Vitória\ES
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Aspas em Corpo Fluídico Luciano dos Anjos Imperativos dos quais não nos pudéramos libertar forçaram a ausência de nossos artigos nas páginas desta revista durante algum tempo. Sem dúvida não terá havido prejuízos maiores para o leitor. Mas, para nós próprios, sim. Afinal, interrompemos o trabalho na grande seara permitindo com isso, por exemplo, que ficassem sem resposta,. ainda que indireta, alguns recentes ataques à Doutrina, especialmente no que respeita ao problema que uma vez mais elegemos para marcar nossa rentrée. Vai daí, enquanto os doestos se multiplicavam, procurávamos de nossa parte estudar com renovado estímulo a matéria, buscando localizar as razões preferenciais (abstração da evolutiva — esta, evidente e óbvia) que colaboram na deformação do entendimento dos que negam a personalidade fluídica de Jesus. Eis que supomos, data vênia, ter lobrigado tais razões. Podemos, em síntese, desde logo afirmar que elas são puramente conceptuais. A ilação nos decorre do seguinte panorama: o corpo fluídico de Jesus está sobejamente evidenciado dentro do próprio Evangelho (leia-se, por exemplo, o trabalho de Guillon Ribeiro “Jesus, nem Deus nem Homem”, ou “A Vida de Jesus”, de Antônio Lima; cientificamente, ele encontra todas as explicações exigíveis, à luz do que já se conhece sobre as propriedades perispirituais (leia-se “Evolução em Dois Mundos”, de André Luiz); doutrinariamente, a condição de agênere do Cristo é muito mais consentânea com o Espiritismo do que a simplesmente humana (leia-se “Elos Doutrinários”, de Ismael Gomes Braga, ou “O Cristo de Deus”, de Manuel Quintão); no campo da lógica, é difícil, senão impossível, negar a tese fluídica sem negar concomitantemente o bom-senso e o raciocínio judicioso (leia-se “A Personalidade de Jesus”, de Leopoldo Cirne); face à Psicologia acadêmica e puramente humana, o corpo fluídico do Mestre guarda e transmite consequências muito mais vigorosas no sentido do chamamento dos homens aos necessários reexames de consciência do que a banal e apoucada conceituação carnal que da manifestação do Senhor se faça (leia-se o interessante livro de Luiz Autuori “Kardec ou Roustaing?” (1); quantitativamente, não há dúvida também quanto à posição da maioria dos espíritas estudiosos, haja vista a grande procura e aceitação que “Os Quatro Evangelhos” têm tido, esgotando-se seguidamente as suas edições (leiam-se as estatísticas do Departamento Editorial da Federação Espírita Brasileira); qualitativamente, basta referir que foram e são a favor da tese da personalidade fluídica de Jesus: Bezerra de Menezes, Antonio Luiz Saião, Guillon Ribeiro, Pedro Richard, Bittencourt Sampaio, Leopoldo Cirne, Manuel Quintão, Aristides Spínola, América Delgado, Frederico Pereira da Silva Júnior, Ewerton Quadros, Ismael Gomes Braga, Antônio Lima, Zilda Gama, Leymarie, Fred. Figner, Indalício Mendes, Newton Boechat, Sílvio Brito Soares, em suma, respeitáveis companheiros de Espiritismo (leia-se nosso artigo “Ainda o Corpo Fluídico de Jesus”, publicado em “Reformador” de Maio de 1962). Ora, descortinado diante de nossos olhos esse quadro lisonjeiro, como entender o comportamento do grupo recalcitrante? Eis a grande, resposta que nos abalançamos a oferecer: o problema é antes conceptual do que de puro aprendizado. A lição foi dada com requintes de inteligência e profundidade filosófica; a lição tem sido reiteradamente repetida com vincos extremos de amor e pregação imparcial. Porque então a sombra da dúvida ainda tolda as mentes de alguns confrades? Puro talante de negar? Claro que não, eis que são espíritas sinceros e conhecem bem a moral da Doutrina. Má-fé? Absurdo, pois se dela fizessem vezo nem sequer teriam a coragem de falar em nome do Cristo. Nesse caso, escorre pelo crivo da nossa análise a mais provável, senão a única explicação: ainda não conceberam bem o problema e muito menos os essenciais dados dele (conceberam, aqui, deve ser entendido no seu mais alto sentido filosófico). Acima de tudo, não conseguem conceber o enunciado do problema. E, para isto, não basta ser nem culto nem inteligente, advertência que “a priori” fazemos antes que nos advirtam, a nós, de que há alguns que, embora negando a tese, são reconhecidamente cultos e inteligentes. E’ claro que, no campo conceptual da mente, esses dois talentos pesam bastante; mas não valem tudo: Conceber em níveis altos não é tarefa que decorra nem do conhecimento puro e nem do puro amor; mas, antes, é o corolário natural do conjunto dessas duas grandes forças evolutivas. Por isso é fruto do que chamamos Sabedoria. O escopo deste artigo, pois, é tentar deslocar momentaneamente o problema para, num ensaio a mais, visar à concepção do problema, a fim de que seja aceito racional e espontaneamente. Para isso, precisamos antes coligir alguns dados do livro de André Luiz intitulado “Evolução em Dois Mundos”, quando ‘trata de definir o corpo mental. Na 1ª edição daquela obra, comenta o autor espiritual em nota aposta ao rodapé da página 25: “O corpo mental, assinalado experimentalmente por diversos estudiosos, é o envoltório sutil da mente, e que, por agora, não podemos definir com mais amplitude de conceituação, além daquela com que tem sido apresentado pelos pesquisadores encarnados, e isto por falta de terminologia adequada no dicionário terrestre” (o grifo é nosso). Em “Os Mensageiros”, diz-nos Emmanuel, prefaciando o trabalho do bom médico fluminense, às págs. 7/8 da 5 edição: “Ninguém pode trair as leis evolutivas. Se um chimpanzé, guindado a um palácio, encontrasse recursos para escrever aos seus irmãos de fase evolucionária, quase não encontraria diferenças fundamentais para relacionar, ante o senso dos semelhantes. Daria notícias de uma vida animal aperfeiçoada e talvez a única zona inacessível às suas possibilidades de definição estivesse justamente na auréola da razão que e volve o espírito humano.” “O chimpanzé, desse modo, somente encontraria dificuldade para enumerar os problemas do trabalho, da responsabilidade, da memória enobrecida, do sentimento purificado, da edificação espiritual, enfim, relativa à conquista da razão”.(o grifo é nosso). Em “Mecanismos da Mediunidade”, a folhas 19, lê-se ditado por André Luiz: “Assim, as notas dessa natureza, neste volume, tornadas naturalmente ao acervo de informações e deduções dos estudiosos da atualidade terrestre, valem aqui por vestimenta necessária, mas transitória, da explicação espírita da mediunidade, que é, no presente livro, o corpo de idéias a ser apresentado” (o grifo também é nosso). Finalmente aqui está talvez a melhor transcrição, colhida na obra de Pedro Granja “Afinal, Quem Somos?”, cujo prefácio, do imortal Monteiro Lobato, frisa, à pág. 19: “Fossem os homens leões e Deus teria majestosa juba. E se os homens fossem minhocas, Deus seria um minhocão.” E com essas citas temos uma idéia razoável das dificuldades que decorrem de dois aspectos do trabalho espiritual: primeiro, transformar idéias em palavras, transmutar o subjetivo, o abstrato, em vocábulos materiais, objetivos e concretos; segundo, ajudar a nós, encarnados, a raciocinarmos e a concebermos, ao menos por um átimo de segundo, para além da nossa condição de... chimpanzés. De certa feita — contou-nos o Presidente da Federação Espírita Brasileira — consultou-se André Luiz sobre a conveniência de mudar certa palavra por ele empregada num dos seus livros, a qual, embora correta, parecia não exprimir adequadamente a idéia que, a rigor, se supunha pretender significar. E mandou-se-lhe uma longa série de termos que talvez coubessem melhor. Resposta de André Luiz: “Mantenham o primitivo; ainda é o melhor para exprimir o que queremos.” Destarte, se a eles falta o recurso material indispensável para nos revelar a exatidão de seus conceitos, na mesma medida estes nos faltam para conceber a dimensão das verdades que esses mesmos conceitos guardam. Eis, portanto, o decepcionante apanágio de nossas mentes, ou melhor, de nossos Espíritos encarnados, incapazes de conceber determinadas revelações. A tese do corpo fluídico de Jesus, quando ditada, requereu uma calculada prolixidade, a fim de à guisa de repetição, até de enfadamento, a idéia pudesse ser assimilada. Atente-se para a dificuldade dos Evangelistas ao se dirigirem às gentes do século XIX, se considerarmos que cem anos depois ainda há os que renteiam a questão e não lhe conseguem alcançar o cerne. Então, perdem-se em divagações sem compreender como pudesse Jesus não ter um corpo igual ao nosso, tão bem visto, pregado, torturado, desfalecido no topo do Gólgota, após muitas horas de angústia e até de “desespero” (2). Corpo fluídico tem sido insistente e erroneamente entendido como um corpo gaseificado, vaporizado, aeriforme, translúcido, sendo concebido em termos de fantasmagoria, quiçá ilusório e tão diáfano quanto absolutamente imaterial. A aparência do quase-nada. E’ natural que, assim concebido, o corpo de Jesus seja repelido. E’ natural que se torne inconcebível e repugne à razão. Afinal, lá está nos dicionários a lexicologia traiçoeira: “Fluídico: Diz-se, em espiritismo, de certos corpos ou sombras, impalpáveis, mas que a fotografia reproduz” (“Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, pág. 557, 1ª edição). Mas, eis que já se passam cem anos desde que a revelação foi dada. Às vésperas dessa importante comemoração já é tempo de deslocarmos o problema para fulcros novos, em torno dos quais passem a gravitar novas mentalidades, melhores raciocínios, à luz duma concepção liberta dos atilhos e das grilhetas que acorrentam as mentes lamentavelmente prisioneiras do obscurantismo conceptual. Coloquemos, para melhor interpretação, aspas no chamado corpo fluídico de Jesus! E completemos a tarefa esclarecendo: era de carne e bem de carne o seu corpo; fluídica fora a sua gênese, a sua origem, o seu nascimento, a sua manifestação entre os terrenos. Roustaing nos ensina que Jesus tomou à Natureza terrestre os elementos constitutivos do seu perispírito: “Jesus houvera podido, unicamente por ato exclusivo da sua vontade, atraindo a si os fluidos ambientes necessários, constituir o perispírito ou corpo fluídico tangível que vestiu para surgir no vosso mundo sob o aspecto de uma criancinha” (pág. 161 da 4ª edição). “.. . Jesus assimilara, para formá-lo (seu corpo), os fluidos ambientes que servem à formação dos vossos seres” (pág. 162, interpolação nossa). Ora, era portanto da Terra a constituição. Era carne, era osso, era sangue, músculos, glândulas, humores, secreção, água, proteínas, gorduras, carboidratos, etc. Tudo igual a qualquer mortal. Vale aqui o registro das experiências de Williarn Crookes, Charles Richet, César Lombroso, Alfred Russel Wallace, Alberto de Rochas, Ochorowicz, Lodge, Hodgson, Ashburner, Myers, etc., que comprovaram cientificamente a pulsação dos Espíritos materializados, a respiração, a exsudação, etc. Mas havia necessidade de que se nomeasse a forma do corpo de Jesus numa época em que todos esses conhecimentos ainda eram precaríssimos. Por conseguinte chamou-se fluídico ao corpo carnal de Jesus. Tanto quanto “ectoplasma”, que valia para designar a “porção periférica do citoplasma”, mas que hoje ganhou nova conceituação, graças a Richet, e representa o plasma emanado pelos médiuns de materialização. Assim, quando hoje o problema já pode ser concebido em termos mais avançados, nada impede que, embora entendendo-o melhor, continuemos a aplicar o adjetivo “fluídico”, que passa a ter aspas ou a ganhar, como no caso acima exemplificado, um novo valor lexiológico, aí então podendo dispensar tais aspas. Deveríamos também abordar um outro aspecto muito importante e de maior profundidade ainda: constituído o corpo de Jesus de elementos tomados à. Natureza terrena, por isso mesmo, são negativos (3) (o mundo material é um conglomerado molecular criado em função da falência espiritual e, como dizia o próprio Kardec, “é secundário; poderia até deixar de existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a essência do mundo espírita” — parte VI da Introdução de “O Livro dos Espíritos”). Como entender, então, a formação do perispírito do Mestre, que era espiritualmente todo pureza, através de tais elementos negativos? Mas isso é questão que fica para outro artigo, que pretendemos escrever, já que há sensatas explicações para o aparente absurdo. Mesmo porque ainda vimos estudando o assunto com muito carinho, nós e o bom confrade Newton Boechat (4). (1) A propósito deste trabalho, sem dúvida muito interessante, além de prejudicado na sua forma expositiva, com parágrafos ininterruptos (isto às vezes dificulta até o entendimento), temos a lamentar que o autor preferisse ficar sempre no meio termo, sem inclinar-se para uma ou outra hipótese, quando, afinal, os seus raciocínios, vez ou outra (ou quase sempre), o traem e ele se revela um autêntico rustenista... (2) Nós, os espíritas, sabemos ser absurda a imprecação de Jesus, do alto da cruz, contra o Pai que o abandonara. Mas, ninguém melhor do que Roustaing explicou os acontecimentos. (3)“Não esqueçais que o Espírito assimila seu perispírito às regiões que percorre; que a Terra é um dos mundos inferiores e que, por conseguinte, os elementos de tangibilidade podem aí reunir-se tanto mais facilmente, quanto mais poderosa seja a vontade do Espírito”. (pág. 162 da 4ª edição, da “Revelação da Revelação”). “Houve, portanto, apropriação dos fluidos superiores ao planeta inferior que ocupais” (pág. 164 da mesma obra, grifo de Roustaing). (4) Ao término da leitura deste trabalho não se venha a conceber o problema equivocadamente e, isso, proclamar inversamente que discordamos da tese do corpo fluídico de Jesus. Se chegarem a essa ambígua conclusão, releiam por Deus tudo de novo, em memória de Roustaing.
Fonte: Reformador – janeiro, 1966 Responsável pela transcrição:
Wadi Ibrahim |