritualismo, as denominações alma e espirito, sem que se lhes indique a differença, ou se diga se são synonimos. Expende varias considerações sobre o assumpto e, por fim, fere alguns pontos e nelles nos envolve directamente: Assim, declara: Vê-se que uma deplorável confusão e, se uns falam em reincarnação das almas outros affirmam que é dos Espíritos. Apreciemos um pouco dos ensinamentos do Espiritismo, e para isso transcrevamos as palavras de Carlos Imbassahy, em prelecção publicada em “Religiões Comparadas”, p. 178: “O ser incarnado possue corpo, espirito e perispírito”. Definindo ensina: “O espirito é o corpo immortal que se torna cada vez mais rico em saber, mais bello de luz”. Logo, a noção de alma não existe, e sim a de espírito; mas, na pg. 179 encontramos para título “Separação da alma”, sem que tenha sido explicado que coisa é a alma, e diz ainda: “chegada ao mundo dos Espiritos a alma acorda.” Que alma é essa que vae acordar no mundo dos Espiritos ? Se os corpos são só os tres que indicou, de onde surgiu essa alma? O autor continúa a citar varios de nossos trechos, onde nos referimos ao Espirito e conclue: Nestas condições é o Espirito que abandona o corpo physico na occasião da morte, vae ao espaço e de lá volta novamente em cada incarnação, mas anteriormente affirmou que a alma acordava no mundo dos Espiritos, logo Alma e Espirito é a mesma coisa. Ainda na mesma pagina: “Ahi o Espirito revê as vidas passadas”. Como no mundo dos Espiritos é a Alma que acorda, mas é o Espirito que revê o passado, mais unia vez confirma que Alma e Espirito são denominações diversas para a mesma coisa. Sthavíra concluiu admiravelmente e nada teríamos a oppôr ao seu artigo, na parte que nos toca, se não fôra estranhar elle que não nos puzessemos a dar definições e ainda mais esta pergunta que lança aos seus leitores: “Qual a vantagem de falar em Almas e em Espíritos no mesmo período se significam a mesma coisa? Isto serve somente para trazer confusão”. Isto só poderá ou só poderia trazer confusão aos que não conhecessem os termos, e eu estava certo, no momento em que fiz a conferencia, que ninguém, absolutamente ninguém pudesse ter as perplexidades do digno theosopho. Ora, todo mundo sabe o que é Alma e, do mesmo passo, todo mundo sabe o que é Espírito. Não havia, no amplo salão das conferencias, onde tratámos do caso, quem tivesse duvidas sobre o que fossem almas do outro mundo e, da mesma sorte, quem ignorasse o que fossem os Espíritos dos mortos. Acreditavamos que toda sorte de gente estivesse alli habituada aos termos. Por mais ignorante ou mais pobre de espírito que fosse o ouvinte, estaria elle farto de ouvir falar e de comprehender o que pudesse ser uma esmola para as almas, ou uma missa pelas almas, ou uma alma penada, ou uma casa mal assombrada pelas almas, ou a alma do homem, ou alma do finado, a alma do purgatório, ou o que é render a alma ao Creador ou dar a alma ao diabo. Todos entenderiam, entendem e entenderão que se trata da parte immortal e imaterial do ser. Também não ha quem se vá esfalfar a folhear os léxicos, quando falamos em Espírito, porque está toda gente farta de saber que ha Espíritos e, por certo, já teriam ouvido referencias ao mundo dos Espíritos, aos Espíritos máos aos bons Espíritos, aos Espíritos de luz, á acção dos Espíritos, ao Espírito do vivo, ao Espírito do morto, ao Espírito incarnado, ao Espírito desincarnado, ao Espírito errante, á influencia, á acção dos Espíritos; sabem todos o que é estar com o Espinto, incorporar o Espírito, o que são jogares infestados pelos Espíritos, o que é ver Espíritos, sentir Espíritos, ter medo aos Espintos, conversar com Espíritos, invocar Espíritos... Em summa, do mesmo modo que com a alma, não ha quem não saiba que, ao referir-me a Espíritos, referia-me, egualmente, á parte immortal e immaterial do sêr. As palavras são synonimas na accepção popular; falando eu, simultaneamente, de Espíritos e Almas, ninguém poderia duvidar do que eu queria dizer, ou do a que estava a referir-me. Se consultarmos a etymologia do vocábulo, veremos que ambos têm a mesma significação originaria. Alma é derivado do latim anima, do grego ânemos, que significa sôpro. A mesma accepção etymologica existe na palavra Espírito. Do latim spiritus, de spiro, spiras, quer dizer o ar, o sôpro, o ar que se respira. Recorramos aos léxicos e notaremos que os termos continuam synonimos. Um é quasi sempre designado pelo outro. Um e outro designam a mesma idéa. Diz o Diccionario Contemporaneo:
Alma — parte incorpórea do homem — a séde - da sensibilidade, do entendimento, da vontade. Espírito — substancia simples, incorporea e intelligente. . .A alma.
Do clássico Moraes: Alma — substancia espiritual, que anda annexa, durante a vida, aos corpos dos animaes; é a que pensa mais ou menos perfeitamente... Espírito — a alma; substancia espiritual...
Do Lacerda: Alma — substancia incorporea dotada de razão e liberdade, pessoa viva — espírito. Synonimos — alma, espírito, animo. Espírito: substancia incorporea, immaterial, simples — o sopro ou hálito — o ar que se respira a alma do homem. .~. Synonímos — espírito, alma.
Do Candido de Figueredo: Alma — essencia immaterial da vida humana — espírito humano. Espírito - substancia incorporea e imaterial - Alma, ser humano. Vida. Animo, sopro, intelligência.
Do Vieira: Alma — syn.: — espírito.
Ame: Une société immuablement constituée ... enseigne à l’homme ce qu’il faut croire, et lui dit que son âme est un esprit créé à l’image et à la ressemblance de Dieu.
Está clara aqui a synonimia: ... “e lhe diz que sua alma é um espírito ...” Na palavra esprit, ensina o léxico francez: — a alma do homem. Rendre l’esprit — rendre l’âme, mourir. Pelo mesmo léxico, render o espírito é o mesmo que render a alma. Nos demais diccionaristas a noção é a mesma. Os autores empregam ainda indistintamente alma e espírito com a mesma significação.
O espírito do homem, comprimido pela carne... E, depois, na mesma pagina: “Melhor e mais seguramente que nossos mestres terrestres, os do espaço sabem pôr-nos em presença do problema da vida, do mysterio da alma...’
Paginas adeante: “Tudo o que o espírito fez, quiz, pensou reflecte-se nelle. Semelhante a um espelho, a alma reflecte todo o bem, todo o mal que fez.” “Tornada transparente no além, a alma se julga a si própria...” “Todo espírito desejoso de progresso, trabalhando na obra de solidariedade universal, recebe de espíritos mais elevados uma missão particular... “Espíritos physicos, chimicos, astronomos proseguem suas pesquizas...” “Uns têm por tarefa acolher os humanos, outros são encarregados de consolar, de instruir ás almas soffredoras...” “Espíritos menos adeantados assistem os primeiros...” “Um grande numero de espíritos...”
Todas essas phrases estão numa pagina. (Denis, Le Problême de l’Être et de la Destinée.
Vemos em Allan Kardec: "Como se communicam os Espíritos? Podem os Espíritos dissimular seus pensamentos?” Podem os Espíritos comprovar suas individualidades? Os Espíritos se reconhecem por ter cohabitado a Terra? (Ns. 282 a 285). E no n. 286: “Deixando seus despojos mortaes, a alma vê os parentes e amigos?” N. 287. “Como é acolhida a alma no seu regresso ? N. 289. Os Espíritos vão ao encontro da alma.” E’ verdade que Kardec propõe uma distincção por facilidade da idéa: Alma seria a dos vivos, Espírito o dos mortos. Simples proposta convencional, de espíritas para espíritas, e que só obrigaria a espíritas. Os próprios Espíritos declararam que Alma e Espírito são a mesma coisa. Ora, dado o que o vulgo entende por uma e outra coisa e ainda pelo que nos diz a etymologia, pelo que definem os léxicos, pelo que ensinam os autores, estava eu certo de que não haveria, por parte da assembléa que me dava a honra de escutar, nenhuma vacillação, ou duvida, em relação aos termos que estava empregando. Sthavira, concluindo que usei de expressões diversas para a mesma coisa, não tem porque se adimirar: eu estava com o uso e com o diccionario. Fica, ainda, explicada a razão por que não perdi o tempo em dar definições, com Sthavira desejava e cuja falta lhe pareceu de grande importância: é que as definições, ainda que não se encontrassem no entendimento dos ouvintes, estariam ao alcance de qualquer um: seria só o trabalho de puxar da estante o Vieira, o Lacerda, o Moraes, o Figueiredo ... Há, ainda, a consideração que, se eu resolvesse definir todos os termos que estava empregando, nunca mais acabaria de recitar o meu discurso ou, de dar o meu recado e deixaria na memória dos presentes a impressão da mais terrível estopada. E de estopada, já me bastava a que lhes estava infligindo. Finalmente, o esclarecido theósopho pergunta qual a vantagem de falar em Almas e em Espíritos no mesmo período. Que lhe respondam as regras da syntaxe. Pelo visto, dir-se-ia que o illustre escriptor tem a synonimia como inútil. A vantagem do uso dos dois nomes estava em evitar a repetição exhaustiva e monótona de um só. Era a vantagem do emprego dos synonimos, era a faculdade de lançar mão dos recursos que o idioma offerece, era seguir o que prescreve a grammatica, a elegancia, o phraseado, o bom gosto, o estylo. Os synonimos quasi não foram feitos para outros fins. Muito havia ainda que dizer a respeito do artigo de Sthavira, onde me pareceu que existiam alguns equívocos. Mas, este já vae longo e a parte que me coube, nas dúvidas do illustrado escriptor, tomou todo o espaço que eu tinha disponível. Cumpre salientar que ainda na Era Nova, o nosso confrade Diocesio de Paula deixou todos os pontos perfeitamente esclarecidos.
Fonte: Reformador – janeiro, 1936 Responsável pela transcrição: Wadi Ibrahim Mantida a ortografia original |