Vitória\ES

 

ENSAIOS DE UM APRENDIZ

ESPERANÇA E FÉ

No meu despretencioso escripto, anterior a este, disse que procuraria provar que as unicas condições que nos habilitam a realizar um pouco de ventura na terra, consistiam nas duas elementares condições da Esperança e da Fé.

E assim, tenho como certo que o espirito, alienando de si estas duas possibilidades, enfraquecida a fé e perdida a esperança, fatalmente será conduzido ao desespero, condição em que reside a suprema desgraça.

Sim, na descrença e no desespero reside a suprema desgraça, porque formam um ambiente psychico incompativel com qualquer disposição feliz, mesmo quando nos sejam favoraveis as condições externas.

Desalentados, abatidos ao peso das vicissitudes da lucta, resultante da constante injuncção com os elementos contrarios, visiveis e invisiveis, sem fé — bussola a nortear a nossa rota — sem esperança — pharol a illuminar as trevas da noite de nossos erros, irremediavel será a perda do espirito, asphyxiado em seu envoltorio material.

Ora, a fé e a esperança são virtudes tão intimamente ligadas que, por assim dizer, constituem urna só e unica virtude.

Ha ainda urna outra condição moral que torna menos amarga a existencia tão plena de dôres, tão cheia de soffrimentos physicos e moraes.

Refiro-me á condição moral resultante do altruismo innato que, pelo affecto nos prende ás outras creaturas, aos semelhantes pela amizade, aos superiores pela veneração e aos inferiores pela bondade.

Esses affectos, disciplinados e a nossa vontade desenvolvidos activamente, nos libertam simultaneamente do enjôo e do tedio.

O essencial para a felicidade é ter o coração dignamente occupado... mesmo que seja pela dôr.

Vestir o espirito com as roupagens dos sentimentos de abnegação por nosso proximo, envolver nosso coração nas vestes dos sentimentos altruisticos e elevados, é dever, é indispensavel a todo aquelle que envereda pelo caminho da sua reforma moral.

Sem experimentar essas doces cadeias de flôres que, pelo sentimento, nos ligam á vida, communicando-lhe todo o encanto que ella comporta, como experimentar a sensação de felicidade? — esse funesto sentimento que obscurece nossa alma — faz-nos provar unicamente fugitivos prazeres, cujo resaibo é a enfastiada saciedade, quando não o remorso voraz.

Colorindo fallaciosamente as suas tentadoras imagens, arrastando-nos como ao incauto viajor arrastam e attrahem as enganadoras miragens, onde ha sombra e nada mais, aquillo que nos prometteu, jamais realiza, porque quasi sempre o que da satisfação nos resta é o estupido bocejo ou a amortecida expressão de cansaço.

Entretanto, dos gozos do altruismo costumamos guardar uma recordação, uma doce saudade, que é o que fica de melhor das coisas boas d´este mundo.

Não nos perturba a paz de consciencia e, quando a generosidade de nós exige um sacrificio, sentimos, como premio d’esse sacrificio, que todo o coração se nos banha em uma amoravel e confortante doçura.

Quaes os prazeres que exceder podem aos do devotamento e abnegação?

Nenhum certamente, porque tudo o que o mundo nos offerece, ao fim de certo tempo nos entedia e aborrece, e os mais agradaveis prazeres e as mais intensas alegrias em pouco transformam-se em fontes perennes de dôres e tristezas.

Só o amor, puro, elevado e santo — amor a DEUS sobre todas as coisas e ao proximo como a nós mesmos — é duradouro, é eterno, porque é a emanação de Deus, envolvendo suas creaturas, como o pae amoroso envolve seus filhos em doces e carinhosos olhares.

Os seccos propagandistas da falsa doutrina, da erronea moral do interesse, não comprehendem, não admittem o desinteresse, a abnegação, o altruismo e olham-nos com olhares desprezadores.

Incomprehendidos, deprimidos, relegados ás condições subalternas na lucta pela vida, em que vencem os mais ousados e sem escrupulos, levantemos nossos olhares para o alto a procurar a doce figura, meiga e consoladora daquelle que por nós deu a vida em holocausto aos nossos erros e crimes.

Quando o infortunio ferir nossas almas, illuminemos nosso coração, prégando a fusão em uma só formula das condições de felicidade e do dever.

Se não amarmos o dever, a felicidade fatalmente nos será estranha.

A realização do natural destino das creaturas importa na acquisição de elementos de felicidade, não da felicidade egoistica que procura os gosos effemeros, que se satisfaz com os apetites grosseiros, mas a felicidade que encontra doçuras no soffrimento, alegrias na dôr.

O esforço insensato para fugir ao resgate da divida contrahida pelo nosso passado criminoso e quiçá o nosso presente não menos ominoso acaba por comprometter uma infinidade de existencias.

Consideramos geralmente um mal tudo o que contraria nossos desejos ou embarga nossa espontaneidade, esquecidos de que os obstaculos são uteis ao nosso progresso.

Cabe-nos, pois, o dever de disciplinar nosso instincto de revolta, para fazermos em nós, como recommendava S. Francisco de Salles — brotar uma roseira espiritual, differente das roseiras corporaes. “Nestas os espinhos ficam e as rosas cahem; naquellas, ir-se-hão os espinhos, ficando as rosas.”

Convem comtudo observar que na roseira da vida são em muitissimo maior numero os espinhos do que as rosas...

Não nos aterrorizem, porém, estas condições tão precarias da vida na terra, pois, tomando um pouco da facil, commoda e pachorrenta philosophia optimista de Leibnitz, que entende que este é o melhor de todo os mundos possiveis, seremos algum tanto ditosos.

Este não é certamente o melhor de todos os mundos, tanto que alenta-nos a esperança de uma outra existencia, compensadora das amarguras e tormentos da presente vida.

Mas por isso mesmo os demasiadamente idealistas da felicidade na terra hão de forçosamente soffrer muito em sua vã procura de um céo nesta vida em que a dôr nos espreita e acompanha do berço ao tumulo.

E’ preciso ser humilde, para desfructar a unica felicidade relativa e positiva ao nosso alcance, que é a sabia combinarão entre o nosso sonho e a realidade das coisas.

Anthero do Quental disse que a alegria e a dor moram em dois aposentos contiguos dentro de nós, despertando a dôr, quando a alegria faz muito ruido.

Este é o symbolo que exprime a necessaria alternativa do prazer e do soffrimento.

Resulta d´ahi que quando nos invade a alma o negror de um pessimismo a Schoppenhauer devemos nos lembrar de que a vida nem sempre se nos apresenta sombria e má.

Assim tambem a intermina continuidade de urna sensação penosa ou agradavel não se coaduna com o que conhecemos de nossa psychophysiologia.

Façamos, pois, esforços no sentido de conquistar, adquirir para patrimonio de nosso espirito esses sentimentos: a FÉ e a ESPERANÇA.

Em outro ligeiro ensaio tratarei da virtude por excellencia — a Caridade.

Reformador, 1 de novembro de 1911
Responsável pela transcrição: Wadi Ibrahim

Mantida a ortografia original


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