Vitória\ES
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DO ANIMISMO À MEDIUNIDADE
O termo animismo designa, aqui, as manifestações da própria alma do médium a desvelar no processo das comunicações conteúdos psíquicos arquivados no inconsciente. Na prática mediúnica o animismo se revela de dois modos distintos: a alma do médium se comunicando – a situação clássica – ou ela introduzindo suas idéias nas mensagens de que se faz instrumento. A problemática das comunicações do médium utilizando sua própria equipagem mediúnica não passou despercebida a Allan Kardec que, ao questionar os Espíritos que orientaram a Codificação, deles obteve a confirmação do fato, conforme anotado em “O Livro dos Médiuns”, item 223, 2ª questão: “A alma do médium pode comunicar-se, como a de qualquer outro. Se goza de certo grau de liberdade recobra suas qualidades de espírito.”
Vê-se, portanto, que os Mentores não deram ao assunto qualquer conotação de anormalidade, chegando mesmo a afirmar que o conteúdo de certas comunicações produzidas por médiuns, sem o concurso de Espíritos, pode ser superior a outras, obtidas com a participação deles, a depender do grau de evolução de uns e de outros. Nem sempre, todavia, o fato anímico revela qualidades adormecidas ou simples ocorrências do quotidiano da vida atual ou pretérita de um médium. Muitas vezes o que se projeta é o trauma, as manifestações fóbicas, além de outras expressões de desajustes que aguardam regularização.
André Luiz, em Nos Domínios da Mediunidade, capítulo 22, intitulado “Emersão do Passado”, narra interessante fato, ocorrido numa reunião mediúnica, em que uma sensitiva, em transe sonambúlico, libera episódio traumático de outra reencarnação, à feição de uma autêntica comunicação mediúnica. Interessante ressaltar que assistia à cena, sem participar mediúnicamente do transe, um ser espiritual, na condição de algoz endurecido, cuja presença funcionava como catalisador a detonar na memória da sensitiva, pelos mecanismos dos reflexos condicionados, os lances ali fixados desde passado remoto. O fato, narrado pelo lápis mediúnico de Francisco Cândido Xavier, reflete uma situação anímica marcada pelo desajuste psicológico, passível, no entanto – segundo opinião do autor – de uma solução futura após o esvaziamento daquelas aflições e o retorno à normalidade mediúnica da referida sensitiva. Com base nessa certeza, o autor enfatiza a necessidade de conduzir o atendimento com todo respeito e interesse, procedendo-se ao diálogo esclarecedor da mesma forma como se atendem Espíritos desencarnados em sofrimento nas reuniões de intercâmbio espiritual. Até aqui falamos do fenômeno plenamente anímico, ou seja a alma do médium se comunicando. Existem, todavia, manifestações mistas ou parcialmente anímicas, em que o médium, não conseguindo se apassivar totalmente para ensejar a comunicação, introduz inconscientemente suas próprias idéias, clichês mentais e automatismo de personalidade. Uma das causas principais deste problema é a falta de afinidade entre o médium e o Espírito, o que se caracteriza, do ponto de vista vibratório, por divergência constitucionais que dificultam as ligações fluídicas indispensáveis para que o fenômeno se processe com naturalidade. Este assunto foi muito bem focado em O Livro dos Espíritos, item 223, 7ª e 8ª perguntas: O Espírito encarnado no médium exerce alguma influência sobre as comunicação que deva transmitir provindas de outros Espíritos? Exerce, porquanto se estes não lhe são simpáticos pode ele alterar-lhes as respostas e assimilá-las às suas próprias idéias e pendores.
Será essa a causa da preferência dos Espíritos por certos médiuns? Não há outra... Não havendo entre eles simpatia, o Espirito do médium é um antagonista que oferece certa resistência e se torna um intérprete de má qualidade e muitas vezes infiel.
A simpatia de que falam os Espíritos não é resultado, tão somente, de afinidades psicológicas ou afetivas, mas peculiaridades da organização perispiritual, que determinam a sintonia vibratória responsável pelo fenômeno mediúnico. Conquanto médiuns haja, constitucionalmente, bastante flexíveis e aptos a atenderem uma gama imensa de Espíritos, em situações específicas, outros médiuns, ainda que menos maleáveis, são mais adequados e aptos. É por esta razão que o trabalho mediúnico se processa mais ajustadamente quando é controlado do Plano Espiritual para o físico, deixando-se a cargo dos Mentores a escolha do médium específico para atender a cada comunicante. Isto não significa, de forma alguma, desmerecer o dirigente encarnado, mas dar prioridade ao aspecto competência, característica desses Espíritos, que são os dirigentes, de fato, das reuniões mediúnicas. De outras vezes o que se dá é um mecanismo de associação de idéias, provocado por ação telepática. O pensamento do comunicante, mal sintonizado pelo médium, apaga-se quase que totalmente em sua mente, despertando idéias correlatas, parecidas do acervo de suas experiências. No capítulo 9 da obra No Mundo Maior, André Luiz, Espírito, elucida com propriedade essa particularidade do problema: Um médico, no Plano Espiritual, pressuroso por inspirar a realização de um trabalho de assistência à saúde, na Terra, põe-se em ação mediúnica de intercâmbio, transmitindo mensagem nesse sentido através da médium escolhida para o tentame. Enquanto esta recebia a mensagem, outros sensitivos registram-lhe os pensamentos, de forma indireta, decodificando-os de uma maneira particular por meio de associações anímicas peculiares ao mundo das experiências de cada um. Certo cavalheiro recordou-se de comovente paisagem de hospital, outro rememorou o exemplo de enfermeira bondosa que com ele travara relações, um terceiro abrigou pensamentos de simpatia para com os doentes desamparados, não faltando quem se lembrasse da missão de Vicente de Paula. Imaginemos que qualquer dessas pessoas, por inexperiência, entendendo estar mediunizado, externasse essas idéias como se fossem comunicações e teríamos um exemplo peculiar de animismo por associação de idéias. As interferências anímicas podem ser provocadas ainda por interrupções intermitentes de sintonia: o médium começa a dar a comunicação e, de repente, perde o sinal, deixa de receber o pensamento do comunicante; desconcertado com as lacunas, pode ceder à tentação de preenchê-las com pensamentos próprios, num mecanismo inconsciente de preservação de sua imagem. Algumas vezes, essas perdas de sintonia são provocadas pela ação dos obsessores, interessados em inviabilizar o trabalho do médium. Para se entender corretamente o problema do animismo tem-se que compreender o papel do médium nas comunicações. Sabe-se que ele é o intérprete da mensagem que lhe chega. Ora, quem interpreta, vivencia, e não apenas repete; ele absorve em seu mundo íntimo a idéia, devolvendo-a com a vestimenta representada por seu estilo, vocabulário, emoções e acervo cultural. Quando o médium é limitado no conhecimento e menos evoluído que o Espírito que por ele se comunica, não pode transmitir a mensagem tal qual foi idealizada, por falta de experiência vivencial e valor interno para uma interpretação adequada. Neste caso não há propriamente uma adulteração anímica, mas uma incapacidade técnica para o tentame. Utilizaremos o mesmo caso narrado por André Luiz no capítulo 9 de No Mundo Maior para elucidar: o comunicante põe-se em ação para transmitir sua mensagem através de Eulália. Calderaro, o orientador de André Luiz, analisando as possibilidades da médium, assim se expressa: “Nosso amigo médico não encontra em sua organização psicofísica elementos afins perfeitos; nossa colaboradora não se liga a ele através de todos os centros perispirituais; não é capaz de elevar-se à mesma freqüência de vibração em que se acha o comunicante; não possui suficiente espaço interior para comungar-lhe as idéias e conhecimentos; não lhe absorve o entusiasmo total pela ciência... Eulália manifesta contudo, um grande poder, o da boa vontade criadora, sem o qual é, impossível o início da ascensão...”
Após essas explicações, vimos que a médium, apesar de suas limitações, conclui o seu trabalho, grafando o ditado psicográfico com razoável nitidez e com a precisão que lhe era possível. No final da reunião, sob a liderança do dirigente encarnado, os participantes se puseram a analisar a mensagem, concluindo que o seu conteúdo, conquanto edificante na essência, não apresentava índices evidentes de identificação do conhecido profissional da medicina, dada a falta de uma linguagem mais adequada, técnica e com características próprias de sua erudição. A tese animista foi ventilada sendo aceita pela maioria como tábua de salvação. Enquanto isso, na Espiritualidade, os Mentores lamentavam o erro crasso e a verbosidade intelectual daqueles colaboradores humanos, alimentados apenas superficialmente pela ciência. Seja o episódio anímico a expressão de uma experiência normal em que o médium simplesmente se desvela, a conseqüência de um trauma que eclode ou a inserção de expressões adulteradora da mensagem dos Espíritos, ele haverá de ser um episódio esporádico e passageiro que cederá lugar ao exercício mediúnico normal, na medida em que o sensitivo adquire experiência e se esforça para superar as suas íntimas dificuldades.
É comum, no começo da jornada mediúnica, quando os médiuns ainda não estão familiarizados com o processo de comunicação, que eles façam o conflito sem saberem determinar corretamente a fronteira entre o pensamento próprio e o dos comunicantes. Nesse lusco-fusco do início é muito provável que preponderem os estados arquivados no inconsciente. É por isso que acertadamente se afirma que para se alcançar o estado mediúnico transita-se necessariamente pelo anímico. Ao lado do adestramento e paralelamente a este, deve o candidato às lides da mediunidade cuidar de seu desenvolvimento moral, renovando-se interiormente e integrando-se no Bem, a fim de que os seus fatores de desajuste sejam superados antes que se convertam em viciações alienantes e caminhos de acesso para as obsessões. Pessoas excessivamente mórbidas, afeitas a queixas, repetitivas e egoístas, quando se engajam na prática mediúnica tem um tendência muito grande para o animismo-desajuste, porque seu comportamento já traduz esse estado anímico de tristeza e desencanto, decorrente de afloramento do passado nas experiências que ora vivenciam. Também estão incursas neste capítulo aquelas pessoas que, no passado, conscientemente enganaram e que, agora, inconscientemente o fazem quando em estado de transe. O Espírito Camilo, em Correnteza de Luz, psicografia de Raul Teixeira, alude a outros fatos desencadeadores do animismo, na feição de ruídos, na comunicação mediúnica tais como: encontros e desencontros que sensibilizem o médium, discussões e desentendimentos, festas sociais excitantes, jogos e entretenimentos similares, os quais se constituem fortes desatreladores das rédeas do equilíbrio emocional dos médiuns. Alguns desses obstáculos aparecem como fatos inevitáveis da vida, mas outros surgem como decorrência de uma vivência não necessariamente espírita. Uma mudança salutar de hábitos e um comprometimento cada vez maior com os valores da caridade cristã podem impor silêncio a certos condicionamentos renitentes e perturbadores. Divaldo Franco se utiliza de uma imagem muito simples para ensinar. Ele compara a nossa mente a uma vaso em forma da letra “U”, dividido em três faixas: o superconsciente, o consciente e o inconsciente. As idéias chegam pelo superconsciente como inspiração, conscientizam-se no quotidiano e são arquivadas. A inspiração mediúnica faz o mesmo percurso: primeiro sentimos, depois conscientizamos, para, em seguida, vesti-la de palavras; nesse périplo, essa inspiração passará pelo depósito do inconsciente, onde estão sedimentadas nossas idéias, nossos hábitos, assimilará aquelas “tintas”, saindo com o colorido de nossa personalidade. Alimentando-se este vaso em “U” com água poluída e lama, como temos feito, essas sujidades sedimentam-se no fundo, adulterando tudo quanto por ali passa. uando mudamos a orientação de nossos pensamentos e passamos a alimentá-los com água limpa, de início esta água entrará clara, mas sairá com a turbidez do material ali depositado; se continuarmos, porém, alimentando aquele vaso com água limpa, esta limpará o depósito e acabará saindo cristalina e pura. Esperamos que os médiuns atuantes compreendam sem demora este processo de transitar do anímico para o mediúnico, desemperrando as engrenagem medianímicas pelo exercício disciplinado e constante, e desobstruindo os canais por onde fluem as idéias através do trabalho no Bem, absorção de conhecimento e cultura, oração e meditação continuadas. Que se avaliem, a cada passo, que aprendam a se conhecerem, que se envolvam o quanto puderem nessa torrente de idéias transformadoras que avança sem cessar até iluminar totalmente o mundo. Um bom parâmetro para medir o progresso no exercício é o grau de facilidade com que o médium expressa suas comunicações. A mensagem emperrada, que não flui com facilidade, demonstra desarmonia nas engrenagens de recepção ou de transmissão , a requererem manutenção e limpeza. Para os dirigentes, a tarefa de acompanhar o desempenho dos médiuns e compreendê-los requer apurado tato psicológico, um razoável conhecimento da natureza humana e particularmente de cada indivíduo com que atua. E este conhecimento só é possível quando o grupo convive, quando de algum modo se associam os seus membros para a tarefa do bem. Somente assim alcança-se o que Kardec chamou de familiaridade, uma das condições evocadas por ele como indispensáveis ao sucesso do trabalho mediúnico. No geral podemos dizer que o animismo como sombra da mediunidade é sempre aquele pano de fundo que determina certas fixações mentais a transparecerem nas comunicações; é o que produz a mediunidade repetitiva, o maneirismo extravagante, a gesticulação exagerada... A questão do animismo na mediunidade não é, todavia, obstáculo insuperável. É simplesmente um processo a ser vivenciado e ultrapassado, nem antes nem depois do tempo. Não é de responsabilidade exclusiva dos médiuns ostensivos, mas de toda a equipe, que se deve ajustar no ministério abraçado, sob a égide da fraternidade. O problema se dilui na cooperação e desaparece, quando a tarefa é encetada com otimismo e alegria, realçando a boa vontade de quantos aspiram por compreender servindo....
BIBLIOGRAFIA NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE , ANDRÉ LUIZ NO MUNDO MAIOR , ANDRÉ LUIZ CORRENTEZA DE LUZ , CAMILO |