Vitória\ES
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| Deus Está Morrendo?
Albertina de Staêl A maior surpresa que reserva a Nova Teologia dos Cristão-Ateus, proclamadora da Morte de Deus, parece advir, principalmente, do aproveitamento circunstancial da obra do filósofo alemão NIETZSCHE. Atêm-se esses teólogos "renovadores" à proclamação do Louco na obra "A GAIA CIÊNCIA". Dramaticamente o Louco lamenta-se anunciando a morte de Deus e tem a seguinte advertência: "Nós o matamos, eu e você; somos os assassinos de Deus!" Já no livro "Assim falou Zaratustra" a redação de Nietzsche se revela diversa. Ele escreve: "Os deuses estão mortos! Os homens os mataram!" Sem os originais alemães ao 'nosso alcance, encontramos a versão francesa com a mesma tradução: Les dieu son mortes! Les hommes les ont tués!" De maneira, que, por detrás da crise teológica e dos fogos de artifício com que se enfeitam três linguagem técnicas que se fundem, - a Teologia, a Poesia e a Filosofia, em um fenônemo a nosso ver puramente cultural, surge uma indagação tão singela que, formulada, chega a parecer ingênua. E esta é a seguinte: Nietzsche proclamou a morte dos Deuses ou de Deus? A resposta a esta pergunta pode apagar de todo o fogo que faz ferver o caldeirão teológico, bastando para isso que nos detenhamos na diferença abismal que vai posta nessa categoria substantiva, Deus e Deuses, singular e plural. Mas, de qualquer forma essa tirada de filósofo delirante contém muito de verdadeiro: todos os deuses, sucessivamente criados pela imaginação dos homens desde que há homens na Terra, com capacidade de pensar, todos esses inumeráveis deuses morreram no espírito humano o que quer dizer que ninguém mais, ou pelo menos quase ninguém já crê em seu poder, em seu domínio, e mesmo em sua existência. E, todavia, o sentimento da divindade é um dos que estão mais profundamente incrustados na mentalidade humana. Desde todos os tempos o homem sentiu que não é ele que regula o curso dos astros, os fenômenos metereológicos nem qualquer coisa que se passa em (torno dele e até mesmo em seu próprio corpo. Houve pois a necessidade de encontrar urna causa, um autor e diretor de todos esses fenômenos, de onde a idéia da Divindade cuja existência sempre se impôs e, realmente, ainda se impõe. O problema que se propõe a este respeito não é saber como o homem pôde chegar a conceber essa noção, porém antes de saber como certos homens chegaram à negação dessa noção isto é, ao ateísmo. Quem, pois, a seu ver, matou Deus ou os deuses? Precisamente, como anota Nietzsche, aqueles mesmos que se atribuíram a missão de fazer conhecer a Divindade a seus contemporâneos, aqueles que quiseram, como os Gigantes da lenda clássica, revoltados contra Júpiter, por este desejar fazer a montanha Ossa sobrepor-se ao monte Pelion, na Tessália, alcançar e destruir o Céu. Quiseram definir o Infinito e, naturalmente, caíram no ridículo e no absurdo. Ora, é bem sabido que o ridículo tem força de, invariavelmente, aniquilar tudo em que toca. Foi o que sucedeu à noção de "Causas Finais", tão detidamente estudada por Aristóteles. Essa noção, que resumimos hoje sob o nome de Finalismo foi, no término do século passado, explorada a fundo por um campeão do ateísmo, Sébastien Faure, que publicou um livro intitulado "Les Crimes de Dieu", no qual desenvolve a seguinte tese: O Deus das Religiões e de todos os deístas deve ser perfeitamente justo, perfeitamente bom... ou não ser! Ele deve igualmente ser todo-poderoso e, por conseguinte, capaz de executar plenamente sua justiça e sua bondade em suas obras e, particularmente, em nosso mundo, Ora, verificamos que a soma das coisas boas e justas, é minimizada Por conseqüência, ou Deus não existe ou esse Deus não é bom nem justo, ou e'n'tão é incapaz de fazer reinar o bem e a justiça em suas obras, o que equivale ainda a uma negação da divindade. E o autor expõe longamente não apenas os crimes resultantes da vontade dos homens, mas ainda todas as hecatombes que caem sobre o Universo, as epidemias, erupções vulcânicas, tremores de terra, inundações etc., que ele considera crimes do Autor do Mundo. A reputação que os teólogos opuseram a esta tese é, realmente, pobre em argumentação. Alegaram a "liberdade" que Deus deu ao homem de escolher entre o bem e o mal. Mas Deus deveria prever que na maioria dos casos o homem faria mau emprego desse "presente". E Deus se assemelharia a um pai de família que desse como distração a um filho de três anos, cartuchos de dinamite, um fúsil, uma navalha, etc, recomendando-lhe que não se servisse desses instrumentos. Quanto aos flagelos da Natureza, eles foram considerados punições de Deus pelos crimes humanos e, sobretudo, pelo crime imperdoável do primeiro homem ter comido o fruto proibido. Uma refutação infinitamente mais poderosa e mais lógica é fornecida pela hipótese da "Evolução Integral". Vemos o mal onde ele realmente não está e essa aparência de mal é apenas um meio de assegurar o desenvolvimento da evolução de toda a individualidade: este constitui mesmo um único meio possível de realizar essa evolução. Ora, coisa mais ou menos semelhante ocorre em nossos dias no que concerne à noção de Divindade. Os que se atêm ao ateísmo fazem o seguinte raciocínio: "Deus ou Deuses que me descreveram tão minuciosamente (e aqui usamos o substantivo no plural para lembrar que Jesus é também considerado Deus) a teologia oficial, são absurdas e ridículas, pois Deus não existe!" Não percebem a falsidade desse raciocínio que peca por uma generalização intempestiva e ilógica. Deveriam dizer: "O Deus que vós me descreveis é absurdo e, assim sendo, não existe. Mas tenho em mim uma intuição tenaz e imperativa me dizendo que deve existir qualquer coisa ou alguém que deve ser o autor responsável dos sentimentos inatos enraizados no fundo de minha consciência e essa qualquer coisa ou esse alguém não podem estar em contradição com esses sentimentos Deixai-me pois, procurar o que seja essa qualquer coisa ou esse alguém." Se não encontramos a possibilidade de definir tão precisamente quanto desejaríamos a Divindade, abstemo-nos de toda definição. Mais vale isso que recorrer a uma definição falsa e reconheçamos que nisto reside o único problema ainda não resolvido entre tudo quanto nos apresenta o Universo. Há dois mil anos Cícero escreveu um "Tratado da Natureza de Deus" (De Natura Deorum), no qual expunha as opiniões de um epicurista, de um estóico e de larga medida para a decadência dos deuses do Olimpio e para o desenvolvimento de um ateísmo nas classes instruídas do Império Romano, se bem que se continuasse, por rotina, as práticas do culto nos templos. No Cristianismo todos os tratados sobre o conhecimento de Deus e de seus atributos, desde Sto. Agostinho até 'nossos dias, passando por Fénelon e Bossuet, nunca convenceram a ninguém a não ser aqueles que já tinham uma fé, por assim dizer, prévia, e, pelo contrário, forneceram argumentos aos adversários da religião católica. Todas as definições dogmáticas promulgadas pelos numerosos Concílios, sob pretexto de criar uma perfeita unidade de crença entre os fiéis dotados de uma sólida fé, afastaram da Igreja muitos dos que eram partidários de opiniões tidas por condenáveis, bem como grande quantidade de indecisos. Podemos citar, como exemplo, entre outros, os canons 15 e 16 da Cessão VI Capítulo 12, do Concílio de Trento (1545 - 1563), que decidiu e decretou solenemente: Que ninguém, enquanto nesta vida mortal, deponha sobre o "mistério oculto" da PREDESTINAÇÃO uma confiança presunçosa a ponto de se supor decididamente o número de predestinados... pois, sem uma revelação especial, não se pode saber quais são os que Deus escolheu". Assim, pois, segundo o Concílio de Trento, que pretendeu reformar a Igreja, modernizando-a, é preciso supor e sobretudo CRER ( sob pena de anátema e de ex-comuhão) que Deus escolhe entre suas criaturas, seus filhos, um certo número de predistinados, de privilegiados, que ele destina à felicidade eterna, voltando todos os outros ao castigo também eterno do inferno! Não! Um tal Deus não existe, assim como não existe Baal, Maloc ou Júpiter, mas isso não quer dizer que Deus não existe. Significa apenas que os homens se enganam quanto à natureza e atributos da Divindade. E apenas isto! Em todas as religiões, em todos os cultos, sempre houve personalidades que se supõem confidentes privilegiados da Divindade e que, sem qualquer prova em apoio disto, e por vezes apenas por boa-fé, ousam afirmar que Deus fez isto ou aquilo, que ele deseja ou ordena isto ou aquilo... Não nos deve espantar pois o progresso do anticlericalismo e o desespero de uma Igreja moribunda. Mas é preciso não confundir anticlericalismo com ateísmo. Este último é, e em verdade, tão raro quanto o primeiro é freqüente. Basta que olhemos em torno de nós: diariamente vemos anticlericais notórios que não deixam por nada no mundo seus filhos sem batismo e sem a primeira comunhão. Se procuramos analisar essa mentalidade veremos que há, entre tais pessoas, algo mais do que hábito ou rotina. Elas sentem a necessidade de uma Divindade e de uma religião. Mas, por outro lado, constatam que uma multidão de fiéis levam conduta mais que defeituosa. Baseados nisso acusam a religião e concluem que os cléricos encarregados do ensino religioso estão em erro ou mentem. Eis porque são anticlericais, mas não ateus. O sentimento religioso inato não se extingue inteiramente neles. Bastaria, para reviva-lo, que lhes apresentassem a Divindade e a Religião sob uma outra luz, sob uma perspectiva maior, mais ampla, mais racional. A decisão citada acima, do Concílio de Trento, a respeito dos predestinados; é tanto mais surpreendente porque a Igreja pretende tirar todo seu ensinamento das "Escrituras Sagradas" e afirma terem sido reveladas diretamente por Deus. Ora, lemos na Bíblia, no livro de Ezeqúiel estas palavras que o profeta atribui ao próprio Jeová: "Eu não desejo a morte do ímpio mas que se converta e que viva". Como todos os homens, ímpios e outros que tantos, estão fatalmente destinados a morrer, a palavra "morte" significa aqui a "condenação aos castigos eternos." E Deus QUER que o ímpio se converta e não morra dessa morte. O ímpio se modificará para melhor um dia, se não nesta vida atual, pelo menos em outra terrestre e ulterior, em uma de suas sucessivas reencarnações. O que vai exposto aqui é, ademais confirmado por estas palavras de Jesus registradas por três evangelistas, em seguida à parábola do Semeador: "Eu lhes falo por parábolas a fim de que entendendo não compreendam, de modo que não se convertessem". Como, ademais, Jesus afirma em muitas circunstâncias que ele veio à Terra para a conversão dos ímpios e dos pecadores, estas palavras pareceriam completamente contraditórias, inexplicáveis, ridículas e opostas a todo o resto de seu ensino se não admitirmos o princípio da Evolução pelas vidas sucessivas. Mas se admitirmos esse princípio, tudo se tornará claro justo e eqüitativo neste sentindo: Os pecadores ou ímpios não se devem queimar em etapas de sua evolução: tal é a lei. Um grande número deles não alcançou esse progresso ou modificação, no presente momento. Eles compreenderão o sentido oculto das parábolas evangélicas mais tarde, nesta ou em outra vida desde que se tenham retornado no bom terreno em que a Palavra da Vida possa germinar e apresentar, bons frutos. Como a Nova Teologia, por todas as suas escolas, grupos e sub-grupos insiste na manutenção de Jesus Cristo como substituto de Deus, basta que a mensagem de Cristo se torne realmente compreendida par que Deus Vivo se faça sentir, já que ele palpita nos ensinamentos do Messias, sobretudo quando iluminados pelas aquisições admiráveis que o Espiritismo veio trazer. Deus Vive porque Ele é a própria Vida. Deus não está morto porque a morte não existe. A morte é, apenas, a vida em novo modo de ser. Para nós, espíritas, a complicada Teologia dos Cristãos Ateus, pregando a morte de Deus, não pode ser mais do que uma esperança de que essa morte, como toda morte, seja apenas a ressurreição na verdade de um mundo novo que se anunciará com a agonia de um tempo que luta por se exonerar dos impositivos de uma reforma completa e total, pela promoção fraternal e comunitária da auto-educação de cada um. Revista Internacional de Espiritismo – Agosto de 1973. |