Vitória\ES
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ANJO SIM, ESQUELETO NÃO
AMERICO FERREIRA DE ALMEIDA
“A gota de chuva, conforme o logar onde cáe, continua sendo perola ou se transforma em lodo”.
A verdade só é encontrada pelo que é puro de coração. Purificação de si mesmo quer dizer purificação dos caminhos da vida. E, como essa virtude traz estimulos e contagios ardentes, a purificação pessoal traz comsigo, naturalmente a purificação de tudo quanto nos rodela. A mediumnidade ou a intima e frequente communicação entre o nosso mundo e o dos Espiritos tem trazido consolações, que cáem na alma, como o orvalho sobre a flôr. Com effeito, saber que o destino humano não é cruel, implacavel, como o ensinavam as antigas crenças; mas, sim, attrahente, equitativo para todos, esclarecido pelas fulgurações da misericordia divina, não é para o homem uma grande consolação? Por meio da mediumnidade, as almas falaram, consolaram muitas tristezas; sua palavra acalmou muitas dôres, reanimou muita coragem vacillante. Com a mediumnidade, levantou-se, um pouco o véo da morte e, em vez de um esqueleto, de foice, na mão, para cortar rente o fio da vida, vê-se um anjo, com uma chave de ouro, que abre as portas de uma vida mais elevada e mais completa do que esta, na terra. Não é a Morte o espectro esbranquiçado; mas, o Anjo que desde o berço vela a nossa liberdade. Se isso é literatura, é tambem verdade. Mas, essas consolações e essa certeza, muitas vezes, não se obtêm, senão depois de longos e pacientes estudos preliminares. Os phenomenos vulgares, as manifestações triviaes fornecem, ás vezes, magnificas provas de identidade, capazes de forçar a convicção dos investigadores. Não nos devemos, porém, deter na observação de taes phenomenos, senão, na medida em que o seu estudo nos seja proveitoso e nossa ação se possa se exercer com efficacia sobre os Espiritos atrazados, que os produzam. Por isso, longe de ser uma verborréa ou um verbalismo o que a Federação vem exercendo, ha mais de meio seculo, é uma verdadeira missão de caridade explicando ponto a doutrina Espirita. A Federação não cessa de aconselhar o estudo do “Espiritismo christão”. Não queiram accommodar o Espiritismo no acanhado leito da sciencia official, porque a sciencia do invisivel ha de sempre ultrapassar os methodos humanos. E’ muito mais difficil vencer as paixões subtis, do que vencer o mundo com o poder das armas. A regra, por excellencia, das relações com o invisivel é a lei das affinidades. Imprimir ao Espiritismo caracter exclusivamente experimental é um grande perigo. “Desse modo, o que sobretudo se consegue é pôr-se em relação com os elementos inferiores do Além, com essa multidão de Espiritos atrazados, cuja nociva influencia envolve, opprime os mediums, os impelle á fraude e espalha sobre os experimentadores effluvios funestos e, com elles, muitas vezes o erro e a mystificação”. Deixemos, pois, de provocar phenomenos espiritas. Estudemos primeiro a doutrina, moralisando-nos; porque os factos, as provas se apresentarão naturalmente. Moralisando-nos, sim; é uma necessidade. Cada um attrae fatalmente sêres em affinidade com seu proprio estado moral e mental. Precisamos elevar mais alto as nossas aspirações, subir pelo pensamento a regiões mais puras, ás espheras superiores do Espirito. Sómente ahi encontraremos as verdadeiras consolações, os soccoros, as forças espirituaes.
Fonte: Reformador – março, 1936 |