Vitória\ES
|
| Fora da caridade não
há salvação
Todas as religiões pugnam para a salvação de seus fiéis. Mas de que procuram salvá-los? Procuram salvá-los do inferno, e assim até depois de mortos, ainda estão dizendo missas para tira-los do purgatório. A outros, basta crer no sangue do Cristo para ficarem salvos. Estes que assim procedem não compreenderam o que disse o apóstolo Paulo, quando diz: Ainda que eu falasse a língua dos homens e do anjos, e não tivesse caridade, seria como metal que soa, ou como o sino que tini. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios, e toda a ciência e ainda que tivesse toda a fé, ao ponto de transportar montanhas, e não tivesse caridade, nada seria. Ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e não tivesse caridade, de nada me aproveitaria. A caridade é sofredora, é benigna: a caridade não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não trata com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não julga com injustiça, porém julga com a verdade, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca acaba, porém ainda que haja línguas, cessarão, ainda que haja profecias, serão aniquiladas, ainda que haja ciência serão aniquilada. Vem o espiritismo, e ensina: fora da caridade não há salvação. Mas de que nos precisamos salvar? Precisamos nos salvar é dos sofrimentos de toda a qualidade. Sofremos, porque erramos, e por ver os outros errar. Quais os motivos que nos conduzem ao erro? Primeiro é a ignorância. Vem depois a gula, a intemperança, a concupiscência, a luxúria, o orgulho, o ciúme, a inveja, a vaidade, o ódio, os desejos de vingança, a preguiça, o comodismo, a avareza, o egoísmo, todos estes inimigos da alma, unidos pela ignorância, formam os grilhões de que nos precisamos libertar, o que só conseguiremos, com a prática da caridade como ensinou Paulo. São os fatores da gula, da intemperança, da luxúria, acolitados da embriaguez, fumo e jogo, os portadores das enfermidades do estômago, rins fígado e intestinos, perturbando o sistema nervoso no seu equilíbrio de manter a vida. Daí as dores e sofrimentos de que necessitamos nos salvar. Os orientais ensinam que só há duas fontes: uma a sabedoria, a outra a ignorância; da ignorância brotam todas as dores, todos os sofrimentos físicos e morais da sabedoria, jorram todas as felicidades do corpo e da alma. No livre arbítrio, no poder da vontade do homem, está o fator da vitória, quando guiado pela sabedoria, cuja essência está em nos conhecermos: o que conseguiremos, perguntando a nós mesmos, como desejaríamos que nos fizessem ou não, isto ou aquilo, servindo-nos dos erros dos outros, como um espelho, para não fazermos o mesmo. Então, quando chegamos a este ponto, necessitamos da caridade, por ser ela que nos salvará guiando os nossos passos, pensamentos e sentimentos. Mas como a caridade poderá salvar-nos do egoísmo, da avareza, sentimentos esses que nos impedem ver as necessidades e direitos alheios, deixando-nos sempre insatisfeitos? Como poderá a caridade salvar-nos do orgulho e da vaidade, sentimentos que sempre rebaixam os outros aos nossos olhos deixando-nos intranqüilos? Como poderá a caridade, salvar-nos do ódio e desejos de vingança, que tanto nos faz sofrer? Como poderá a caridade salvar-nos de mentir, da maledicência, de fazer maus juízos dos outros, que tanta perturbação acarreta, tanto a encarnados como a desencarnados? Como poderá a caridade salvar-nos do comodismo e preguiça que tanto estila a nossa alma? Como poderá a caridade salvar-nos da gula, da concupiscência, e intemperança, que tanto sofrimento nos acarreta? Como poderá a caridade salvar-nos da ignorância, fator de todos os nossos erros? A caridade nos salvará, com o trabalho na renúncia, humildade, modéstia e estudo. Dissemos que é com o trabalho, renúncia e estudo que conseguiremos a salvação, mas de que forma? Como ensina Paulo: a caridade não trata com indecência, não busca seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, é sofredora e longânime, não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece. Para não tratarmos com indecência, é necessário ser delicado e atencioso, o que não é difícil quando se trata entre iguais, mas o que é necessário, é que essa conduta seja com todos, principalmente com aqueles que nos querem humilhar. É suportando a humilhação, não tirando represália, embora isso fosse fácil: é tratando o nosso contendor com delicadeza que venceremos o nosso orgulho, vencendo o orgulho, nos salvamos do sofrimento e intranqüilidade que ele gerava. Logo, o tratar com delicadeza, foi caridade não para o contendor, mas para com nós mesmos, para com ele foi cumprimento do dever. É assim que a caridade é sofredora, benigna, não se irrita, e não suspeita mal. Em tudo isto está a renúncia do conceito elevado que de nós mesmos fazíamos. Se assim não procedermos continuaremos no sofrimento proveniente da nossa vaidade e orgulho, de nada nos valendo o cultivo intelectual e científico, de nada nos valerão os sacrifícios que matam o corpo ou que empobrecem, nem mesmo as mediunidades por mais belas que sejam. Como nos salvaremos do nosso egoísmo e avareza? Logo dirão: pela caridade (este nome tão suave, a maior parte das vezes está sendo ocupado como capa para chuva e frio) e tudo isto porque? Por falta de compreensão, por ignorância embora hajam anéis e diplomas. Suponhamos umas crianças órfãs de pai e mãe, as tomamos para nosso lar como filhos, mandamo-las à escola e aos cursos superiores, tornando-se homens e mulheres portadores de um ou mais diplomas, com os quais adquirem brilho e distinção na sociedade. Logo dizem: que grande caridade Fulano fez a aquelas crianças, não eram seus filhos, tratou-os e educou-os como se fossem. Como está enganado quem assim pensa. Nesta conduta houve caridade, mas não foi para com as crianças, mas sim para com aquele que as recolheu e educou. Recolhendo-as e educando-as, salvou-se do comodismo que amolece os espíritas; salvou-se do indiferentismo que arrefece a alma, gastando com alimentação, vestuário e educação, salvou-se da avareza, egoísmo e usura. Logo a caridade foi para ele, essas crianças foram a oportunidade que se lhes ofereceu para através dela renunciar o apego as coisas materiais e gozar esse sentimento espiritual de ser feliz, nos felizes que fez. Desta arte, essas crianças são para este que as recolheu verdadeiros benfeitores, e como tal, credores que precisam ser pagos. E de que forma? Nunca exigindo delas o reconhecimento, nunca lhe lançando em rosto, o que por elas fez. Mesmo que mais tarde elas sejam ingratas. Mas se tudo isto fez para se mostrar, para ostentar grandeza, de nada lhe vale para a sua salvação, porque não foram os sentimentos de piedade e amor que o levou a prática do bem, foi ainda o orgulho e a vaidade. Daí, Paulo dizer: seu eu der tudo o que tenho para sustentar os pobres, e não tiver caridade, de nada me aproveita. Neste mesmo conceito, ficam aqueles que prestam qualquer benefício, visando uma recompensa na terra ou no céu, procedem e agem em interesse próprio. Por isso Paulo ensina que a caridade não busca os seus interesses. Como poderá a caridade salvar-nos do ódio e desejo de vingança? Ainda um exemplo para sermos compreendidos. A... odeia mortalmente B..., ao ponto de lançar em seu caminho, todas as dificuldades imagináveis, correndo B... risco de vida, além de grandes prejuízos, não podendo B... ter descanso. Sucede, que A... tem em vista certo negócio com C..., que muito o interessa. Mas como todos os negócios precisam cautela, C... procura B... para colher informações de A... e B... apesar dos prejuízos que teve e risco de vida, faz de A... as melhores referências quando C... conclui o negócio com A... lhe faz sentir que fez semelhante negócio, porque B... dele deu as melhores referências. Mais tarde A... tem certo negócio com D... e D... em conversa com B... conta-lhe o negócio que tem com A... e é ainda B... que o aconselha a fazer negócio. Assim D... realiza o negócio com A... dizendo-lhe que B... deu dele ótimas informações, e que foi por elas que fez o negócio. A... com referências de B..., sente-se aniquilado em seu ódio. Passado algum tempo mais, A... procura realizar certo negócio com E..., negócio este que fará sua ruína se a não realizar, e sua independência se o concluir. E..., que é amigo de B... consulta-o a tal respeito, e B... não só dá boas informações, como até se prontifica para garantia se necessidade houver. E... fecha negócio e informa a A..., foi em virtude das informações de B... que se ofereceu para garantir a operação se houvesse necessidade que realizem o negócio. A... cuja independência ou ruína dependia desse negócio, capacita-se do caminho errado em que andava na conduta com B...: Sente-se diminuído, diante daquele a quem odiava, e tudo fazia para o aniquilar. Quando por ele passa, sente-se envergonhado e não descansa enquanto com ele não faz a paz. Depois disto, dirão: que enorme caridade B... fez a A..., B... não fez caridade a A..., B... fez caridade a si mesmo, fez o que queria que lhe fizesse se estivesse em idênticas condições, cumpriu com seu dever, e cumprir com o dever não é fazer caridade. Caridade houve para com ele mesmo, pois assim se conduzindo, salvou-se da represália e dos perigos em que a ignorância de A..., tantas vezes o colocou, salvou-se de um inimigo fazendo dele um reconhecido, teve a caridade para consigo obedecendo a Paulo, sofreu com resignação, foi benigno, não teve inveja, não se ensoberbeceu. A... forçado pela conduta de B..., compreende o motivo porque o Cristo ensinou faze o bem a quem te fez o mal, e tem bons sentimentos para com aqueles que te perseguem e caluniam.
Autor e Local da Publicação Não Anotados |