Vitória\ES
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Alcindo: Meu Irmão e Amigo Marlene O telefone tocou e soube, então, que você tinha partido... Até na morte física você nos deixou uma grande lição: seu corpo foi encontrado na sala de encadernação das Oficinas Paulo de Tarso, em Diadema, onde você ensinava aos nossos jovens as artes do ofício e a veneração no trato dos livros. Tudo estava do mesmo modo, como nas milhares de horas em que ali trabalhou: na entrada, os retratos dos benfeitores Bezerra de Menezes e Chico Xavier; as luzes acesas; o rádio ligado quem sabe na esperança de ouvir Pavarotti, seu preferido - e, no chão de cimento, seu corpo inerte segurando, em um dos braços, a peça com a qual costurava os livros. Em cima da bancada, a última obra que estivera entre seus dedos para passar por reforço e embelezamento, um livro emblemático, um entre os muitos com os quais conviveram nos últimos anos. O nome dele? E a Vida Continua..., de André Luiz. Seguramente era assim que você desejaria ingressar na Vida Nova. Sem lenço, sem documento, mas com o patrimônio invejável de humilde tarefeiro da seara de Jesus. Ainda há poucos dias, enquanto tomávamos cafezinho na cozinha da creche, você reclamou: “não tem mais livros para eu encadernar? - Traga logo...” Entendi as reticências, você sabia que estava de partida... Não tive coragem de lhe dizer, nem mesmo insinuar, que um ente querido do mais além já havia me advertido de que você estava de partida... Era a certeza íntima de que você não teria tempo de completar, para a minha biblioteca, a encadernação dos 402 livros, a coleção completa de Chico Xavier. Não tive coragem de mencionar nada, ficamos ambos reticentes, e entendemo-nos no silêncio... Foi nosso último colóquio, depois dele, o ponto e vírgula... O seu corpo físico, abençoado instrumento de redenção, ficou no Lar do Alvorecer, a casa que sempre lhe pertenceu, meu amigo. Rodeado de irmãos do Grupo Espírita Cairbar Schutel e, principalmente, das dezenas de sobrinhos que tanto o amavam. Você pode sentir esse amor, na linda homenagem que lhe prestaram as crianças no Culto do Evangelho daquela 5ª feira: a prece singela dos inocentes. Depois, no cemitério, as mãozinhas empunhavam as belas flores da paineira-marca registrada da nossa Casa - com que enfeitaram a campa singela. Amigo, creia, estamos fazendo o possível para cumprir seus últimos desejos. Não se preocupe, a biblioteca espírita para os jovens também vai tornar-se realidade. Volte sempre para lembrar-nos: “íntima é muito difícil!..." Seu exemplo de abnegação, este sim, é inesquecível. Seja feliz! Até sempre, caro amigo! Jornal Espírita – Abril de 1998 |