Vitória\ES
|
O HOMEM E OS ANIMAIS
Todos os animaes, inclusive os insectos de proporções diminutas, como as formigas, trazem comsigo armas naturaes de defesa e de ataque. O leão e o tigre são munidos de patas e garras; o touro e o rhinoceronte: de chifres: o elephante: de trombas e presas possantes; os cães: de dentes ponteagudos e afiados; as viboras: de veneno; os insectos: de ferrão; a aguia, o abutre e o milhafre de bicos acerados e garras aduncas; os polvos: de tentaculos; os ouriços de cerdas eriçadas e espinhosas; a zebra, o cavallo e o burro: de cascos duros e pesados. O homem é o unico animal que, ao nascer, não traz comsigo, nenhuma arma natural de ataque e defesa, que tambem não apparece no decurso do seu crescimento. O homem não tem garras, patas, chifres, bico, tromba, dentes ponteagudos, cascos, espinhos, ferrão, bolsa de veneno. Ter-se-ia, acaso, a Natureza equivocado ou esquecido de dota-lo de um apparelho ou membro destinado ao ataque e á defesa, como fez a todos os animaes? Eis um caso digno de meditação. Não acreditamos que o facto em apreço resulte de um cochilo da Natureza, dessa Natureza sempre sabia e veraz em todas as suas manifestações. Parece-nos bem claro que, vindo o homem ao mundo desprovido de arma natural de ataque e de defesa, quer isso dizer que ele nunca deve atacar, empregando, outrosim, como arma de defesa, a Razão, faculdade nobre e distincta de que é dotado em gráo superior ao dos animaes. O homem, podendo manejar a intelligencia e a vontade numa esphera infinitamente mais ampla que aquella em que se agitam sêres inferiores, não necessita de outra arma de defesa além daquelles attributos. A ausencia, que nelle se verifica, de arma natural deve ser considerada como um distinctivo honroso, que o eleva e ennobrece, assignalando sua transição, da ordem zoologica, para a esphera humanitaria. No emtanto, o homem obstina-se em contrariar a Natureza, munindo-se artificialmente das mais terriveis e mortiferas armas com as quaes se adorna e das quaes se jacta e orgulha, ostentando-as á luz meridiana, desfazendo assim o padrão de excellencia com que a Natureza o distinguiu quando o libertou de chifres, garras, patas, cascos, trombas! A mesma conformação anatomica homem não se presta a dar coices, manotadas, botes, cornadas, saltos e trombadas. A despeito, porém de tudo isso, os homens se preparam, adextram e aprestam em escolas especialisadas, para lograrem realizar aquelas proezas próprias dos animais! Pretendem imita-los precisamente naquilo que encerra o cunho característico de inferioridade da especie, quando poderiam faze-lo sob outros pontos de vista, em que, realmente, os animais dão esplendidos exemplos ao homem. Haja vista a formiga, resolvendo maravilhosamente bem o problema econômico-social por meio do cooperativismo ou solidarismo. Observando-se o que se passa na corporação daquelles insectos, verifica-se que cada individuo tem o senso da responsabilidade propria e a noção do seu dever. Independente de coacção, cada um trabalha espontaneamente e produz o mais e o melhor que pode. Não ha, ociosos, nem mendigos, nem miseraveis, na sociedade das formigas. Alli ninguem passa fome, todos se alimentam regularmente, gozando, em egualdade de condições, o aconchego e o conforto do formigueiro. Eis um bello ensinamento que os homens, sem desdouro, deviam assimilar, solucionando, assim, os graves problemas economicos que perturbam e convulsionam constantemente a sociedade humana, ameaçando dar por terra com a sua decantada civilisação. Como a solidariedade das formigas, o homem devia tambem imitar a fidelidade dos cães, a singeleza da pomba, a prudencia da serpente, a mansuetude do cordeiro, a altivez do leão, a paciencia do boi, a perseverança do burro, o desprendimento das abelhas e, sobretudo, o optimismo e a alegria de viver dos passaros.
Fonte: Reformador – agosto, 1936 Responsável pela transcrição:
Wadi Ibrahim |