Vitória\ES
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Therezinha Oliveira
Antes de abordarmos exemplos de curas feitas por Jesus, recordemos explicações da Doutrina Espírita sobre enfermidades e curas.
Pelo pensamento e a vontade, os espíritos agem sobre os fluidos, que ficam impregnados das qualidades (boas ou más) dos pensamentos e sentimentos que os fazem vibrar (quer encarnado ou não o espírito que sobre eles atua).
A atividade do espírito influi sobre os fluidos do seu perispírito. Quando intensa e reiterada, se reflete no corpo, de modo benéfico ou maléfico, segundo a natureza dos pensamentos e sentimentos.
Basicamente, é das lesões ou perturbações vibratórias do perispírito que se originam as doenças orgânicas ou psíquicas, bem como as deficiências funcionais sem causa aparente. A etiologia das doenças está, pois, nos distúrbios espirituais, da anual ou das anteriores existências.
Jesus afirma essa relação espírito-corpo nas enfermidades,
ao dizer, quando curava alguém: "Os teus pecados estão perdoados".
Obs: Existem também enfermidades causadas por influência de espíritos; sua cura será estudada na aula que falará sobre desobsessão no Evangelho.
Encarnados ou não, os espíritos têm no seu próprio perispírito um reservat6rio de fluidos (bons ou maus) e podem endereçá-los a outros seres. Os fluidos bons podem servir como agente terapêutico, para reparação perispiritual ou de reflexos no corpo.
O poder curativo dependerá:
"É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio do exercício; mas, a de curar instantaneamente, pela imposição das mãos, essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerar excepcional" (item 34, cap. XIV, "A Gênese", de A-K-).
Jesus a muitos curou por ação fluídica ("ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças", Mt. 8:16/ 17) e recomendava aos discípulos que assim agissem: "Curai os enfermos" (Mt. 10:8).
A recepção e assimilação dos fluidos dependerá das condições no paciente e no ambiente (problemas cármicos e outras circunstâncias) que favoreçam ou não a permuta e assimilação fluídica.
"Com relação à corrente fluídica" o curador age como uma bomba calcante e o enfermo "como uma' bomba aspirante", esclarece Kardec ("A Gênese", XV, item li), acrescentando:
"Algumas vezes, é necessária a simultaneidade das ações; doutras, basta uma só".
A fé, portanto, não é uma virtude mística mas uma força atrativa.
Quando o enfermo não tem essa fé, "opõe à corrente fluídica uma força repulsiva, ou pelo menos uma força de inércia, que paralisa a ação".
Podemos entender, agora, porque Jesus, ao curar alguém, dizia: "Se tiveres fé" ou "A tua fé te salvou".
Algumas curas que Jesus fez por ação fluídica
Nestes casos, Jesus transmite magnetismo pelo olhar e motiva psicologicamente a pessoa pela palavra, além dos fluidos que emana e com sua vontade potente dirige para o enfermo, embora sem tocá-lo ou usar qualquer outro recurso material.
1 ) Ao paralítico, no tanque de Betesda, indaga (Jo. 5 :1/9):
- Queres ser curado?
Ante a resposta afirmativa, ordena:
- Levanta-te, toma o teu leito e anda.
Imediatamente o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar.
2) Age de modo semelhante com o paralítico de Cafarnaum (Mt. 9:2/8, Mc. 2:1/12 e Lc. 5:17/26).
- Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.
E, levantando-se, partiu para sua casa.
1) "...todos os que tinham enfermos de diferentes moléstias (lc 4:40) lhos traziam; e ele os curava, impondo as mãos sobre cada um".
2) Aproximou-se dele um leproso, rogando-lhe de joelhos:
- Senhor, se queres, podes tomar-me limpo. (Mc. 1:40/45) Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o, e disse-lhe:
- Quero, fica limpo1 (Mt. 8: IR.) No mesmo instante lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo.
3) Em Jericó, Jesus passava acompanhado por uma multidão.
Um cego estava à margem do caminho. Ouvindo que era Jesus quem passava, pôs-se a segui-lo clamando para que o curasse.
(Mc. 10:46/52, Lc. 18:35/43 e Mt. 20:29/34.) Jesus parou e mandou chamá-lo.
- Que queres que eu te faça?
- Mestre, que eu tome a ver.
- Vai; a tua fé te salvou.
E imediatamente o cego tomou a ver, e seguia Jesus estrada afora. (Mateus diz que eram 2 cegos e que Jesus lhes tocou os olhos).
4) Quando iam prender Jesus no Horto das Oliveiras, Pedro sacou da espada que trazia e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita.
Mas Jesus acudiu, dizendo: Deixai, basta.
E, tocando-lhe a orelha (ao servo ferido), o curou. (Mt.
26:47/56, Mc. 14:43/50, Lc. 22:47/53 e Jo. 18:2/11.) Outros exemplos:
Jesus abençoa as criancinhas impondo-lhe as mãos.
(Mc.10: 13/16.) Jesus cura a sogra de Pedro, de febre muito alta: "tomou-a pela mão", e "repreendeu a febre". (Mt. 8:14/15, Mc. 1:29/31 e Lc. 4:38/39.) Cura de um hidrópico:
"E tomando-o o curou e o despediu". (Lc. 14:1/6.) Cura de dois cegos:
"Então, lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se conforme a vossa fé. E abriram-se-lhes os olhos". (Mt. 9:27/31.)
1) Então lhe trouxeram um surdo e gago e lhe suplicaram que impusesse a mão sobre ele. (Mc. 7:32/37.) Jesus, tirando-o da multidão, à parte, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com saliva; depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá, que quer dizer: Abre-te.
Abriram-se-lhe os ouvidos e logo se lhe soltou o empecilho
da língua, e falava desembaraçadamente.
2) Então chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse. (Mc. 8:22/26.) Jesus, tomando-o pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe:
- Vês alguma coisa?
Este, recobrando a vista, respondeu:
- Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando.
Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito.
Destaquemos nestas duas passagens: usou o toque, a saliva (propriedades medicinais?), a oração e a palavra; retirou o enfermo para longe da multidão, porque poderia prejudicar a realização do fenômeno pela mentalização inferior.
1) Encontrando um cego de nascença, Jesus "cuspiu na terra, e tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, dizendo-lhe:
- "Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado).
"Ele foi, lavou-se, e voltou vendo". (Jo. 9:1/12.) Se esta passagem está fiel ao acontecido, tentemos uma análise:
Por que usou terra? Talvez tivesse propriedades medicinais? Ou serviria para remover algo aderido ao globo ocular?
Por que usou saliva? Talvez por ser preciso fazer uma pasta para colocar nos olhos do cego e ali não devia haver água (jà que depois o cego precisou ir lavar-se no tanque de Siloé).
Por que ir lavar os olhos depois? Talvez a água do tanque também fosse medicinal, complementando o processo curador.
Ou porque, após curar, a lama deveria ser retirada e nada melhor do que a água para isso.
Jesus trabalhava assessorado por uma equipe espiritual.
Em certos casos, havendo vibrações e fluidos favoráveis dos participantes, era possível aos bons espíritos, a mando de Jesus, se dirigirem até onde o enfermo se encontrava e lá curá-lo.
Também podia ocorrer comunicação com espíritos que lá já se encontrassem, para realizarem a cura com o apoio dos fluidos e vibrações oferecidos.
Assim se explicam as curas seguintes, em que os enfermos, à distância, ficaram curados no mesmo momento em que Jesus assegurava isso.
l) Cura do criado de um centurião romano, em Cafarnaum. (Mt. 8;5/13.) O enfermo ficara em casa, o centurião foi até Jesus pedir a cura.
"Então, disse Jesus ao centurião: Vai-te e seja feito conforme a tua fé. E naquela mesma hora o servo foi curado".
2) Em Caná, um oficial do rei pede a Jesus a cura do filho que ficara em Cafarnaum, enfermo. (Jo. 4:46/54.) "Rogou-lhe o oficial: Senhor, desce, antes que meu filho morra." "Vai, disse-lhe Jesus; teu filho vive." "O homem creu na palavra de Jesus e partiu" (para Cafarnaum) vindo a saber, depois, que o filho ficara bom exatamente na hora em que Jesus afirmara a sua cura.
"... punham os enfermos nas praças, rogando-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua veste; e quantos a tocavam saíam curados". (Mc. 6:55/56.) Não era o fato de lhe tocarem as vestes que os curava e, sim, o de entrarem em contacto com sua aura ou campo de irradiação fluídica.
E "todos " se curavam? Os que ofereciam condições para tanto.
É o que fica evidente no caso a seguir:
1) Cura de uma mulher hemorroíssa. (Mt. 9:19/23 e Lc.
8:42/48.) Há 12 anos tinha ela um fluxo sangüíneo e já se havia tratado com vários médicos, sem alcançar a cura e gastando tudo quanto possuía.
Tendo ouvido a fama de Jesus, a mulher veio por trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste, porque dizia:
- Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada.
E logo se lhe estancou a hemorragia e sentiu no corpo estar curada.
Jesus perguntou:
- Quem me tocou?
Todos negavam que tivessem feito isso e os apóstolos, então, argumentaram com Jesus:
- Mestre, as multidões te apertam e te oprimem (ou seja, muitos estavam tocando em Jesus).
Mas Jesus insistiu:
- Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder (ou virtude, força) (percebera que alguém atraíra seus fluidos).
E olhava ao redor para ver quem o tocara.
Então a mulher, vendo que não podia ocultar-se, cônscia do que nela se operara, trêmula se aproximou, prostrou-se diante de Jesus e declarou-lhe o que fizera e por quê.
Jesus lhe disse:
- Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz, e fica livre do teu mal.
A doença é uma terapêutica da alma, dentro do mecanismo da evolução humana. É a filtragem, no corpo, dos efeitos prejudiciais dos desequilíbrios espirituais. Funciona, também, como processo que induz à reflexão e disciplina das atitudes.
Enquanto não produziu seus efeitos benéficos, não deve ser suprimida.
De todos os enfermos que o procuravam, Jesus curou
somente aqueles em quem os efeitos purificadores da enfermidade já haviam atingido seu objetivo reequilibrante, ou aqueles que já apresentavam condições para receberem esse auxílio no corpo físico.
"Curai os enfermos", mandou ele aos seus discípulos, mas completou: "anunciai-lhes: A vós outros está próximo o reino de Deus" (Lc. 10-9). Não queria que apenas curassem corpos mas que orientassem os enfermos para o entendimento e cumprimento das leis de Deus, porque a verdadeira cura é a do espírito e esta não se dá apenas pela supressão dos sintomas da doença física, a qual é tão-somente uma conseqüência.
Para evitar as enfermidades, cuidemos não só do corpo mas do espírito, cultivando bons pensamentos e sentimentos, praticando o bem e não o mal.
Se, apesar de nossos cuidados, a enfermidade nos vier:
"Se, porém, malgrado os nossos esforços não o conseguirmos" (ficar curados), devemos "suportar com resignação os nossos passageiros males". ( "O Evangelho Segundo o Espiritismo", cap. XXVIII, V, item 77), pois "lesões e chagas, frustrações e defeitos em nossa forma externa são remédios da alma que nós mesmos pedimos à farmácia de Deus ". (Emmanuel, em "Seara dos Médiuns", cap. "Oração e Cura").
Jesus havia curado um grupo de 10 leprosos. Apenas um retomou para agradecer. O Mestre indagou:
- Não foram dez os limpos? Onde estão os outros nove?
(Lc. 17:17.) Jesus não fazia questão do agradecimento pessoal. Mas quis ensinar: A cura sempre representa uma concessão da misericórdia divina, que permitiu recebêssemos de outrem recursos para nos refazermos e sairmos da situação dolorosa e prejudicial em que estávamos.
Quem é curado precisa reconhecer isso e ser grato pela colaboração prestada por quem se fez intermediário dessa bênção.
Não ser grato pela cura revela que a pessoa não entendeu quanto lhe foi concedido e, provavelmente, não saberá valorizar nem conservar a bênção recebida. A falta de gratidão ante a cura física revela que a pessoa ainda não alcançou a cura mais importante e definitiva: a do espírito.
Encontrando no Templo o paralítico que havia curado no Tanque em Betesda, Jesus lhe diz:
- Olha que já estás curado; não peques mais para que não te suceda alguma coisa pior. (Jo. 5:14.) De fato, restabelecido o equilíbrio fluídico, é preciso que a pessoa o mantenha pelos bons pensamentos, sentimentos e atos.
Senão, poderá gerar novas lesões orgânicas ou predisposição para enfermidades.
Estudos espíritas do Evangelho - EME Editora
Bismael B. Moraes
"Nenhum julgamento serviu, como o de Jesus, para uma negação tão insistente, obstinada e acatada de que foi um erro judicial e deu margem a um crime jurídico". (do Juiz Haim Cohn Hermann, ex-Presidente da Suprema Corte de Justiça de Israel).
SUMÁRIO: 1- Introdução. 2- Um Juiz em busca de respostas. 3. Confronto: Evangelhos x Fontes Jurídicas. 4- Datas dos Evangelhos e seus testemunhos. 5- Análise do Evangelho de Marcos. 6- Análise do Evangelho de Mateus. 7- Análise do Evangelho de Lucas. 8- Análise do Evangelho de João. 9- Jesus foi condenado por Tribunal Judeu? 10- Controvérsias Evangélicas e as Leis Romanas e Judias. 11- Mais coerente é o Evangelho de João. 12- Os relatos evangélicos e a realidade histórica.
Tenha sido por arraigada sedimentação religiosa e dogmática, ou por interesse de análise acadêmica da Teologia, ou por motivos políticos e ou filosóficos, a verdade é que as questões relacionadas à vida e à morte de Jesus, em regra, sempre foram objeto de discussão no mundo todo. (Houve até quem, de forma estapafúrdia, ousasse dizer que essa coisa de religião, no fundo, foi uma invenção do homem fraco e covarde, a fim de manietar e controlar os super-homens...).
Mas, aqui e agora, não vem ao caso eventual questionamento entre religiosos e ateus, entre fiéis e cépticos. Entretanto, na busca do conhecimento, todo trabalho sério, especialmente o de pesquisa, se faz merecedor de reflexão. E é isso o que se pretende: trazer, para reflexão, uma síntese sobre O JULGAMENTO DE JESUS, O NAZARENO.
O tema decorre da leitura do livro de autoria do magistrado Dr. Haim Cohn Hermann, nascido em 1911, ex-Presidente da Suprema Corte de Justiça de Israel, publicado em Inglês, em 1967, com o título "REFLECTIONS ON THE TRIAL AND DEATH OF JESUS", e traduzido para o Português, por Maria de Lourdes Menezes, como "O JULGAMENTO DE JESUS, O NAZARENO", já em 5ª edição, publicação da Imago Editora, Rio de Janeiro, 1990.
Trata-se de uma pesquisa científica do Juiz Haim Cohn, de forma criteriosa e sem pender para discussões doutrinário-religiosas, apenas com o intuito de levantar – como bem esclarece - a verdade da mácula que historicamente pesa sobre os judeus pela morte de Jesus, apontados, em regra, como responsáveis por aquele evento, tão somente com base em registros evangélicos.
Essa empreitada é levada a efeito pelo magistrado Cohn, através da exegese do Direito da época em que Jesus viveu, na busca de respostas para questões como estas: - Que crime praticou Jesus? Quem foi o responsável por Sua prisão? Qual a Lei ou o Direito que Ele violou – da Judéia ou de Roma? Por quem foi Ele julgado e condenado? Quem ordenou a Sua crucificação? A quem imputar a Sua morte – aos judeus ou aos romanos?
Para essa obstinada pesquisa jurídica, sociológica e de costumes, de quase vinte séculos passados, o Dr. Haim Cohn analisou e comparou e Velho Testamento e o Novo Testamento da Bíblia, os antigos Talmudes Jerosolimitano e Babilônico, citando 92 obras de autores diversos, em latim, inglês e, principalmente, em alemão (talvez pela forte influência da Igreja sobre povo germânico), e mais 12 fontes hebraicas, 10 fontes judias, 6 fontes cristãs e 21 fontes romanas, todos da antigüidade, indo ainda à exegese da Mishná ou Michna (codificação da lei oral pós-bíblica realizada pelos sábios, após a queda do Estado judeu, para, a despeito da perda da independência política, preservar a estrutura nacional jurídica) e do Tora (lei mosaica em pergaminho). Dissecou, com apoio no material pesquisado e com base em deduções lógicas, as formas de julgamento do Sinédrio, Tribunal Judeu, com 71 membros, formado por sacerdotes, anciãos e escribas, (para julgar questões criminais e administrativas, bem como delitos de ordem política), ao qual Jesus foi submetido.
O Juiz Cohn, depois de registrar que, somente neste Século XX, já foram escritos mais de 60.000 (sessenta mil) livros sobre Jesus, e, dentre eles, vários sobre o Seu julgamento, mostra que o trabalho em tela tem por meta a tentativa de encontrar uma explicação convincente para os fatos e acontecimentos que foram descritas em fontes não-jurídicas (os Evangelhos), indo buscar tal explicação no acúmulo de conhecimentos que "possuímos sobre as instituições e os conceitos jurídicos que existiam naquela época e lugar". E esclarece que, para o empreendimento, "e valor dessas fontes, seja como fontes sagradas (teológicas) ou factuais (históricas), está fora de discussão"; não serão convertidos em fontes jurídicas. A idéia da pesquisa é confrontar os fatos (descritos nos Evangelhos e noutras fontes) à luz do Direito Romano e sua aplicação, bem como diante das leis judias em vigor por volta daquela época.
Na introdução do seu livro, aquele magistrado faz uma advertência: "Não podemos afirmar que a nossa atitude seja compartilhada por todos os juristas que já se ocuparam desse tema até agora. Muito ao contrário: tenho diante de mim quatro livros, de juristas ingleses e norte-americanos – Lord Shaw, Taylor Innes, Powell e MacRuer, todos eles cristãos fervorosos... Eles consideram tudo que está escrito no Novo Testamento como material jurídico por excelência, uma espécie de testemunho válido sobre o que não pode haver dúvidas".
Em sua pesquisa científica dentro do Direito, o Dr. Cohn mostra que nenhum dos quatro Evangelhos (de Marcos, Lucas, Mateus e João) inclui depoimentos de testemunhas presenciais dos eventos que descrevem. Com base no livro "Jesus and the Origins of Christianity", de Goguel, está demonstrado que o Evangelho de Marcos foi escrito por volta do ano 70 da Era Cristã (do nascimento de Cristo); o Evangelho de Lucas data, aproximadamente, do ano 85; e o Evangelho de Mateus veio à luz, mais ou menos, no ano 90; e o Evangelho de João, por volta do ano 110.
Assim, tomando como fonte o pesquisador Winter, em seu livro "On the Trial of Jesus", escreveu o Juiz Haim Cohn: "Logo, o Evangelho de Marcos foi escrito cerca de quarenta anos após a crucificação de Jesus, e Lucas escreveu, mais de duas gerações depois desses acontecimentos. Disso se depreende que os depoimentos ali existentes não correspondem a testemunhas presenciais". E acrescenta ser possível que os relatos dos Evangelhos "sejam uma tradição conservada pela congregação de crentes e transmitida de geração em geração. Mas, se serviam para saciar a curiosidade biográfica dos crentes sobre a morte de Jesus, não continham nenhum tipo de documentação jurídica". Os Evangelhos, assim, não foram escritos como bases históricas, mas como meio de difundir o cristianismo, aí recorrendo, por vontade do evangelista – como é o caso de João – a utilização livre de sua imaginação, "para acrescentar detalhes e melhorar a descrição, não aceitando limitações antiquadas ao apresentar, não história mas teologia".
Consta da pesquisa de Dr. Haim Cohn o registro de um dos mais antigos escritores, que teria vivido entre o ano 55 e o ano 115, de nome Tacitus, o qual, em seu "Annales", com tradução de Dvoretzky, em 1962, "relata de passagem, para explicar o significado do nome Cristão (de seita perseguida durante o reinado de Nero), que Cristo é o pai de todos os cristãos e que foi executado na época do Imperador Tibério pelo Governador Pôncio Pilatos".
Diz o magistrado Cohn: alguns pesquisadores sustentam que "de tudo que está escrito nos Evangelhos, só podemos aceitar que Jesus viveu e foi crucificado, sendo o resto meros adornos para maior glória da fé". E acrescenta que "a interpretação dos acontecimentos descritos nos Evangelhos é uma questão aberta, e todo aquele que os ler ou analisar poderá fazer a sua própria interpretação... No que diz respeito às causas do julgamento de Jesus e à sua condenação, como também às circunstâncias, ao fundamento e ao objeto do julgamento, não aceitaremos o que está escrito nos Evangelhos como testemunhos indubitáveis; nossa atitude para com eles será a de um juiz cuidadoso e neutro, com a liberdade absoluta de quem tem diante de si um livro aberto".
Na análise dos quatro Evangelhos, começa pelo Evangelho de Marcos, registrando, em síntese, o seguinte:
O Evangelho de Mateus, nesse episódio, em linhas gerais, repete o que diz o Evangelho de Marcos, acrescentando, porém, o seguinte:
Já o Evangelho de Lucas traz algumas diferenças marcantes, tais como as seguintes:
No Evangelho de João, há outras diferenças, como podem ser observadas a seguir:
Com essas e outras observações, confrontando os quatro Evangelhos – de Marcos, Mateus, Lucas e João -, o juiz Haim Cohn procura mostrar as informações, em alguns casos, até contraditórias entre os evangelistas, cada um deles escrevendo sobre os mesmos fatos em épocas diferentes, para concluir que esses escritos não podem ter valor científico como história.
Numa análise mais profunda do Direito antigo, para verificar se os judeus – embora tendo suas próprias normas, mas achando-se sob o domínio romano – tinham o poder de aplicar a pena de morte, o magistrado Cohn leva-nos a melhor refletir sobre a condenação e crucificação de Jesus. Mostra, por exemplo, os seguintes registros:
Assim, o autor Haim Cohn conclui: se, quarenta anos antes da destruição do templo, já se havia tirado os judeus o direito de julgar questões penais de vida ou morte, não poderia ter sido um tribunal judeu que condenou Jesus à pena capital.
Foi, segundo o Dr. Cohn, de acordo com registros da tradição babilônica e jerololimitana, que "os cristãos começaram a publicar e difundir textos de propaganda e apologia, na segunda metade do século II, para sublinhar e realçar as diferenças entre eles e os judeus, não apenas no que se refere à fé, como também à fidelidade política aos governantes romanos".
"Já haviam sido publicados os Evangelhos, nos quais a tendência a desprestigiar os judeus encontrou um fundamento de peso. Se o fundador da religião cristã e seu criador. (Jesus) era inocente aos olhos do governador romano, que não encontrou mácula nele nem em sua religião, isso aparentemente comprovaria que a dita religião pode coexistir com a fidelidade ao Império". (grifos nossos). E conclui o magistrado Haim Cohn: "E se apesar de tudo Jesus foi crucificado como um criminoso, isso se deve apenas à maldade dos judeus e de seu Sinédrio, que sabiam muito bem como era grande para eles o perigo implícito na nova religião, que terminaria acabando com a religião dos judeus".
O livro mostra que não havia sido encontrada prova de que as autoridades romanas tivessem alguma vez concedido autoridade judicial ao Sinédrio de forma explícita, fosse genericamente para o direito penal ou fosse para certos delitos em casos particulares. "O Sinédrio nada mais era do que um tribunal local em sua terra ocupada, que atuava apenas sob a autoridade do governador (romano) e segundo a sua vontade".
"Em resumo",- esclarece o autor-, " o Sinédrio só estava autorizado a julgar delitos segundo a lei judia, assim como o governador romano só estava autorizado a julgar delitos segundo o Direito Romano".
Por exemplo, profanar o templo não representava delito, de acordo com o Direito Romano, mas o era segundo o Direito Judeu: nesse caso, o governador romano poderia entregar o assunto para o Sinédrio.
No Evangelho de Lucas, quando a multidão (de judeus) levou Jesus a Pilatos, depois de o terem interrogado (os principais sacerdotes e anciãos), foi o Nazareno acusado: "Perverte a nação e proíbe de dar tributo a César, dizendo que ele mesmo é um rei". Aí, pelo evangelista Marcos, Jesus estaria sendo acusado pelos judeus como tendo infringido a lei romana, pois se colocava como rei e desafiava o Imperador Romano. Já no Evangelho de João, quando Pilatos entrega Jesus aos judeus, dizendo: "Tomai-o e crucifica-o, porque eu não achei nenhum delito nele", os judeus responderam: "Nós temos uma lei, e, segundo a nossa lei, ele deve morrer, porque fez a si mesmo Filho de Deus". Aqui, evidentemente, por esse relato de João, Jesus teria infringido a lei judia!
Aliás, o registro do Evangelho de João vai mais longe: quando Pilatos tentou pôr Jesus em liberdade, os judeus gritaram (preferindo que Barrabás fosse solto): "Se este soltas" (referindo-se a Jesus), "não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei se opõe a César". Assim, depois que João escreveu que, segundo a lei judia, Jesus deveria morrer, "porque fez a si mesmo Filho de Deus", procura mostrar que os judeus, vendo a intenção de Pilatos em soltar Jesus, teriam como que colocado o governador contra a parede: "se soltas um homem (Jesus) que se faz rei e se opõe a César, então não és amigo de César!"
Por outro lado, o Evangelho de Marcos registra que Jesus praticou blasfêmia diante do sumo sacerdote, quando este o interrogou; "És tu o Cristo Filho de Deus?", e o Nazareno respondeu: "Eu sou". E o sumo sacerdote, diante do concílio, interrogatório em sua casa, disse: "Ouvistes a blasfêmia?" (E colocar-se na posição de Filho de Deus, para a lei judia, era delito de blasfêmia, que podia levar à morte!) É claro que os interlocutores ou não entendiam ou não queriam entender o que Jesus dizia!
Embora de relance, pelo Evangelho de Mateus, Jesus também teria praticado delito contra a lei judia, quando registra que duas testemunhas afirmaram que, no interrogatório noturno, na casa de Caifás, o Nazareno teria dito que podia "derrubar o templo de Deus e em três dias reedificá-lo".
O livro do Dr. Haim Cohn, para demonstrar uma espécie de tendência não discutida quanto à responsabilidade dos judeus pela morte de Jesus, cita inclusive a existência de dois outros personagens com o nome JESUS: um teria sido bruxo e instigador (bruxaria e instigação tinham a pena de morte pela lei judia), sendo a sua morte por lapidação, às vésperas da páscoa (conforme registro do Talmude Babilônico); chamava-se Ben Setda ("Ben", no hebraico, é Filho; "Setda", segundo os sábios amoraítas, é pseudônimo talmúdico de Maria, mãe de Jesus). É registro do século III, d. C., refletindo uma tradição equivocada, pois tal personagem foi preso e morto na cidade de Lod; e outro, que existiu aproximadamente entre os anos 150 a 100 a.C. também instigou os judeus à idolatria e, por isso, foi condenado à morte por lapidação (apedrejamento) pelo tribunal, às vésperas da páscoa, sendo depois o seu corpo colgado (pendurado na madeira) e, no mesmo dia, enterrado. Esse segundo Jesus teria sido aluno de Joshua Ben Perahya. O autor registra, até, que o nome de Nazaré (de Jesus de Nazaré) teria nascido de um acréscimo, por desconhecimento de cronologia histórica, apenas porque no Talmude Babilônico há o relato de que Joshua Ben Perahya "empurrou Jesus de Nazaré com ambas as mãos". Teria vivido antes do Cristo. Não há fonte talmúdica que afirme o julgamento de Jesus de Nazaré.
O magistrado Haim Cohn, depois de analisar tantos documentos e de confrontar as inúmeras versões sobre o julgamento de Jesus, pondo inclusive por terra a eventual conspiração de Judas, que teria ajudado, por moedas, na busca e prisão do Nazareno (porque Jesus era sumamente conhecido, e os seus percursos em Jerusalém e nos arredores eram de conhecimento geral, não havendo objetivo real e justificativa plausível para a traição, nem razão histórica para isso), mostra-se propenso em aceitar que o relato do Evangelho de João é o mais coerente: segundo esse evangelista, Jesus foi preso por "um tribuno romano no comando de sua corte, toda ou parte dela, em presença da guarda do templo". Entende que o relato merece fé, e já foi aceito pela maioria dos pesquisadores, "porque, de todos os evangelistas, é João o que mais exagera na defesa dos romanos e na crítica aos judeus".
Os livros de Marcos, Mateus e Lucas são chamados de Evangelhos sinópticos (porque permitem uma visão de conjunto de suas versões) pelo Dr. Haim Cohn, pois, dentre outros registros, falam que, no momento da prisão de Jesus, a multidão estava armada com espadas e garrotes ou porretes, enquanto João fala de velas, tochas e armas, não restando dúvidas de que as armas eram dos soldados romanos.
Com base do Direito Judeu, o autor entende que nos registros dos Evangelhos há muita coisa irreal e impossível, especialmente em relação ao Sinédrio:
Se o julgamento assim se deu, "foi ilegal desde o início até o fim", e "Jesus foi vítima de um assassinato judicial".
Depois de provar que os relatos evangélicos não servem como relatos válidos para a história como ciência, o magistrado Haim Cohn explica que "as perseguições aos judeus, judiciais e extraconjugais, todas elas se produzem no fundo da fonte consciente ou inconsciente, como castigo pela "culpa deles" na crucificação de Jesus. Isso porque, o interesse dos Evangelhos era eminentemente religioso e missionário, e sua tendência era apologética com respeito ao Império Romano. Essa descrição intencional e equivocada obteve difusão mundial, convertendo-se em dogma e conquistando a metade do orbe. Foi apagada e esquecida a verdadeira realidade histórica".
É um livro que exige do leitor muita reflexão, sem preconceito.
(*) Bismel B. Moraes, Mestre em Direito Processual pela USP, Professor da Academia de Polícia "Dr. Coriolano Nogueira Cobra" de São Paulo e da Faculdade de Direito de Guarulhos, é ex-Presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo.
Caírbar Schutel
"Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião e rogou-lhe: Senhor, o meu criado az em casa paralítico, padecendo horrivelmente. Disse-lhe: eu irei curá-lo. Mas o centurião respondeu: Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas dize somente uma palavra e o meu criado há de sarar. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. Jesus ouvindo isto admirou-se e disse aos que o acompanhavam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé. E digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente, e hão de sentar-se com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai-te, e como crêste, assim te seja feito. E naquela mesma hora sarou o criado."
(Mateus, VIII, 5-13.)
Cafarnaum, era uma das grandes cidades da Galiléia, muito próxima à foz do Rio Jordão, onde João Batista costumava fazer suas pregações, convidando o povo ao arrependimento dos pecados.
E como ficava na estrada comercial que ia da cidade de Damasco ao Mar Mediterrâneo, o governo romano tinha lá uma milícia composta de cem soldados, sob a direção de um comandante.
Esse comandante tinha o titulo de centurião, justamente porque comandava cem soldados. Pelo que se compreende do trecho que acabamos de ler, logo que o centurião teve conhecimento da entrada de Jesus na cidade de Cafarnaum, sem mais detenças fardou-se e foi à procura do Moço Nazareno, e, encontrando-o logo, queixou-se do mal de que sofria o seu Criado: "O meu criado jaz em casa paralítico, padecendo horrivelmente."
Ora, sendo Cafarnaum uma cidade populosa, de certa importância, a ponto de ser guardada por uma milícia de cem soldados, comandada por um centurião, havia forçosamente alguns "médicos" ali residentes—pois naquele tempo já os havia; tanto assim que um deles, Lucas, se tornou apóstolo de Jesus.
Pelo que diz o Evangelho, podemos ainda ficar sabendo que a moléstia que acometera o criado do Centurião era paralisia, e paralisia que ocasionava grandes sofrimentos; sabemos ainda mais, que a moléstia do homem era grave, e que esse servo do centurião, segundo afirma Lucas, que era médico, estava até moribundo, nas vascas da agonia, às portas da morte é impossível, pois, que o centurião, que era pessoa de recursos, e que muito estimava o seu servo, não houvesse chamado médicos para tratá-lo!
O doente não podia ter ficado até aquele momento sem medicação, embora a medicação não lhe tivesse dado melhoras .
Provavelmente desanimado com o tratamento da Ciência daquele tempo, o centurião, homem instruído, sabendo das curas que Jesus havia operado, pois, pouco antes de entrar em Cafarnaum, o Mestre tinha curado um leproso, deliberou valer-se do Grande Médico Espiritual para curar o servo.
E sabiamente agiu o centurião, porque seu pedido foi recebido com toda a consideração:
“ Eu irei curá-lo", disse Jesus. Admirável frase esta: "Eu irei curá-lo"!
Qual é o médico que, sem ver o doente, sem perscrutar, sem examinar; sem ver os olhos, tocar o ventre, o fígado, o peito ou as costas; sem auscultar o coração ou os pulmões; sem fazer análise de urina, ou de escarros, ou de fezes; sem inquirir do doente, ou da pessoa que o assiste, onde sente dor; se come, se bebe, se tem febre, pode dizer categoricamente a qualquer que o chama para socorrer um sofredor: "Eu irei curá-lo"?
Sabemos que todos os médicos podem dizer, ao serem chamados para assistir um doente: "Eu irei tratá-lo", mas dizer: "eu irei curá-lo"?!
Só houve um na Terra que, sem tomar pulso, sem pôr termômetro, sem perguntar sintomas e sem ver o doente, nem lhe saber o nome, nem lhe indagar a idade, pode afirmar sábia e categoricamente, quando lhe pediram auxilio: "Eu irei curá-lo"!
Eis porque sempre afirmamos que Jesus foi o maior de todos os médicos e que ninguém foi, nem é tão sábio quanto ele. O Mestre não tratava de doente, não alimentava moléstias; curava os doentes, matava as moléstias. A sua ação no mundo foi verdadeiramente estupenda, extraordinária, maravilhosa. Só ele era capaz de fazer o que fez; só ele é capaz ainda hoje de fazer o de que nos precisamos; e o fará, se, como o centurião, soubermos implorar-lhe assistência.
Vimos que Jesus se prontificou imediatamente a ir à casa do centurião para curar o enfermo. Mas, que pensou o centurião sobre a resposta do Mestre?
"Senhor! Não sou digno de que entres em minha casa; porém dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar. Porque também sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; ao meu servo: faze isto, e ele o faz."
Quantos ensinamentos se tiram destas palavras, que, não sendo de Jesus Cristo, foram, entretanto, proferidas diante dele e mereceram a sua aprovação! "Eu não sou digno de que entres em minha casa." É esta a frase que todos nós deveríamos sempre, em nossas preces, em nossos rogos e de todo o coração, dizer ao Mestre, quando, todos os dias, lhe solicitamos graças e benefícios: "Senhor ! dá-nos isto ou aquilo; faze-nos este ou aquele beneficio, mas não venhas a nossa casa, porque não somos dignos de que entres em nosso lar. Nossas paixões, nossos vícios, nossa inferioridade e o nosso coração pequenino nos fazem envergonhar em tua presença."
Mas, infelizmente, não é isso o que dizemos. Todos chamam a Jesus em suas casas, todos querem vê-lo a seu lado; e alguns há que pretendem encerrá-lo em armários, ou então devorá-lo, metê-lo no ventre!(*)
Vede que iniqüidade, que natureza avara de humildade tem a criatura humana!
O criminoso se constrange diante do magistrado: o réu se envergonha em face dos juizes; a criatura humana, negra de ignorância, asquerosa de orgulho e de vaidade, horrenda de egoísmo, julga-se tão iluminada, tão casta, tão pura, a ponto de se dizer irmã do Coração de Jesus; desse Coração Imaculado, puríssimo, que não palpita senão para fazer sentir o amor; que não movimenta as suas aurículas senão para transmitir, aos sofredores, uma parcela do seu puríssimo afeto; que não fala senão para abençoar e ensinar; que não brilha senão para arrancar as almas das trevas, da devassidão, das mentiras e dos enganos!
Não, não era preciso que o Espírito Puríssimo entrasse em casa do centurião para que o servo desse comandante ficasse livre da enfermidade; assim como não era preciso que o centurião fosse pessoalmente abrir as "portas do cárcere" para libertar dele um prisioneiro que desejasse soltar.
"Também eu sou um homem sujeito à autoridade, Senhor; não és só tu que estás sob o domínio da autoridade; eu também o estou; com a diferença de que a minha autoridade é da Terra e a tua é do Céu. O meu chefe é o governador romano; o teu chefe é o Governador do Universo. Mas, apesar disso, eu tenho soldados à minha disposição; assim como também sei que tu tens legiões de Espíritos santificados pela tua Palavra, que estão sob o teu domínio. Eu digo a um dos meus soldados: vai para lá, e ele vai; a outro: vem para cá, e ele vem; a outro: faze isto ou aquilo, e ele o faz; tu, pela mesma forma, mandas na tua milícia; teus soldados e teus servos fazem tudo o que tu ordenas, assim como os meus fazem tudo quanto eu ordeno. "Dize só uma palavra, e o meu criado há de sarar", porque eu também, quando quero fazer qualquer coisa, seja prender um turbulento ou libertar um prisioneiro, digo só uma palavra, e são cumpridas imediatamente as minhas ordens!
E Jesus, maravilhado ante a fé que amparava o centurião, cheio de alegria diante das palavras do soldado romano, vira-se para seus discípulos e lhes diz: "Em verdade vos afirmo, que nem mesmo em Israel achei tamanha fé!"
A luz não foi feita senão para iluminar, assim como a Verdade para libertar, a Esperança para consolar e animar, a Caridade para amparar e purificar, e a Sabedoria para guiar e engrandecer!
Todas estas virtudes, todos estes dons celestiais, que enchem a criatura de bem-estar e de paz, são raios coloridos de um mesmo Sol, são reflexos multicores de uma mesma Estrela, que orienta os povos, que encaminha as nações, que eleva a dignidade humana, e cujas luzes penetram no coração, sobem ao cérebro e se expandem na alma. Essa venturosa claridade dos céus a que nós chamamos Fé, implantada no Espírito humano, nasce como o grão de mostarda da parábola, cresce e torna a crescer; cresce sempre sem parar, e, quando lhe chega o momento feliz de não mais elevar suas hastes, de não mais alongar seus galhos, de não mais engrossar seu tronco, de não mais estender suas raízes; quando chega esse momento, em que a nossos olhos parece completada a conta de seus dias, concluído o seu itinerário, finda a sua vida, é então que lhe é chegado o momento de maior crescimento, de maiores trabalhos, de mais produtiva Vida, porque é então que ela vai frutificar, para, depois, estender-se em ramificações cada vez mais consideráveis e crescentes, a ponto de se fazer seara e cobrir extensão considerável de terreno! Foi esta a Fé que Jesus saudou com alegria, quando a viu cultivada pelo soldado romano; foi esta a Fé, engrandecida pelos conhecimentos, purificada pela humildade, santificada pela prece na pessoa do centurião, que o Mestre justificou, dizendo: "Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei tamanha fé!"
Além de dizer aos seus discípulos perto do centurião: "Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé", o Mestre acrescentou, ainda, como para servir de incentivo àqueles que o ouviam, para que estudassem, para que fizessem também crescer a fé que possuíam:
"Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e hão de sentar-se com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores e ali haverá choro e ranger de dentes."
Aqueles que estiverem fora das Igrejas que paralisam o crescimento da Fé; aqueles que têm a felicidade de não pertencer a esse Reino do Mundo, onde os sacerdotes aprisionam as almas, a política deprime o caráter e a ciência balofa entenebrece; aqueles que estão no Oriente ou no Ocidente, de um lado ou de outro, mas não estão dentro do Reino do Farisaísmo; aqueles que não são filhos desse reino, porque só têm como paternidade, como domínio o Reinado de Deus—esses hão de subir às regiões da felicidade e da luz, onde estão os Espíritos Puros, que viveram outrora neste mundo—Abraão, Isaac e Jacó! Hão de sentar-se à mesa espiritual, onde lhes serão oferecidos novos e ainda mais saborosos manjares, para engrandecerem mais ainda a sua Fé, para tornarem-na maior, mais robusta, mais viva, mais luminosa, mais sábia, mais divina! E os filhos deste reino, deste reino da mentira, da mercância, do orgulho, da hipocrisia, das exterioridades e da idolatria, ficarão imersos nessas mesmas trevas por eles criadas; estagnaram a crença, como uma poça d’água na estrada; abdicaram os direitos do crescimento, do engrandecimento, da floração dessa plantinha cuja semente Jesus lhes colocara no coração; não terão nem árvore para sombra, nem flores para perfume, nem frutos para alimento; e chorarão de fome, e quebrarão os próprios dentes ao rangê-los no sofrimento, nas trevas!
E havendo Jesus dado todos esses ensinamentos a uns, e bênçãos a outros, pois que tanto os ensinamentos, como os aplausos do Mestre, são bênçãos de perfeição, ou seja, de aperfeiçoamento, depois de Jesus haver exaltado a Fé do Centurião, concluiu a sua lição dizendo ao comandante da milícia:
”Vai-te, e como creste, assim te seja feito!"
"Como creste, assim te seja feito" e o centurião foi e, encontrou o seu criado curado, são.
Como creu o centurião?
Por que forma acreditava ele que a cura de seu servo se devia operar?
Naturalmente que, com a autorização e a mandado de Jesus, alguns dos Espíritos que acompanhavam o Mestre, na sua Missão, iriam à casa do centurião e a cura se operaria. Porque, como disse ele ao nazareno, "não precisas vir a minha casa, Senhor, mas com uma palavra tua meu servo há de sarar"; pela mesma forma que com uma palavra minha, os prisioneiros são postos em liberdade."
Foi assim que o centurião creu, e foi assim que seu servo foi curado; e assim foi que Jesus afirmou ter ele de sarar, quando disse: "Como creste, assim te seja feito!"(*) Alusão à ingestão da óstia, que, segundo o catolicismo, encerra o próprio Jesus.
(Parábolas e Ensinos de Jesus – Caírbar Schutel)
Sergio Fernandes Aleixo
Em meio à crescente proliferação de doutrinas exóticas no seio mesmo do nosso movimento, sobremodo nos preocupam aquelas cujo resultado é a deturpação da legitima visão espírita de Jesus de Nazaré.
Ao contrário do que a negligência de muitos confrades pode supor, Allan Kardec deixou-nos bem definida a concepção espírita sobre a natureza do Cristo, quer física, quer, sobretudo, espiritualmente.
No comentário ao nº 226 de O Livro dos Espíritos, o codificador estabelece que, quanto ao estado no qual se encontram, os espíritos podem ser encarnados, errantes ou puros. Acerca dos puros, dizem os espíritos superiores: "Não são errantes... Esses se encontram no seu estado definitivo."
Tal é a condição espiritual de Jesus: a dos espíritos puros, ou seja, a dos espíritos que "percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria" (Ob.cit.,nº 113). Apesar de integrar o número dos que "não estão mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis", dos que "realizam a vida eterna no seio de Deus" (id. Ibid.), entre nós, por missão, o mestre encarnou-se. Conforme o nº 233 de O livro dos espíritos esclarece, "os espíritos já purificados descem aos mundos inferiores", a fim de que não estejam tais mundos "entregues a si mesmos, sem guias para dirigi-los".
É bem verdade que no comentário ao nº 625 da mencionada obra, Allan Kardec apresenta Jesus como "o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra", em quase exata conformidade com o que diz sobre os espíritos superiores, os quais, segundo ele: "Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de progresso e então nos oferecem o tipo da perfeição a que a humanidade pode aspirar neste mundo" (nº 111).
Cumpre-nos salientar que na doutrina espírita o rigor do conceito de pureza se concentra na expressão "puro espírito", que Kardec explicou ser o estado dos seres que tradicionalmente são chamados "anjos, arcanjos ou serafins"; entretanto, com isso, não quis o codificador estabelecer a existência de gradações no estado de pureza espiritual; basta confrontarmos o item 111 com o item 226 de O livro dos espíritos.
Contudo, o sacrifício tipicamente missionário de um retorno à Terra, mesmo quando já não há necessidade desse tipo de experiência para evoluírem, é meritório aos espíritos superiores, do ponto de vista de sua progressão, pois não integram ainda a classe dos puros espíritos, não se encontram ainda no seu "estado definitivo".
Alguns entendem que este seria o caso de Jesus de Nazaré. Ele teria atingido a perfeição, ou, quiçá, um grau evolutivo mais alto entre os filhos do homem somente após o cumprimento de sua missão, o que, alias, é sugerido pelo autor da Epístola aos hebreus, o qual entende que Jesus, por seus sacrifícios, teria passado, de `sacerdote', à condição de `sumo sacerdote' da ordem de Melquisedeque.
Não desposamos essa idéia, embora admitamos que não confronta com o ensino de O livro dos espíritos, no qual, de fato, Jesus figura ainda como espírito superior; passível seria ele, portanto, de aperfeiçoamento.
A codificação espírita, todavia, não termina em O livro dos espíritos, começa nele. Allan Kardec desenvolveu e aprimorou o conceito espírita sobre a condição espiritual de Jesus como fez com relação a outros temas. Se não, vejamos.
Já mesmo em O livro dos médiuns, obra que constitui, segundo o próprio codificador, a seqüência de O livro dos espíritos, Allan Kardec passou a classificar Jesus como espírito puro. Na nota que escreve à dissertação IX do cap. XXXI, distingue, com absoluta clareza "os espíritos verdadeiramente superiores" daquele que representa "o espírito puro por excelência", por desvelada menção a Jesus Cristo.
Ora, Allan Kardec diz que tais espíritos, mesmo superiores, não têm as qualidades do Cristo; de novo estabelece, portanto, diferença entre Jesus e os espíritos superiores, como fez em O livro dos médiuns, na aludida nota à dissertação IX do cap. XXXI. Isso tão- só porque os espíritos superiores ainda não são puros.
Do livro: "Reencarnação – Lei da Bíblia, Lei do Evangelho, Lei de Deus." - Sergio Fernandes Aleixo, ed. Lachâtre
Extraido do site www.ade-rj.org.br
Ricardo Engel
O século dezenove, foi, depois do Cristo, do ponto de vista espiritual, um século especial para a humanidade. A razão que justifica tal avaliação, tem suas raízes entranhadas num espaço de tempo assinalado no cronômetro da eternidade, quando na Terra viveu por trinta e três altos, o mais influente dos reformadores de conceitos relacionados ao ético, ao social e ao espiritual e, sobretudo ao futuro da criatura humana.
Nos apenas três anos de peregrinação pelas aldeias e vilarejos, seus passos deixaram marcas luminosas que, ao invés de se apagarem com as investidas avassaladoras das forças do negativismo, (inclusive, agasalhadas nos templos religiosos) mais nítidas e seguras se tornaram para quantos, ao longo do tempo se renderam ao convite da rota evangélica, nela vislumbrando o meio de vencer os obstáculos impostos pelo reinado das sombras e, assina, alcançar no futuro o condado da paz e do amor.
A sua presença se fez sentir mais dinâmica e portentosa após o seu desenlace, quando sua semente, representada por seus exemplos e ensinamentos, depositada no aconchego do terreno fértil de muitos corações e mentes humanas, passeio a germinar, a florescer, a produzir frutos. Tal foi o alcance provocado pela substância de suas máximas que, a era que sucedeu ao seu nascimento passou a ser conhecida como Era Cristã.
Jesus Cristo, cujo viver constituiu uma revolução no contexto político e social de seu tempo não deixou nada escrito para seus seguidores. Apenas palavras e exemplos. As anotações dos chamados evangelhos, a ele atribuídas, são produto do trabalho de seus seguidores, inventariadas alguns anos após sita crucificação.
Do que disse, conquanto pudesse ser entendido como pertinente ao lugar e ao momento, continha a virtude de uma transcendência que desconhecia limites de lugar e tempo. Constituía proposta de mão única com vistas ao futuro.
Os séculos sucederam-se, uns aos outros, contabilizando bem mais turbulências do que momentos de paz
É Neste entrevero que a França, a partir do século 18, se viu acalentada pela brisa da liberdade de pensamento. Em breve tempo, o pensamento, livre, tornou-se uma vertente, através da qual a cultura ganhou substância e fluiu para o mundo.
Tremulando bem alto, sobranceira, a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade era objeto do interesse de quantos, no mundo, tinham por estas divisas, devoção .
Com este farol iluminando-lhe a rota escolhida , a nação francesa fez-se credora de abrigar o evento profético anunciado por Jesus, e anotado no Evangelho de João, XIV, vrs. 15 a 17 e 26.
Era chegada a hora de reavivar a plenitude da Boa Nova, sobretudo, de lançar as sementes de novas e atais profundas lições.
Assim começou o evento assinalado no Evangelho.
Ainda que a fenomenologia psíquica tenha pipocado em todos os tempos ao longo do caminho das criaturas humanas, o episódio, cujo apogeu ocorreu em 31 de março de. 1848, com a família Fox, no vilarejo de Hysdeswille, Nova York, Estados Unidos, provocou interesse de tal monta que, a partir dele, o conceito da vida e da morte , até então predominante, assumiu novos contornos.
A comprovação inequívoca de que o corpo físico - em estado dinâmico- é animado por um espírito que lhe sobrevive a morte, e que, além do sepulcro mantêm-se intocável em sua individualidade, podendo, não só intercambiar experiências saudáveis, construtivas, conto, também, enredar no cipoal de influências malévolas, os que permanecem incrustados no corpo carnal, dimensiona com eloqüência o evento que teve como principais protagonistas a família Fox, com especial destaque, as irmãs (médiuns) Kate e Elizabetli Fox.
A pequeníssima fresta aberta tio reposteiro que se interpõe entre o mundo tísico e o extra físico, pelo espírito de Charles Rosna, no lar dos Fox, permitiu ao primeiro bisbilhotar o segundo, além ele nocautear os conceitos arcaicos até então defendidos em relação ao destino das almas, ao se defrontarem com a visita da morte.
Irrequietos, os fenômenos cada vez mais presentes e atrevidos, mostrando-se inteligentes, como que, a espicaçar a curiosidade de gregos e troianos, brincam com leis físicas e químicas consagradas, quando agem produzindo fenômenos de: tiptologia, levitação, transporte, materialização, odores, voz direta , ...
Ante desafios tão perturbadores quanto persistentes, aos eminentes guardiões da ciência, não cabia outra medida senão a de atrair o impertinente fenômeno para a intimidade do laboratório, na esperança de que, aí, encurralado, com armas adequadas, pudessem por fim ao que consideravam a maior farsa da moda.
Entretanto, contra todas as expectativas reinantes, nenhum dos artifícios científicos postos em ação pelos insignes cientistas na intimidade de laboratórios, cercados do que de melhor se possuía em matéria de segurança, impediu que o fenômeno comparecesse exuberante, despindo-se de sua invisibilidade, para ser visto, tocado, medido, pesado e fotografado, identificando-se, enfim, para os Tomés de então, como Espírito Imortal.
Ao mesmo tempo que o interesse pelo fenômeno deslanchava, alvoroçando o cotidiano da sociedade, ou como recreação, ou, em acalorados debates nas tribunas da ciência, da filosofia, da religião, a equipe de espíritos missionários convocada por Jesus, e por ele nomeada de "Espírito de Verdade" ponha em ação o passo mais importante do plano em andamento, ou seja: Dar corpo a uma doutrina em cuja estrutura estivesse inserido um fanal doutrinário, de tal modo representativo dos ensinamentos de Jesus, que dele haveria de fluir água viva para dessedentar a sede de soerguimento espiritual de quantos a fonte buscassem.
A magnitude da tarefa impunha, como previra Jesus, manter seu centro dinâmico situado na esfera espiritual fora do alcance das influenciações políticas, imposições dogmáticas, interesses imediatistas, instabilidade emocionais, próprias das forças representativas do reinado de César.
Com Jesus no comando, o colegiado de Espíritos iluminados, dividiu-se em duas frentes de trabalho: o físico e o extra físico..
Para que os postulados da Nova Doutrina, - cujas raízes permaneceriam radicadas na seara espiritual, sob os cuidados do "Espírita de Verdade"- fossem transferidos com a garantia de que nenhuma interferência indevida e menos digna pudesse as macular, foi destacado para reencarnar no âmbito terrestre um membro da equipe, que assumiria a tarefa na condição de Codifcador.
Com o nome de Denizard Hippolyte Léon Rivail, o edificador reencarnou na cidade de Lion, na França em 3 de outubro de 1804. Ainda muito jovem, pontificava como um dos primeiros de sua classe, no renomado Instituto Pestallozzi, sendo sempre o escolhido para substituir, quando ausente, o emérito Professou Pestallozzi Desempenhou até os 50 anos de idade, o ofício de pedagogo, com o afinco e o amor de quem anseia pelo progresso de seus alunos. Do seu ardente desejo de ensinar, resultou inúmeras obras pedagógicas, cobrindo diversas disciplinas.
Aos 50 anos de idade soou o alarme A hora havia chegado. Daí em diante, seu tempo foi entregue a tarefa da codificação. Durante os 15 anos seguintes, sua pena colaborou ininterruptamente com a equipe "Espírito de Verdade"
tempo suficiente para consolidar a 3º Revelação, ou Doutrina; Espírita, através das revelações contidas nas obras que escreveu e assinou com o pseudônimo de Allan Kardec, com especial ênfase para o "O LIVRO DOS ESPÍRITOS.", entregue, -sua primeira edição,- ao público, em 18 de abril de 1 857.
A Doutrina Espírita, fundada na argamassa do "O Livro dos Espíritos" e suas obras complementares , corporifica e desdobra os ensinamentos do Cristo em toda a sua inteireza e profundidade Conduz-nos, a doutrina, qual guia fiel,' através do tempo e do espaço cósmico, situando-nos como filhos do Arquiteto Divino no seio da Morada Universal.
Não somos, ensina-nos a doutrina, os que estagiam nas criptas do primitivismo; os que se degradam nos labirintos dos vícios e da paixões; os que perambulam pelos vales da sombra e da dor; os que vagueiam pelos corredores da angústia e da desesperança, seres separados ou diferentes, a não ser quanto ao grau evolutivo,- daqueles que, vestidos com a túnica da virtude, semeiam exemplos de trabalho e amor santificado.
Somos, todos, filhos e herdeiros do Pai Maior, tendo a nos aureolar a fronte, a tiara divina, que é idêntica em lados, mas que, em cada um de nós será mais luminosa quanto mais espiritualizados conseguimos Ser.
(Informativo Cesme – Março e Abril de 2000)
Antonio Paiva Rodrigues
“” Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. “Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, eu nada serei”
“Jesus”.
Quando se fala na vida do Mestre, um frenesi percorre a nossa mente em busca de inspiração para expormos algo, do que, aprendemos sobre a sua vida no orbe terrestre, através das religiões que praticamos. Só que, os teólogos, os religiosos, procuram ficar somente na parte literal, esquecendo ou escondendo nuances, que só aprenderemos através dos exegetas e de pesquisas profundas, feitas com amor e dedicação. Esconder para que? A vida de Jesus é contada de diversas maneiras, se assim ou assado não interessa; o que vale são os preciosos ensinamentos que ele nos deixou e que muita gente não os seguem, por ignorância, preguiça ou falta de fé. Vem de longa data a controvérsia sobre a vida de Jesus. Certas religiões o consideram Homem-Deus ou mensageiro do alto. Outras o julgam, filosofo ou líder de massa e dominador de multidões, um homem de gênio, um homem prodigioso, um revolucionário e a até quem o julgue como o pior dos anarquistas (Aníbal Vaz de Melo). O teólogo francês Alfred Loisy, o classifica de um camponês medíocre. Eu, não chegaria a tanto. Digo que, sigo seus ensinamentos, o considero Meu Irmão Maior, amigo de todas as horas e o único Espírito Puro que pisou a face da terra. Além, dessas aberrações teológicas, existem aqueles, espíritos inferiores que negam a sua existência, o filosofo alemão Arthur Drews, escreveu, um livro, cujo título é “O Mito de Cristo” e J. Brandes em sua catilinária, afirma que Cristo nunca existiu.
Agnósticos com certeza. Uma vez elaborei uma matéria contando a vida de Jesus dos 13 aos 30 anos, só que alguns companheiros julgaram e disseram, que eu, estava cometendo uma heresia. Julgar por julgar, nada vale. No Novo Testamento, a vida do Mestre sofre um hiato entre sua infância e a maturidade, dos 13 aos 30 anos, como citei anteriormente. A Bíblia não esclarece nada a respeito desse período, e os nossos irmãos de crenças acreditam que ele esteve trabalhando com seu Pai José. Alguns estudiosos dizem que quando Jesus estava com catorze anos seu pai desencarnara e acrescentam: Tomou para si, a pesada tarefa do filho primogênito, qual a de sustentar a família. Há quem afirme que Jesus levou uma vida de pobre, Daniel Rops, ajudava sua mãe nas tarefas diárias. Vale ressaltar que a profissão de carpinteiro, não era executada por pessoas tão humildes assim como nos dias de hoje, a de pescador também, que era a de Pedro seu discípulo, a maioria desses pescadores possuíam muitas embarcações e não simples jangadas. “Os galileus eram pessoas honradas, menos formalistas, que os povos da Judéia, corações simples, um pouco rudes. Jesus tomou deles sua linguagem, seus costumes e muitas imagens de suas palavras”. Não é esta minha opinião, Jesus como espírito puro, buscava conhecimentos e por isso sua ausência e tão decantada em prosa e versos. Ernesto Renam talvez seja o estudioso mais sensato, quando fala da vida de Jesus de Nazaré. Nesta cidade veio a sua primeira glória, se foi carpinteiro ou não, é menos importante, a sua vida mística que muitos condenam existe um ar de veracidade, condenar o misticismo para que: João Evangelista era místico e até o nosso grande Bezerra de Menezes também. Para quem quer estudar mais amiúde o Dr. Francisco Klors Werneck, conta com detalhes à vida do Cristo e o que ele fez na sua ausência. Falar também que Jesus aprendeu e pertencia à seita dos essênios para muitos é uma aberração, o problema é que nós seres humanos não somos donos da verdade.
O que acontece a mais de dois mil anos atrás se dissolveu no tempo, acho até que apesar destes percalços existe uma biblioteca extensa a disposição dos estudiosos. Jesus era conhecido também como o Santo Issa, de acordo com os escritos tibetanos, tendo vivido entre os brâmanes e budistas. José de Arimatéia teria viajado com Jesus e chegado até o estreito de Gibraltar onde lá construíram um templo, que existe até os dias de hoje. Aprendeu falar através de parábolas com os budistas e com os indianos, levitação. O que muita gente não aceita é que Jesus tenha sido professor; em Benares estudou ética, física, gramática, matemática e outras disciplinas. Esteve também no Egito, estudou no Oriente com os seus discípulos; Eduardo Schuré disse o que Jesus queria saber só, os Essênios podiam ensinar. Não sou quem afirmo; Annie Besant outro estudioso diz que Jesus aos dezenove anos entrou para o mosteiro essênio das proximidades do Monte Serbal.
Até os muçulmanos acreditam que Jesus morreu em Kashmyr, na Índia. Como citei antes Jesus esteve na Inglaterra com José de Arimatéia, fato citado pelo Sr. André Cehesse. E ainda existe a polêmica dos manuscritos do Mar Morto, aprofundando cada vez mais o mistério, do maior símbolo da humanidade de todos os tempos. São mistérios que não devemos discordar e sim tomar ciência da personalidade de Jesus, pois seu mistério vai ao infinito como afirma nosso irmão Aureliano Alves Neto. A sinagoga era o centro da vida religiosa, a casa onde se ouvia a palavra de deus e onde se rezava. Em uma antiga inscrição numa sinagoga, lê-se que a casa fora construída “para a leitura da Lei e para o ensinamento dos preceitos”.
Segundo a tradição, só podia ser usada para a leitura da Lei escrita (a Torá), para transmissão da leitura oral (as tradições e interpretações efetuadas pelos rabinos) para pesquisa e para o desenvolvimento da Lei e sua aplicação na vida prática. A sinagoga constitui ainda o centro da vida cultural de Israel.
A tentativa de reconstruir o mundo cultural de Nazaré e de Jesus segue, assim, um caminho que nos leva à sinagoga e se perguntássemos o que lia Jesus, a resposta seria: “o que lia na sinagoga”. Se Jesus conheceu e manuseou escritos, estes foram, sem dúvida, os textos das sinagogas: a Torá, os Profetas, os Salmos, as traduções em aramaico dos livros sagrados, as diversas orações.
Não cabe a eu julgar, e sim repassar aquilo que aprendi através de pesquisas e estudos, já os que procedem ao contrário nada vão acrescentar aos seus alfarrábios intelectuais.
Albino A. C. de Novaes
Os pseudo-epígrafos do Velho Testamento, os Manuscritos do Mar Morto, os Códices Nag-Hammadi, um manuscrito árabe que contem uma versão do testemunho do historiador judeu Josefo sobre Jesus, as escavações arqueológicas na Palestina, especialmente em Cafarnaum e Jerusalém, levam-nos a especular sobre um Jesus histórico que supera o Jesus Mítico em sabedoria, espiritualidade e divindade.
“(...) agora já não podemos conhecer qualquer coisa sobre a vida e a personalidade de Jesus, uma vez que as primitivas fontes cristas não demonstram interesse por qualquer das duas coisas, sendo alem disso, fragmentarias e muitas vezes lendárias; e não existem outras fontes sobre Jesus”
Assim se expressou RUDOLF BULTMANN, consagrado professor da Universidade de Marburg.
Mas, em nossos dias, a opinião que predomina é que podemos conhecer muito bem o que Jesus queria fazer, podemos saber muito sobre o que ele disse.
R. BULTMANN, na primeira pagina da sua THEOLOGY OF NEW TESTAMENT, fez uma afirmação ao mesmo tempo audaz e sucinta:
“A mensagem de Jesus é antes um pressuposto para a Teologia do Novo Testamento do que uma parte dessa Teologia (...). Assim, o pensamento teológico- a Teologia do Novo Testamento- tem inicio com o QUERIGMA da igreja primitiva, e não antes”.
Esclarecemos que o temo QUERIGMA é o mesmo que mensagem, proclamação, pregação. Mais tarde este termo passou a designar a pregação da Cristandade Primitiva a respeito de Jesus.
Num esboço da Teologia do Novo Testamento, ainda não encontramos elementos que permitam omitir de seu contexto a Mensagem de Jesus. Não podemos reduzir a vida e o pensamento de Jesus, a um contexto estritamente histórico.
Os sonhos, as idéias, os símbolos e os termos de seus primeiros seguidores foram certamente herdados por Jesus de um modo direto. Vemos tais sonhos, idéias, símbolos e termos profundamente entranhados no mundo e no pensamento do Judaísmo Antigo.
Vejamos a seguir a abordagem de BULTMANN logo ao inicio da Teologia do Novo Testamento:
“é de importância primordial para a tradição do Evangelho a integração do ministério terreno de Jesus e do querigma, para que o primeiro se torne a base que sustenta o segundo. Essa “rememoracao” de Jesus permanece sendo, especialmente nos grandes Evangelhos, a intenção primaria (...). Se desejarmos representar a Teologia do Novo Testamento de acordo com sua estrutura intrínseca, temos então de começar com a questão do Jesus terreno”.
Os documentos do Novo Testamento, bem como suas Teologias e suas tendências não podem ser representadas sem considerarmos a vida singular de Jesus, um símbolo de autoridade, mais do que isto, um paradigma para escritores do Novo Testamento. O Novo Testamento e toda a Teologia Crista se desenvolveu da crise e da conseqüente tensão gerada no confronto entre tradição e adição, entre historia relembrada e fé articulada. Não temos medo em afirmar, ser a Teologia tradicional, firmada em bases dogmáticas e numa fé articulada para atender a interesses de grupos sectários.
Duzentos anos de pesquisa não foram suficientes para se produzir um Jesus histórico. Ao nosso ver uma biografia de Jesus é e será sempre impossível. As informações que nos tem chegado a respeito de Jesus são escassas, algumas são truncadas e os próprios evangelistas não se interessaram muito em Jesus como uma pessoa do passado ou como um homem do mundo.
Entre os Espíritas há os que não se interessam pela pesquisa do Jesus homem, do Jesus inserido no contexto do mundo, ou ainda, do Jesus histórico. Afirmam que seus ensinamentos devem ser o único alvo. Concordamos que a mensagem de Jesus deva ser tratada prioritariamente, mas se conhecermos uma pouco mais sobre o Mestre Nazareno, certamente seus ensinamentos serão melhor compreendidos.
Retornemos aos Historiadores.
Certos aspectos específicos da vida de Jesus eram essenciais para a vida e o pensamento quotidiano de seus primeiros apóstolos: conhecer Jesus era o primeiro passo para conhecer sua filosofia, seu posicionamento diante dos fatos sociais, políticos e religiosos da época.
A vida levada por Jesus somada a antigas tradições formativas fez com que seus seguidores aprendessem a pensar, ensinar e até suportar sofrimentos, até mesmo o martírio. No primeiro século reinava
entre cristãos e judeus a crença de que o presente estava impregnado de futuras expectativas.
As tradições sobre Jesus nos Evangelhos resultam de pregações, ensinamentos e polemicas conflitantes com os judeus.
Como foram escritos os Evangelhos?
Marcos, em algum instante por volta de 70 de nossa era, compôs o primeiro Evangelho, recorrendo a um complexo de tradições que refletia não apenas o que vinha ocorrendo desde a crucificação de Jesus no ano 30 d.C., mas também as ações lembradas e as palavras de Jesus anteriores ao ano 30.
Mateus e Lucas dependeram de Marcos, não do moderno e eclético texto grego de Marcos. João possivelmente, também conheceu Marcos e dele herdou a criação literária ou seja o gênero “evangelho”. Todos os evangelistas herdaram tradições, algumas das quais só pertenciam a um deles. Cada evangelista escreveu a partir de uma perspectiva sociológica e teológica distinta.
Mas podemos formular algumas outras perguntas para completar a primeira:
Que fontes estavam a disposição de Marcos e dos outros evangelista? Até onde eram autenticas? Como se pode confiavelmente distinguir entre o verdadeiro e o falso? O que é digno de confiança e o que é fabricado? Como foram significativamente moldadas as tradições dos evangelistas pelo processo de transmissão? Será que alguém durante a vida de Jesus deixou por escrito alguma coisa sobre o que ele ensinara?
Infelizmente estas e outras pergunta similares continuam sem respostas conclusivas. Mas isto não deve desanimar os historiadores.
Não devemos desavisadamente ignorar a mais simples das questões: como poderemos explicar o aparecimento de um evangelho? O que o precedeu? Como foi possível para Marcos fazer o que fez, se tudo o que o precedeu foram querigmas ou proclamações desprovidas de qualquer interesse ou conteúdo históricos?
O fato é que, desde as primeiras décadas do movimento associado a Jesus, houve algum interesse histórico no homem Jesus de Nazaré: isto o prova a mera existência dos Evangelhos- que incluem a celebração da vida e dos ensinamentos de Jesus anterior a Páscoa.
Os Evangelhos contam a historia dos feitos e dos ensinamentos de um homem. Não apenas Lucas (1:1-4) e João (21:25), mas também Marcos e Mateus indicam que o interesse no Jesus que precedeu a Páscoa lhe eram anterior.
Marcos dá ênfase a afirmação, herdada de Jesus, de que está agora começando o ato final no drama dinâmico em que Deus se move para uma humanidade imoral.
Mateus luta para provar que todas as profecias concebíveis foram cumpridas por Jesus:
Lucas tende a fazer a historia universal trifurcar em três períodos: o templo de Israel, o meio do tempo ou o tempo de Jesus, e o tempo da igreja. Ele também abranda a tendência de Marcos para dar ênfase ao presente como o fim do tempo e da historia e sua afirmação escatológica injusta de que Jesus regressará triunfantemente a qualquer momento. Considerando a tradição do Evangelho e sua transmissão, observamos que:
J. Herculano Pires
(I)
(Hoje constatamos) “um abismo entre o Cristo e o Cristianismo, tão grande quanto o abismo existente entre Jesus de Nazaré e Jesus Cristo nascido (...) na cidade do Rei Davi em Belém da Judéia, segundo o mito hebraico do Messias. Por isso a Civilização Cristã, nascida em sangue e em sangue alimentada, não possui o Espírito de Jesus, mas o corpo mitológico do Cristo, morto e exangue. Por isso o Padre Alta estabeleceu em Paris, a diferença entre o Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários. Não podemos condenar o processo histórico que brotou, rude e impulsivo, das condições humanas de civilizações agrárias e pastoris, mas não é justo que conservemos em nosso tempo de abertura para novas dimensões da realidade humana a da realidade cósmica.
As atuais Teologias da Morte de Deus, nascidas da Loucura de Nietsche, provou a razão de Lutero. A Nova Teologia do Padre Teilhard de Chardian oferece-nos os rumos da renovação. E o Papa João XXIII, um camponês que voltou ao campo, tentou limpar a Seara. é o tempo de compreendermos que Jesus de Nazaré não voltou das nuvens de Betânia, mas em Espírito e Verdade, para conduzir-nos a toda Verdade Prometida”.
(II)
“Na Galiléia dos gentios, sob o domínio romano de Israel, as esperanças judaicas do Messias cumpriram de maneira estranha e decepcionante. Nasceu o menino Jesus em Nazaré, na extrema pobreza da casa de um carpinteiro, próximo a Decapolis impura, as dez cidades gregas que maculavam a pureza sagrada da terra que Javé cedera ao seu povo. Era penoso para os judeus aceitarem esse desígnio do Senhor, que mais uma vez lhe impunha terrível humilhação. José o carpinteiro casara-se com uma jovem de família pobre e obscura, com pretensas ligações com a linhagem de Davi. Jesus devia nascer em Belém de Judá, a Cidade do Rei cantor, poeta e aventureiro. E devia chamar-se Emmanuel segundo as profecias. Javé certamente castigava os judeus pela infidelidade do seu povo, que deixara a águia romana pensar no Monte Sião. Toda a heróica tradição de Israel se afogava na traição a aliança divina da raça pura, do povo eleito, com o poder impuro de César.
A decepção dos judeus aumentava ante a desairosa situação social de José, velho e alquebrado artesão, casado com uma jovem que já lhe dera vários filhos. Jesus não gozava sequer das prerrogativas de primogênito (alem de forjarem a condição de primogênito também forjaram a virgindade de Maria, do contrario as profecias não teriam se cumprido). Herodes, o Grande, que se contentava no ajuste com os romanos, a dominar apenas a Galiléia e alem disso construíra o seu palácio sobre a temível impureza das terras de um cemitério, tremeu ante esse novo desafio aos brios da raça e condenou os que aceitavam esse nascimento impuro como sendo o do Messias de Israel. Era necessário, para sua própria segurança, desfazer esse engano. O menino intruso devia ser sacrificado, e para isso bastava recorrer as alegorias bíblicas e espalhar a lenda da matança dos inocentes. Nos tempos mitológicos em que se encontravam era comum tomar-se a Nuvem por Juno. Mas o menino que nascera de maneira incomum, filho de família pobre (e por isso suspeita), cresceu revelando inteligência excepcional que provocava a admiração do povo. Submetido a sabatina ritual dos rabinos do Templo de Jerusalém, para receber a bênção da virilidade, assombrara os doutores da Lei com seu conhecimento precoce. Mas esse brilho fugaz era insuficiente para lhe garantir a fama messiânica. Logo mais ele se mostrava integrado na família humilde a condição inferior e aprendendo com o velho pai a profissão a que se dedicaria. Não obstante para a prevenção de dificuldades futuras, as raposas herodianas incumbiram-se de propalar a lenda da violação da honra conjugal de Maria pelo legionário Pantera. Com esse golpe decisivo, o perigo messiânico ficava definitivamente anulado.
Não seria possível que o povo aceitasse a qualificação messiânica para um bastardo.
(...) Jesus crescia e se preparava na obscuridade, para o cumprimento de sua missão. Quando se sentiu integrado na cultura hebraica, senhor das escrituras e das tradições da raça, iniciou as suas atividades publicas. Sua própria família então se revoltou contra o perigoso atrevimento daquele jovem delirante. Sua mãe e seus irmãos, como relatam os Evangelhos, tentaram fazê-lo voltar para casa e a oficina rústica do pai. Foi então que seu primo, João, o Batista, que já antecipara seu trabalho messiânico, preparou-lhe as veredas da sua semeadura revolucionaria. Na própria Galiléia Jesus encontrou os seus primeiros discípulos. Homens humildes, mas cheios de fé, de esperança, dispuseram-se a segui-lo. (...) Suas atitudes claras e enérgicas, seus princípios racionais, desprovidos das superstições rituais da tradição, assustavam e muitas vezes atendiam aquelas almas sedentas de luz e de prodígios messiânicos. Sua popularidade cresceu rapidamente no seio de um povo que sofria como jugo romano, a infiltração constante e irreprimível dos costume pagãos nas classes dominantes, sob a complacência covarde de um rabinato embriagado pelos interesses imediatistas. Renasceram então antigas lendas a seu respeito. Os que o aceitavam, levados pelas aspirações messiânicas, propalavam estórias absurdas sobre a sua infância e adolescência obscuras, com entusiasmo fanático da ignorância e do clima mitológico da época. Os que a ele se opunham, atrelados ao carro dos interesses romanos e dos seus aliados judeus, ressuscitavam as lendas do seu nascimento vergonhoso e das suas relações secretas com Satanás e com ordens ocultistas e mágicas, como a dos Essênios, geralmente temidas pelas atrocidades que praticavam em seus redutos indevassáveis.
A figura humana de Jesus de Nazaré, o jovem reformador do judaísmo, que pregava o amor e a fraternidade entre os homens, ia rapidamente se transfigurando num mito contraditório, ora de semblante celeste e atitudes amigas, ora de rosto irado e chicote em punho. Os discípulos procuravam enquadrá-lo nas profecias bíblicas certos de sua condição messiânica. A mentalidade mística, profundamente diversa de mentalidade racional que ele encarnava, naquela fase de transição histórica e cultural, aceitava mais facilmente a profecia como realidade dos próprios fatos reais. O sentido de suas palavras e até mesmo as expressões alegóricas, de que as vezes se servia, para se fazer mais compreensível, eram entendidas de maneiras diversas, segundo a capacidade de compreensão de certos indivíduos ou grupos. Esse é um processo de deformação bastante comum nos tempos de ignorância e que hoje se repete nos meios e regiões ainda não atingidos pelo progresso. Os fenômenos de fanatismo religioso e misticismo popular, ainda em nossos dias, revelam a mecânica emocional dessas estranhas, e não raro, bárbaras metamorfoses de interpretação popular de ensinos racionais e de fatos comuns transformados em acontecimentos misteriosos.
(...) na elaboração tardia dos textos evangélicos, em tempos e lugares diferentes, com os dados fornecidos pelos LOGIAS (anotações de apóstolos e discípulos) ou mesmo de informações orais, deturpadas pelo tempo, transfiguradas pelos sentimentos de veneração que crescera através dos anos, os elementos míticos se infiltraram no relato, amoldando a realidade distante as condições mitológicas da época.
Não consideramos o movimento cristão primitivo como constituindo um bloco monolítico de crenças e ritos e administrado por uma incontestável instituição. Entendemos o Cristianismo de hoje como originário de uma fusão de diversas crenças tendo o Judaísmo e o Mitraismo como pano de fundo, fragmentado, contraditório, tendo uma parte sob o jugo de um poder centralizador. Vemos um enorme abismo entre Jesus de Nazaré e Jesus Cristo: preferimos Jesus de Nazaré, este sim o anjo sideral. Mas isto não deve ser motivo de espanto, pois continuaremos (até que os espíritas possam compreender a diferença entre um e outro) nos referindo como Cristo ao Jesus de Nazaré.
Hermínio Miranda afirma que “Foi considerável o atrito entre as diversas correntes que disputavam a hegemonia do movimento cristão, como ainda hoje se pode observar dos veementes textos sobreviventes, de autoria de herisiologos de então, na defesa do que entendiam como princípios inegociáveis da única e verdadeira fé. O resultado de tais contendas ideológicas é que parece redobrar quando o debate combina as duas situações(...)”. Não podemos fugir do debate: a contenda intelectual ativa e equilibrada entre estudiosos sérios é imprescindível para evitarmos que irreparáveis equívocos sejam publicados em nome da Doutrina Espírita. Não podemos nos situar como donos da verdade: não queremos hegemonia.
Quando eu tinha cerca de 9 anos de idade, ao entrar na sala de aula do Instituto de Zootecnia, escola primaria agrícola ( SITUADA EM ITAGUAI-RJ) fiquei embaraçado e chocado ao mesmo tempo com um quadro retratando Jesus irado e com um chicote. Estava acostumado aos ensinamentos Espíritas de minha mãe a respeito do Mestre Nazareno, quando aprendi a vê-lo como exemplo de ternura e amor. Foi um momento importante: descobri que havia algo de errado com aquele “Cristo”.
Agradecemos a atenção.
Deus e o Mestre Jesus abençoe a todos.
Antonio Paiva Rodrigues
“Quando o homem valente, bem armado, guardar a sua casa, os
seus bens estarão seguros; mas quando sobreviver outro mais valente do que ele
o vencer, tirar-lhe-á toda a armadura em que confiava e repartirá os seus despojos”.
(Lucas, XI, 21-22.).
A vida de Jesus vendo causando controvérsias com o passar do tempo, visto que, a Bíblia, esconde o período em que o menino Jesus esteve neste orbe dos treze aos trinta anos. Na minha simplicidade, pois assim fui criado, procuro emitir um parecer que julgo plausível, respaldado pelo que tenho lido no decorrer de minha aprendizagem espiritual, através desta maravilha Doutrina, que é a Espírita.
Alguns exegetas, doutrinadores, escritores, oradores procuram expor opiniões, as mais diversas possíveis, mercê de suas “inteligências” e “conhecimentos”, pelos estudos auferidos da doutrina mais bela do mundo. Diante de tais fatos, quero salientar que não somos dono do mundo e a diversidade de deduções mostra ou denota que alguém está errado, ou interpretando a doutrina ao seu bel-prazer.
Outro assunto que tem causado um certo impacto e espanto é, o que se sabe, a respeito de Jesus e o Espírito da Verdade; muitos confrades afirmam ser Jesus o Espírito em alusão. Não concordo com esta afirmativa e os que assim procedem, apesar de mostrarem certo conhecimento do Espiritismo, estão distorcendo fatos. Já ouvi alguém de sã consciência afirmar que o Espírito da Verdade é Jesus e aí indago: é ou não é?
Lendo um artigo de um confrade Fernando A. Moreira, concordo com ele eu gênero, número e grau, senão vejamos: “Não consigo imaginar Jesus, por três horas seguidas dando pancadas na parede do escritório de Kardec, para lhe avisar que, na trigésima linha de seu trabalho havia cometido um erro”. Ora, se Jesus quisesse participar com representatividade da Codificação, o faria dando todas as mensagens durante todo o tempo, de maneira clara, insofismável e com inigualável alumbramento em todas elas, como sempre fez, como lhe seria permitido como Governador deste planeta.
Existem os mais exaltados que não admitem sequer uma opinião, o que dizer? Tenho que engolir sem contestar? Não. Não é o meu caso, pois apesar dos meus parcos conhecimentos procuro unir o útil ao agradável. Jesus não teria nenhuma razão para esconder-se sob qualquer denominação.
Faltaria o motivo da incógnita, como frisa muito bem nosso confrade em alusão. Lembremo-nos que quando o Mestre aqui esteve, não deixou nenhum escrito ou mensagem, delegando poderes a seus apóstolos, confiando-os que eles seriam capazes de transmitir condignamente seus ensinamentos, as futuras gerações.
“Sob o nome de Consolador, de espírito da Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera, nada ficaria esquecido, como também o que poderia ser desvirtuado com o passar do tempo e a falta de interesse da população, daquela época e de hoje”. Por ele foi dito que, o Espírito da verdade viria tudo restabelecer e de combinação com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinamentos”.
A polêmica causada e as dúbias interpretações de alguns de nossos irmãos, talvez, tenham origem numa mensagem recebida por Kardec, em que, o emissor teria assinado a mesma com o nome de Jesus, outros afirmam que essa mensagem está verdadeiramente assinada por Jesus de Nazaré. Esta mensagem foi guardada por muito tempo, já que, merecia um estudo mais aprofundado, para certificação de sua autenticidade e posterior divulgação.
Lembremo-nos de uma passagem bíblica que afirma, Jesus se recolheu ao deserto e jejuou por quarenta dias e quarenta noites, foi tentado por um espírito inferior (demônio, satanás), induzindo o mestre a cometer certos atos indignos a sua pessoa, oferecendo-lhes coisas impossíveis, que Jesus na sua qualidade de Espírito Puro jamais poderia aceitar. Entendo que este acontecimento é mais uma alegoria que verdade, já que, sendo Jesus um Espírito Puro jamais poderia ser tentado por um espírito inferior. Onde ficaria a lei de causa e efeito, e de ação e reação?
O Espiritismo realiza, todas as condições do Consolador que ele prometeu, quem ler João XIV em todos seus versículos, não poderá afirmar ou chegar a conclusão absurda que Jesus prometeu que mandaria ele mesmo como Consolador. Jesus claramente indica que o Consolador não é ele, e tais afirmações são de Kardec, são do codificador, alguns estudiosos conhecidos afirmam com uma certa veemência, que a idéia do consolador prometido saiu da própria consciência de Kardec, não vou embarcar nesta nau, pois corro o risco de naufragar.
Para os neófitos queria esclarecer o seguinte O Espírito São Luiz participou com mais dezesseis colaborações, Santo Agostinho, com onze, O Espírito Protetor com oito, o Espírito da Verdade com oito (Usando as denominações seguintes: Espírito da Verdade, Espírito-Verdade, na maioria das vezes Espírito de Verdade), das Obras Básicas podemos extrair mais de cinqüenta comunicações espirituais.
Sobre o que falei anteriormente a mensagem publicada no L.M: cap XXI, pág 450(publicado em 1861, diz Kardec): “Esta comunicação foi assinada com um nome que o respeito não nos permite reproduzir, senão sob todas as reservas, esse nome é o de Jesus de Nazaré”.
Como já dissemos, quanto mais elevados são os espíritos na hierarquia, com tanto mais desconfiança deve seus nomes ser acolhidos nos ditados. Para um bom entendedor duas palavras bastam. Ou não?
Porém uma coisa deve reconhecer: a superioridade incontestável da linguagem e das idéias, deixando que cada um julgue por si mesmo se aquele de quem ele traz o nome não a renegaria. Para ilustrar esta posição: queria contar um fato narrado por nosso irmão Chico Xavier que nos fala de um cachorro obsessor.
Se for verdade ou apenas um fato hilariante não me cabe julgar. Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer discrição; nada mais saberás a respeito. A frase em alusão denota claramente a intenção de Kardec e do Espírito Superior em não revelar a identidade do Espírito. É uma grande responsabilidade, Kardec jamais poderia cair numa esparrela, apesar de seus conhecimentos e poderes também fazia parte do rol de Espíritos imperfeitos.
Aqui não vai nenhuma crítica, apenas um alerta, pois dar identidade aos espíritos, querendo suplantar-lhe o desejo de permanecer desconhecidos é cair num grande processo de adivinhação, processos estes em sua maioria fadados ao erro, se temos o direito de desrespeitá-los!
O Espiritismo, A Doutrina Espírita, esta doutrina maravilhosa, o presente mais valioso que Deus nos deu, não foi colocar em evidencia o revelador, mas A Revelação, quer queiram, quer não, é de origem divina; A Verdade foi mais importante do que, revelar o Espírito. Sabemos que ele está presente em toda obra da Codificação. É polêmico? Talvez.
É muita antiga nossa preocupação em conhecermos qual teria sido a aparência real de nosso Irmão Maior, Jesus Cristo e principalmente uma mensagem “repassada por Ele”. O nome de Jesus vem do hebraico; Ieschuach, cujo significado é “Salvador”. Sua vida pública começou pelos trinta anos como nos contam os inúmeros livros escritos por experts no assunto.
Os exegetas não são unânimes em determinar a duração da pregação evangélica de Jesus Cristo. O Islamismo considera-o um grande profeta como Moisés, mais inferior a Maomé. Quanto à comparação a Moisés não concordo, já que Jesus jamais dizimou um ser humano sequer, Moisés em seu furor, ordenou a seus seguidores dizimarem mais de três mil judeus, na busca da terra prometida.
O sinal secreto dos primeiros cristãos, erro o peixe em Roma, no tempo das perseguições, os irmãos de fé eram conhecidos por este símbolo. “Ichthys” “Iesus Chistós Theou Yós”, em português, língua mãe Jesus Cristo, Filho de Deus. Para encerrar esta matéria queria dizer que o profeta Daniel, que conheceu Cristo afirmou: “seus cabelos eram brancos como a neve”.
Deixo aqui mais uma interrogação: Já outros estudiosos dizem o contrário; o cabelo do Mestre é da cor de fogo. Resolvi me prolongar mais um pouco na minha exposição, dando um enfoque especial ao título desta matéria que leva o título de Jesus, nosso Irmão Querido.
Hon. Harry Fogle
Editado por Frederick Graves, JD
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Há tanto misticismo e confusão acerca da crucificação e ressurreição que acabamos perdendo de vista o fato de que Jesus de Nazaré foi julgado como homem diante de uma corte de homens sob as leis dos homens, condenado e executado como homem, e que como drama, o julgamento de Jesus supera quaisquer dos grandes julgamentos da história da justiça humana.
Abordarei esse assunto como advogado, não como teólogo. Recomendo a pesquisa dos aspectos teológicos dos eventos por conta de cada um. Creio que ter o ponto de vista de um advogado sobre os processos da lei que culminaram na morte de Jesus na cruz cruel do Calvário pode levar a uma melhor compreensão espiritual.
De início eu quero enfatizar que não considero que uma raça inteira de pessoas (os Judeus) tenha causado a morte de Jesus. E também não creio que nenhum Cristão inteligente pensaria isto.
Minha opinião é que apenas uns poucos homens poderosos em Israel - principalmente os sacerdotes superiores daquela nação - foram os responsáveis pela injustiça que ocorreu. Para entender quão grande foi essa injustiça, vamos examinar a lei Judaica como ela existia na época... um verdadeiro e magnífico sistema de justiça criminal.
Sob as provisões da lei Judaica não poderia haver condenação por um crime capital baseado no testemunho de menos que duas pessoas. Uma testemunha era considerada a mesma coisa que nenhuma testemunha. Se houvessem apenas duas testemunhas, ambas teriam que concordar em todos os particulares até os mínimos detalhes.
Sob a lei rabínica, o acusado tinha o direito de ter um defensor (o precursor da garantia de ter um advogado em processos criminais que é definido pela Sexta Emenda da Constituição dos Estados Unidos). Se o acusado não pudesse pagar pela defesa, um defensor seria escolhido para ele. Alguém poderia pensar no caso Gideon versus Wainwright, que deu origem ao sistema de defensores públicos como uma inovação. Mas na realidade essa era a prática das cortes desde há 2000 anos atrás!
Sob a lei Mosaica, um acusado não poderia ser obrigado a testemunhar contra si mesmo. Esse era o espírito da Quinta Emenda (dos EUA): "Ninguém deve ser obrigado a servir de testemunha contra si próprio em nenhum caso criminal." Eis o conceito de "apelo a Quinta Emenda", que fez parte da justiça criminal desde os tempos de Moisés!
Uma confissão voluntária não era suficiente para a condenação sob a lei Judaica. O ônus da prova ainda era do Estado, que tinha que provar que a confissão, se houvesse sido feita, teria sido feita livremente, de forma voluntária e de plena consciência.
Hoje em dia, os policiais norte-americanos são obrigados a ler os "direitos Miranda" ("Você tem o direito de ficar calado. Tudo o que disser poderá ser usado contra você.", etc ...) para os acusados de forma que a Corte possa determinar que uma confissão seja feita livremente, voluntariamente e conscientemente.
Se uma confissão é feita depois que a lei Miranda foi ouvida e compreendida, a confissão pode ser admitida. Mas não era assim nos tempos de Jesus. A lei Judaica não admitia confissão, sob a crença de que o Estado jamais poderia se basear no que uma pessoa disse de sua própria boca para condená-la.
Uma evidência circunstancial é aquela que não está diretamente ligada ao crime, mas sim relacionada à outras evidências, que juntas, servem para que se deduza como um crime foi realizado. Em um julgamento, as impressões digitais da pessoa (evidência circunstancial) servem para deduzir que o acusado esteve em tal local e tocou em tal objeto, mesmo que ninguém tenha visto o acusado.
No caso em que uma testemunha diz "ouvi um tiro e quando cheguei à cena segundos depois, vi o acusado com uma arma na mão", essa evidência é circunstancial. O problema é que o acusado pode ter disparado um tiro contra o agressor que fugiu após o crime ou o acusado pode ter sido apenas alguém que pegou a arma depois que o agressor a jogou no chão.
Pois bem, as evidências circunstanciais também não eram admitidas. Hoje em dia, raramente se vê um caso nas cortes onde as evidências circunstanciais não sejam usadas. Atualmente, em muitos casos as únicas evidências existentes são totalmente circunstanciais.
Os depoimentos do tipo "ouvi fulano falar isso" (o "ouvir dizer") também não eram admitidos na época. Ainda temos essa regra contra admitir depoimentos de testemunhas que não estão no tribunal e que não podem ser examinadas pessoalmente, mas as exceções à essa regra têm demolido as proteções originais aos acusados.
A regra "inocente até prova em contrário" que nossas leis reconhecem hoje (isto é, um acusado é presumido inocente até que sua culpa tenha sido estabelecida por evidências e pela eliminação de qualquer dúvida razoável) também vem da lei Judaica e essa era a regra quando Jesus foi injustamente crucificado.
O acusado de um crime capital só podia ser julgado durante o dia e em público. Esse era o precursor da garantia constitucional de um julgamento em público.
Nenhuma evidência poderia ser apresentada se o acusado não estivesse presente. Isso deu origem ao atual direito que os acusados têm de estarem face a face com as testemunhas depondo contra eles.
As testemunhas não tinham que jurar. O mandamento "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" era considerado suficiente para deter o perjúrio. Mentir na corte era perjúrio - sob juramento formal ou não.
E mais ainda, havia dois desestímulos adicionais ao perjúrio: (1) qualquer testemunha em um caso de crime capital que desse falso testemunho recebia a pena de morte, e (2) se o acusado de um crime capital fosse condenado, as testemunhas eram obrigadas a assistir à execução. Sob essa provisão da lei, as testemunhas geralmente escolhiam suas palavras cuidadosamente e só davam testemunho com grande cuidado!
O Grande Sinédrio, a Suprema Corte Judaica, era a única corte com jurisdição sobre crimes puníveis com a morte. A criação do Sinédrio é atribuída à Moisés. Foi uma corte de 70 membros composta de um Sumo Sacerdote como juiz principal, uma Câmara Religiosa de 23 sacerdotes, uma Câmara Legal de 23 escribas, e uma Câmara Popular de 23 anciãos. Era a essa corte que Jesus se referia quando ele disse que devia ir a Jerusalém e sofrer nas mãos dos anciãos, sacerdotes e escribas. Ele sabia que pela decisão deles ele seria morto.
Extremo cuidado era usado para selecionar os juízes dessa grande corte. Cada um devia ter pelo menos 40 anos de idade com experiência em pelo menos 3 cargos de dignidade gradativamente maior. Cada um tinha que ser uma pessoa de integridade incontestável e tido em alta estima por seus conterrâneos.
Membros do Sinédrio atuavam como juízes e jurados. Eles não tinham um júri separado. Qualquer membro com interesses ou conhecimento pessoal das partes era requerido que se retirasse do julgamento. A Corte tinha que decidir a questão da culpa ou inocência apenas com evidências apresentadas no tribunal.
O Sinédrio era encarregado sob a lei rabínica de proteger e defender o acusado. Nenhum membro da corte poderia atuar inteiramente como acusador ou promotor. A lei requeria que a corte desse aos acusados o "benefício da dúvida" para ajudar o acusado a estabelecer sua inocência.
Os procedimentos de julgamento eram similares aos nossos. Seguindo-se à audiência preliminar, um sumário das evidências era dado por um dos juízes. Os espectadores eram então removidos do tribunal e os juízes votavam. Uma maioria era suficiente para condenar ou absolver. Se uma maioria votasse pela absolvição, o julgamento terminava e o condenado recebia a liberdade total. Se uma maioria votasse pela condenação, então um procedimento diferente era seguido.
Nenhum anúncio de veredicto poderia ser feito nesse dia. A corte teria que adiar por um dia inteiro. Os juízes recebiam permissão para voltarem às suas casas mas não poderiam ocupar suas mentes em quaisquer atividades sociais ou de negócios. Eles tinham que devotar seu tempo inteiro para a consideração e reconsideração solene das evidências e retornar no dia seguinte para votar de novo.
Nesse segundo dia, qualquer juiz que houvesse votado pela absolvição não poderia mudar seu voto, mas qualquer juiz que, na primeira votação, houvesse julgado o acusado como "culpado" poderia mudar seu voto.
Durante esse tempo, o acusado ainda era presumido inocente.
Uma outra provisão peculiar da lei Judaica era de grande importância, porque um veredicto unânime de culpa resultava na absolvição do acusado! Isso derivava do dever que a corte tinha de proteger e defender o acusado. A lei Mosaica estabelecia que desde que algum membro da corte tinha que fazer a defesa do acusado, um veredicto unânime de culpa indicava que ninguém teria feito essa defesa, que poderia ter havido uma conspiração contra o acusado, e que ele não teria tido um amigo ou defensor. Tal veredicto unânime era inválido e tinha o efeito de uma absolvição.
Israel não era uma democracia com Igreja e Estado separados, mas uma teocracia com Igreja e Estado entrelaçados como uma coisa só. Muitos acreditam que os altos sacerdotes ordenaram a prisão e julgamento ilegal de Jesus, que eles foram quem subornaram Judas, que eles sozinhos é que se sentiram ameaçados pelos ensinamentos de Jesus em público, e que eles sozinhos é que buscaram a morte de Jesus.
A prisão foi ilegal porque ela veio de noite, em violação à lei. Ela foi efetuada através das atividades do conspirador Judas Iscariotes em violação à lei rabínica. Ela não foi resultado de um mandado legal, novamente em violação ao código Mosaico. Os guardas romanos que prenderam Jesus no Jardim de Gethsemane e o trouxeram ao tribunal do Sumo Sacerdote não tinham uma ordem de prisão legal. O julgamento noturno é uma evidência adicional de conspiração contra Jesus por esses sacerdotes cuja hipocrisia o Carpinteiro denunciava publicamente. Sob a lei do Sinédrio, o primeiro passo deveria ter sido a audiência prévia com a leitura das acusações para o réu em uma corte aberta. O registro (incluindo os escritos de Mateus, Marcos, Lucas, João, Josephus, Philo e os Manuscritos do Mar Morto) não menciona nenhum audiência prévia. E eu assumo que Mateus, Marcos, Lucas e João são testemunhas com credibilidade. Nós podemos crer em seus testemunhos.
O registro diz que a corte procurou testemunhos falsos contra Jesus para justificar condená-lo à morte mas da primeira tentativa não conseguiram, apesar dos várias testemunhos falsos que surgiram. Houve perjúrios entre eles mas ninguém estava disposto a arriscar a terrível conseqüência de mentir contra um homem acusado de crime capital.
Mas finalmente surgiram duas falsas testemunhas, e nos disseram Mateus e Marcos que ambos os testemunhos não concordam entre si. A primeira testemunhou para acusação de blasfêmia dizendo que Jesus havia dito "Eu sou capaz de destruir o Templo." A segunda testemunhou que Jesus havia dito "Eu vou destruir esse Templo."
Não houve outras testemunhas além dessas duas, e elas não concordavam entre si. Jesus deveria ser absolvido ainda antes de ser questionado em sua defesa ... e certamente sem ser obrigado a testemunhar contra si próprio.
Porém, o sumo sacerdote Caifás invocou Jesus para que se defendesse (contrariando a lei). "E, levantando-se o sumo sacerdote no Sinédrio, perguntou a Jesus, dizendo: Nada respondes ? Que testificam estes contra ti?" Jesus não respondeu.
Em vez de proteger e defender o acusado como requerido pela lei deles, o próprio sumo sacerdote se tornou o acusador, em franca violação das regras do julgamento. "Conjuro-te pelo Deus vivo", ele gritou, "que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus!"
Agora, coloquemo-nos na posição de um carpinteiro humilde diante dos homens mais poderosos do país, no maior tribunal da nação. É difícil imaginar quão grande foi a coerção e a pressão!
Embora Jesus pudesse continuar em silêncio, ele decidiu falar. "Se vo-lo disse, não o crereis, e também, se vos perguntar, não me respondereis." Os sacerdotes novamente perguntaram "És tu o Filho de Deus ?" A resposta de Jesus foi apenas "Vós dizeis que eu sou." Caifás então anunciou à Corte "De que mais testemunho necessitamos? Pois nós mesmos o ouvimos da sua boca." O resto dos homens daquela corte terrível, ouvindo essas palavras ditas pelo seu sumo sacerdote, ilegalmente confirmaram seu julgamento gritando "É réu de morte!"
A primeira audiência diante do Sinédrio foi concluída por volta das três da manhã. A Corte só adiou o julgamento até o nascer do sol, embora a lei exigisse que cada um deles deliberasse a sós por um dia inteiro antes da segunda audiência.
Eles retornaram apenas algumas horas depois, ao amanhecer. Lucas nos conta "E logo que foi dia, ajuntaram-se os anciãos do povo, e os principais dos sacerdotes e os escribas, e o conduziram ao seu concílio." Essa sessão foi superficial. Nenhuma testemunha foi invocada novamente e a lei foi violada ao se exigir que Jesus respondesse à questão repetida "És tu o Filho de Deus?"
E novamente Jesus respondeu "Tu o disseste", e então acrescentou "digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu." Diante disso, a corte gritou "Para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes agora a sua blasfêmia."
A votação foi feita, os votos dos juízes foram contados, e Marcos nos conta "todos o consideraram culpado de morte." A importância disso reside naquela provisão peculiar da lei Judaica que requeria a absolvição se houvesse veredicto unânime.
Sob a lei Judaica, a morte por apedrejamento era a sentença apropriada para uma ofensa capital. O povo Judeu não crucificava e esse método de executar a pena de morte era de origem Grega ou Romana. Os Judeus executavam os condenados por apedrejamento, decapitação ou estrangulamento de acordo com a natureza do crime. Para a blasfêmia era prescrita a morte por apedrejamento.
No entanto, o exército Romano que ocupava Jerusalém na época era o único com poder de anunciar e executar sentenças de morte. O Sinédrio tinha apenas autoridade para levantar a acusação perante um magistrado Romano ou governador militar, o qual tinha o dever de rever o processo inteiro em um julgamento separado tendo poder para decidir. Portanto, "logo ao amanhecer, os principais dos sacerdotes, com os anciãos, e os escribas, e todo o Sinédrio, tiveram conselho; e, ligando Jesus, o levaram e entregaram a Pilatos."
Normalmente se diz que o reino de Judah nos deu a religião e a Grécia nos deu as artes, mas Roma nos deu as leis. O sistema judicial Romano era incomparável em matéria de jurisprudência, mas Pilatos não seguiu o sistema Romano. Ele não exerceu julgamento independente de acordo com a lei mas cedeu às pressões políticas dos sacerdotes Judeus, violando assim a própria lei que ele estava encarregado de fazer cumprir.
Sua história é um exemplo de como os juízes devem ser sempre livres de pressões políticas, livres para decidir os casos baseando-se apenas na lei e nas evidências. Como Procurador Imperial na Jerusalém ocupada pelos Romanos da época, Pilatos tinha o dever legal de rever todas as evidências e procedimentos nos casos capitais trazidos até ele pelos líderes Judeus. Ele foi um bom juiz (até que a segurança de seu cargo foi ameaçada pela política).
Os sacerdotes levaram Jesus para a entrada do palácio de Pilatos. (Eles não poderiam entrar porque se tornariam impuros, sendo uma época de Páscoa.) Pilatos foi até eles dizendo "Que acusação trazeis contra este homem?".
Essa pergunta é importante porque demonstra a intenção de Pilatos em levar o caso como um julgamento à parte desde o início, começando a julgar a própria acusação. Ele não perguntou "Vocês condenaram esse homem de quê?", mas em vez disso perguntou quais eram as acusações.
Os sacerdotes sabiam a importância da pergunta de Pilatos, então eles responderam indiretamente "Se este não fosse malfeitor, não to entregaríamos." Em outras palavras, Pilatos perguntou "Qual a acusação contra este homem?" e os sacerdotes responderam "Se ele não fosse culpado não estaria aqui!"
Pilatos percebeu essa tentativa de limitar sua jurisdição e induzi-lo a agir de acordo com a vontade deles. Isso o irritou e ele revidou: "Levai-o vós, e julgai-o segundo a vossa lei!" Os sacerdotes foram então forçados a admitir "A nós não nos é lícito matar pessoa alguma."
Tentemos entender o dilema desses sacerdotes em violação às leis. Se eles apresentassem Jesus como um homem condenado por blasfêmia com o depoimento de apenas duas testemunhas que não concordaram entre si, Pilatos reverteria o veredicto. Se eles apresentassem Jesus como alguém condenado por sua própria confissão, Pilatos também dispensaria o veredicto. E, é claro, se eles informassem que Jesus havia sido condenado por votação unânime, Pilatos entraria com um veredicto de absolvição.
Então, os maliciosos sacerdotes apresentaram Jesus a Pilatos sob uma nova acusação que eles inventaram naquele momento: traição contra César. "Havemos achado este, pervertendo a nossa nação", disseram eles, "proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei."
Pilatos chamou Jesus para dentro do palácio e o perguntou em privado "Tu és o rei dos Judeus ?" E Jesus perguntou a Pilatos para saber a origem da nova acusação: "Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim?"
Pilatos replicou "A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim", explicando com isso de onde havia sido originada aquela acusação de traição.
Era uma coisa plausível que um Judeu acusasse um Romano de traição ou que um Romano acusasse um Judeu, mas naquele momento eram os Judeus mais proeminentes da nação acusando um de seus conterrâneos de crime de traição contra Roma!
Jesus disse a Pilatos "O meu reino não é deste mundo." E Pilatos insistiu "Logo tu és rei ?" Jesus respondeu "Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz."
Pilatos então fez a famosa pergunta "Que é a verdade?"
Jesus não deu resposta alguma senão a presença silenciosa de Si, o cordeiro levado ao sacrifício por mentirosos, de forma que Pilatos saiu para onde os sacerdotes estavam e, de acordo com João, pronunciou sua absolvição enfática do carpinteiro Nazareno. Ele disse a eles "Não acho nele crime algum!"
Até então, Pilatos havia seguido a lei à risca. A lei era boa. A lei teria libertado Jesus mas pela persistência desses maldosos sacerdotes que não se importavam em nada com as leis pelas quais eles mesmos governavam a terra e seus habitantes.
Era intolerável para esses inimigos da verdade que seu complô assassino fosse frustrado dessa maneira. Os sacerdotes soltaram rugidos de indignação "Alvoroça o povo ensinando por toda a Judéia, começando desde a Galiléia até aqui."
Essa acusação era a de sedição (revolta, motim, crime contra o Estado), que era menos odiosa que a traição. Ela exigia a prova de uma motivação corrupta para a condenação, mas ainda nenhum motivo maldoso se pode provar que existira em Jesus.
Pilatos ignorou essa acusação, mas com a referência à Galiléia, ele encontrou uma oportunidade de escapar do que o esperava. Herodes, o Tetrarca da Galiléia, estava em Jerusalém para a Páscoa. Pilatos viu nisso uma chance de transferir a responsabilidade para Herodes, que tinha jurisdição para julgar acusações de sedição. Jesus era Galileu. Os sacerdotes aprovaram essa ação porque eles pensavam que Herodes faria o que eles quisessem para ganhar seus favores.
Jesus foi arrastado até o palácio de Herodes, onde as acusações de traição e sedição foram reiteradas.
Herodes, contudo, não se impressionou. Ele havia ouvido a respeito dos ensinamentos de Jesus e o questionou, mas quando Jesus se recusou a responder (um direito de todo acusado), Herodes colocou nele uma túnica branca e o mandou de volta a Pilatos sem dar uma decisão. Se esse procedimento irregular tivesse qualquer status legal, ele levaria a uma nova absolvição. Pilatos concordou.
Lucas nos conta que quando os sacerdotes trouxeram Jesus de volta do palácio de Herodes, Pilatos saiu de encontro a eles e disse "Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem. Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte. Castigá-lo-ei pois, e soltá-lo-ei."
Notemos que Pilatos naquele momento cometeu um erro. Ele declarou "Esse homem é inocente. Herodes o julgou inocente e eu o julguei inocente. Eu vou, portanto, castigá-lo e soltá-lo!" Mas que autoridade legal tinha Pilatos para castigar um homem inocente? Porque ele fez isso?
Apesar de contrária à lei Romana, eu creio que Pilatos fez isso na esperança de que o castigo deixaria os sacerdotes satisfeitos de modo que eles cessariam suas exigências de morte. Assim, Pilatos ordenou o castigo de Jesus, não com uma punição branda, mas com o açoitamento até quase matar, com tiras de couro embutidas com pedaços de chumbo!
A imposição desse açoitamento ilegal foi, em si, um impedimento para punições ainda piores. Qualquer punição adicional violaria as leis tanto de Roma como de Israel, que estabeleciam que, já tendo o acusado sido condenado e punido, ele não poderia ser julgado novamente pelo mesmo crime.
João diz que "desde então Pilatos procurava soltá-lo", mas Jesus foi levado ao quartel dos soldados e despido de sua túnica branca que havia sido dada por Herodes, foi coberto com uma capa púrpura, coroado com uma guirlanda de espinhos, dado uma cana como cetro, e levado para ser confrontado pelos irados sacerdotes novamente.
Pilatos anunciou "Eis aqui o homem." Os sacerdotes responderam "Crucifica-o!" Tudo isso por ter Jesus desafiado a autoridade daqueles homens que estavam dispostos a violar as leis para causar sua morte, homens que por esta razão corromperam sua própria autoridade.
Pilatos então disse "Tomai-o vós, e crucificai-o; porque eu nenhum crime acho nele." Ali estava um juiz de leis dizendo "este homem é inocente, mas vocês podem matá-lo se o quiserem."
É claro que isso não satisfez os sacerdotes. Eles não ousariam crucificar Jesus sem uma aprovação inequívoca de uma autoridade Romana, porque fazer isso os sujeitaria a uma represália, possivelmente até a morte, nas mãos dos Romanos.
"Nós temos uma lei", eles insistiram, "e, segundo a nossa lei, ele deve morrer porque se fez Filho de Deus." E ao dizer isso, eles revelaram a Pilatos que sua verdadeira queixa contra Jesus era, na verdade, a acusação de blasfêmia.
Pilatos, que não havia ouvido ainda essa acusação, mais uma vez levou Jesus à parte e perguntou "Donde és tu?" Essa era a equivalente à nossas modernas perguntas "De onde você vem? Qual é a sua intenção?" Pilatos queria saber o que Jesus poderia ter feito para enraivecer tanto os sacerdotes ao ponto de violarem as leis sagradas de sua nação para condená-lo à morte ilegalmente.
Jesus não respondeu nada. Pilatos então vociferou "Não me falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar?"
Jesus apenas respondeu "Nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse dado."
Pilatos novamente procurou soltar Jesus, mas os sacerdotes enraivecidos exclamaram "Se soltas este, não és amigo do César." Essa era uma ameaça à Pilatos. Poderia haver graves conseqüências se a mais alta corte de Israel denunciasse Pilatos à César. Pilatos sentiu que uma interpretação errada de seu julgamento poderia chegar aos ouvidos de César. Ele poderia ser visto como se estivesse protegendo alguém que era considerado pelos mais influentes de seus conterrâneos como culpado de traição. Pilatos não teve a coragem de lutar pela justiça contra esses sacerdotes coléricos.
Foi então que a esposa de Pilatos lhe enviou uma mensagem: "Não entres na questão desse justo."
Seu apelo levou Pilatos a tentar um último esforço para salvar Jesus sem arriscar seu cargo. Era costume durante a Páscoa de libertar um prisioneiro escolhido pelo povo. Pelo voto popular, as pessoas poderiam conceder anistia a qualquer um sentenciado à morte.
Eu vejo esse como um dos mais dramáticos momentos de toda a História, mas muito do drama passou despercebido pelos autores e dramaturgos, e uma lamentável confusão resultou em 2000 anos de animosidade desnecessária entre Cristãos e Judeus. Foram os sacerdotes Judeus que buscaram a morte de Jesus, não o povo.
O nome Barrabás em Hebraico significa filho de Abás. Pedro era referido por Mateus como "Pedro bar Jonas", isto é, Pedro filho de Jonas. Bar Mitzvah é traduzido literalmente como Filho da Lei. O nome de Barrabás também era Jesus: Jesus Barrabás.
A pergunta de Pilatos aos sacerdotes foi "Qual quereis que vos solte? [Jesus] Barrabás, ou Jesus chamado Cristo?" Eles clamaram, é claro, pela libertação de Barrabás, o notório ladrão e assassino. "Que farei então de Jesus, chamado Cristo?", perguntou Pilatos. Eles gritaram "Seja crucificado!" "Hei de crucificar o vosso rei?", perguntou Pilatos. E aqueles sacerdotes (que odiavam César como só os povos conquistados podiam odiar) disseram a Pilatos "Não temos rei senão o César!"
Pilatos enfraqueceu diante daquela ferocidade implacável e entregou Jesus para que o crucificassem. Ele tomou uma bacia de água diante dele, lavou suas mãos nela e anunciou "Estou inocente do sangue deste justo: considerai isso."
Pilatos mandou gravar na cruz "Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus". Caifás e os outros sacerdotes foram a Pilatos e pediram "Não escrevas 'Rei dos Judeus', mas que ele disse 'Sou Rei dos Judeus'." E Pilatos respondeu "O que escrevi, escrevi."
Jesus foi julgado desde antes de sua audiência. Ele foi acusado de três crimes separados. Os sacerdotes do Sinédrio o condenaram ilegalmente por blasfêmia. Pilatos se recusou a reconhecer esse procedimento inicial. Pilatos, por duas vezes, absolveu Jesus da acusação de traição. Ele foi acusado de sedição diante de Pilatos e Herodes mas foi absolvido por ambos. E ainda assim, Jesus foi executado porque pretensamente se assumiu que ele havia sido considerado culpado de traição. Ameaçado com a possível perda de seu cargo, Pilatos escolheu crucificar Jesus como a maneira mais fácil de calar os coléricos sacerdotes.
Antes das doze horas daquele mesmo dia, Jesus foi crucificado em violação às leis de Israel e Roma, fechando o mais tenebroso capítulo da história da administração judicial e invocando o supremo chamado que o mundo jamais ouvira para que humanos obrassem pela justiça. Dois dos sistemas de leis mais esclarecidos que existiram foram prostituídos para destruir o homem mais inocente que já passou pela face da Terra.
Essa história nunca vai morrer, porque de sua verdade sempre nasce a esperança de toda a humanidade. Mais do que qualquer outro episódio na história do mundo, o julgamento de Jesus clama a todos os homens e mulheres de boa vontade para que trabalhem por um sistema de governo humano pelo qual possamos viver juntos em paz e segurança sob um Estado de Direito administrado com reverência pela Verdade e pelo Amor Caridoso.
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Therezinha Oliveira
Muitos prodígios e maravilhas são relatados no Velho e Novo Testamentos.
Ante eles, o povo israelita costumava expressar sua admiração.
Quando, por exemplo, Jesus curou o paralítico em Cafarnaum, as pessoas ao redor exclamaram:
"Hoje vimos prodígios" (Lc. 5 :26).
Se falassem em latim, teriam dito: "Miraculum", que vem de "mirare" e significa exatamente prodígio, maravilha, coisa admirável.
Passando para o português, "miraculum" resultou no vocábulo "milagre".
A palavra milagre, veio, porém, a mudar de sentido, por influência da teologia católica, passando a significar uma derrogação das leis naturais, pela qual Deus estaria dando uma demonstração de seu poder. Para ser considerado milagre, um fato teria de ser sobrenatural (fora das leis da natureza) e, como conseqüência, inexplicável e insólito (fora do habitual, do comum).
Antigamente a ignorância humana era muito grande; por isso, numerosos fatos eram tidos como inexplicáveis e, em conseqüência, considerados como sobrenaturais, milagrosos.
O progresso do conhecimento humano vem contribuindo para esclarecer muitos desses pretensos milagres. A ciência revelou novas leis que explicam fenômenos e, assim, foi destruindo lendas, abolindo crendices e superstições.
À medida em que aumenta o rol dos fenômenos e leis conhecidos, o círculo do maravilhoso vai ficando menor.
Ainda resta muito de "maravilhoso" no que diz respeito à ação do espíritos sobre a matéria, porque é campo pouco conhecido da ciência, por enquanto, mas o Espiritismo já nos instrui e orienta sobre esses fenômenos.
À luz da Doutrina Espírita, sabemos que muitos dos feitos admiráveis narrados na Bíblia:
Quanto mais se vier a conhecer a vida universal, menos se falará em sobrenatural ou milagres.
Em compensação, cada vez mais se confirmará a presença do elemento espiritual e os efeitos de sua ação em nós e ao nosso redor.
Nesses fenômenos admiráveis, cada vez mais reconheceremos a grandeza de Deus, que se revela majestosa na sabedoria com que rege o universo através de suas leis soberanas, a tudo prevendo e provendo, sem que nenhuma delas precise ser complementada, corrigida ou anulada.
Jesus realizou muitos fenômenos admiráveis e dos tipos mais variados: curas de enfermos físicos, afastamento de espíritos perturbadores, clarividência, telepatia, multiplicação de pães e peixes, levitação, transfiguração, profecias, etc.
Realizou-os por ser um espírito altamente evoluído, que apresentava faculdades espirituais em elevado grau de desenvolvimento e sabia usar seu pensamento e vontade de modo superior.
Seu perispírito permitia-lhe mais amplo exercício das faculdades espirituais porque era formado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres e constituía um reservatório dos mais puros e ativos fluidos.
A explicação espírita, demonstrando que os feitos de Jesus foram fenômenos naturais, não diminui a figura do Mestre nem desmerece a sua capacidade de ação; ao contrário, a confirma; e exalta a qualidade dos fenômenos por ele produzidos.
Kardec examinou de modo geral os chamados "milagres", nos capítulos XIU e XIV de "A Gênese" e também os milagres do Evangelho, no capítulo XV.
Nas aulas que se seguirão, abordaremos os diferentes fenômenos espirituais realizados por Jesus, explicados e classificados conforme o conhecimento espírita.
Geralmente, era para prestar benefícios a necessitados. Ou, então, como "sinal" de sua missão (para os israelitas, fenômenos transcendentes eram "sinais" de que a pessoa estava investida de autoridade e poder espiritual, para falar e agir em nome de Deus, como seu enviado).
Também os fazia como recurso natural necessário ao cumprimento de sua tarefa missionária.
Exemplificando :
Prestação de benefício a necessitados.
Compadecido, "ressuscita" o filho único da viúva, em Naim (Lc. 7:11/17).
Transforma água em vinho, nas bodas de Caná da Galiléia, atendendo a solicitação de sua mãe (Jo 2: li).
À saída de Jericó, cura um cego, atendendo a seus rogos (Mc, 10:46/52).
Levita sobre as águas do lago para ir ter com os discípulos, no barco (Mt. 14:22/23).
Profetiza quem os discípulos encontrarão, à entrada de Jerusalém, para prepararem a páscoa (Lc. 9:28/31).
Cura leproso "para servir de testemunho ao povo" (Mc. 1:44).
Pedro diz em seu discurso, após fenômeno do Dia de Pentecostes:
Jesus, o Nazareno, homem aprovado por Deus diante de vós, com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos o sabeis (Atos. 2:22).
Muitas vezes Jesus foi convidado (e até mesmo desafiado) a realizar fenômenos para com eles atestar seu poder e autoridade espiritual.
Às vezes atendia, às vezes não; porque nunca efetuava fenômenos se fosse apenas para satisfazer curiosidade vã ou caprichos alheios.
Também não os realizava se as condições fossem desfavoráveis (falta de merecimento nas pessoas, exposição desnecessária ante os adversários).
Exemplificando:
Fariseus e saduceus, tentando-o, lhe pediam mostrasse um sinal vindo do céu.
Jesus argumentou : sabem, pelo aspecto do céu, dizer se fará bom ou mau tempo; como não podem discernir sobre os sinais dos tempos (espirituais)?
. Significava que podiam analisar a situação para entender. (Mt. 16:1/13).
E "arrancou do íntimo do seu espírito um gemido" :
"Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado senão o de Jonas" (Mt. 16:4/11, Mc. 8 :11/13). (Aludia ao fenômeno de sua ressurreição, ressurgimento espiritual, no 3° dia.)
Após expulsar os vendilhões do Templo, foi interrogado:
Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?
Destruam este santuário, e em três dias o reconstruirei.
Falava não do Templo mas do santuário do seu corpo(Jo. 2:18).
Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois há muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal (Lc. 23:8/9). E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia.
Em Nazaré, "não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles" (Mt. 13:58).
Irmãos de Jesus querem que ele deixe a Galiléia e vá para a Judéia e lá realize seus feitos, a fim de que todos o vejam e o conheçam. Diziam isso porque não acreditavam em Jesus. (Jo.7:1/9). Ele responde: "meu tempo não é chegado", e continua na Galiléia.
Quando Jesus realizou seu 1° fenômeno (transformação da água em vinho) "manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele" (Jo. 2:11).
Os populares, ante os fenômenos de Jesus, diziam:
Jamais vimos coisa assim Hoje vimos prodígios! (Mc. 2:12, Lc. 5:26.)
Quando vier o Cristo, fará, porventura, maiores sinais do que este homem tem feito? (Jo. 7:31.)
Os adversários procuravam encontrar, ainda, motivo de acusação.
Quando Jesus curou um cego de nascença, num sábado, disseram:
Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado.
Mas outras pessoas argumentaram:
Como pode um homem pecador fazer tamanhos sinais?(Jo. 9:16.)
Quando afastou de um homem o espírito que o deixava mudo e o homem voltou a falar, asseguraram:
Ele expele os demônios pelo poder de Belzebu, o maioral dos demônios.
Ao que Jesus respondeu:
Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo; e o seu reino não subsistirá. (Mt. 12:22/32, Mc. 3:20/30 e Lc.l1:14/23.)
Sobre os que não acreditaram em Jesus, "embora tivesse feito sinais na sua presença", João Evangelista explica que foi porque (Jo. 12:37/43): tinham endurecido seus corações; ou - tinham medo de serem expulsos da sinagoga ("amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus").
Os fenômenos podem ajudar na elaboração da fé, porque ensejam a observação da vida espiritual, constatando sua realidade, permitindo adquirir conhecimentos sobre ela.
Mas se não foram entendidos em suas causas e finalidades, poderão ficar reduzidos a efeitos meramente exteriores e passageiros.
Ex.: Uma cura física sem a renovação moral de quem foi curado nem a edificação dos que a presenciaram.
Mais importante do que presenciar fenômenos é saber entender a vida espiritual.
Por isso, a Tomé, que só se convenceu da imortalidade e ressurgimento de Jesus quando o viu materializado, o Mestre falou:
Por que me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram. (Jo. 20:29.)
Consideremos, também, que há encarnados e desencontrados querendo se fazer passar por porta-vozes divinos e, para isso, apresentam fenômenos (anímicos/mediúnicos) ou os imitam fraudulentamente, com o intuito de induzir ao erro, explorar e dominar as pessoas.
Jesus já nos havia alertado contra esses falsos profetas, avisando que eles surgiriam "operando grande sinais e prodígios para enganar, se possível fora, aos próprios eleitos" (Mt. 24:24).
Vendo os feitos admiráveis de Jesus, o povo judeu "dava graças a Deus que concedera tal poder aos homens ".
E com razão, pois foi Deus quem criou os seres com tais faculdades e, também, os recursos da vida universal (Mt. 9:8), sobre os quais os seres agem para produzir os fenômenos.
Aprendamos também a dar graças a Deus, quando alguém ou nós mesmos realizarmos feitos espirituais bons e admiráveis, porque, em última análise, o fazemos apenas como intermediários divinos.
"Aquele que crê em mim, fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai". (Jo. 14:12.)
Quem segue Jesus aprende com ele a agir espiritualmente; em conseqüência, produzirá fenômenos semelhantes; e poderá fazer coisas ainda maiores, porque Jesus ficou pouco tempo na Terra e só deu algumas demonstrações do que é possível fazer.
"E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho". (Jo. 14:13.)
E Jesus ainda lhes continuaria dando, do Além, assistência espiritual.
Observação: "Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; (Mc. 16:17/18); se impuserem as mãos sobre os enfermos, eles ficarão curados". Quem segue os ensinos de Jesus consegue autoridade moral e ação sobre os fluidos, podendo afastar maus espíritos e curar enfermos.
Mas as alusões a "serpentes" e "beber coisa mortífera" devem ser entendidas como simbolismo. Vide Lucas lo:17/20. Segundo manuscritos antigos, o Evangelho de Marcos terminava no versículo 8 do capítulo 16, mas a narrativa parecia estar interrompida abruptamente. Talvez se houvessem perdido os versículos finais e, para substituí-los foi escrito o fecho atual, que "apresenta-se como um breve resumo das aparições do Cristo ressuscitado", mas "cuja redação é sensivelmente diversa da que Marcos habitualmente usa, concreta e pitoresca. " Justamente nesse novo fecho, de versículos de 9 a 20, é que se fala dos "sinais" que tão estranhos soam no contexto da mensagem cristã.
"E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam". (Mc. 16:20.)
A narrativa detalhada do labor dos seguidores de Jesus, bem como dos sinais com que o Mundo Maior confirmava a missão espiritual deles, é feita por Lucas, em "Atos dos Apóstolos".
Aprendendo e servindo com Jesus, teremos sua assistência espiritual e também realizaremos fenômenos espirituais, embora não no mesmo grau dos que ele realizava.
Com a nossa evolução, chegaremos a realizar mais e melhor, produzindo "muitos frutos", glorificando assim ao nosso Criador, que nos criou exatamente para o cumprimento desses desígnios. (Jo: 14:8.)
Porém, por mais fenômenos que realizemos, e por mais admiráveis que sejam, não será por eles que nos categorizaremos como seguidores de Jesus e, sim, pelo amor com que agirmos, porque:
"Novo mandamento vos dou : que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei.
"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (Jo. 13:34/35.)
Estudos espíritas do Evangelho – EME Editora
Suely Caldas Schubert / Carlos Augusto Abranches
Feliz Natal! Natal se aproxima. Bem antes do tempo as vitrines enfeitadas convidam as pessoas a se lembrarem da época dos presentes.
Nesta fase aguda de crise é preciso recordar mais vivamente que o tempo do Natal esta chegando e é necessário provar aos parentes e amigos que pensamos neles.
Feliz Natal! Para muitos, esta pequena frase não se realiza tão facilmente quanto é pronunciada.
Cercado de presentes, diante de iguarias, o ser humano não está feliz.
Nele, vai uma emoção tocada de incompletude, como se algo ou alguém estivesse faltando.
Lá fora, na noite, noutras casas onde a luz escasseia e a mesa é pobre também se ouve: Feliz Natal! Lá e aqui a Noite Feliz parece não significar quase nada, a não ser o estranho paradoxo de se ter que aparentar felicidade porque assim é estabelecido. Afinal, o que se está comemorando? Um repórter, em movimentada avenida, perguntando aos transeuntes, que saem das lojas com embrulhos e sacolas, o que se comemora no dia 25 de dezembro, possivelmente obtivesse respostas variadas entre estas alguém se lembrasse de dizer que é a data do nascimento de Jesus.
Mas, por mais que se procure o aniversariante, Ele não é encontrado.
Não há qualquer sinal nas ruas e lojas.
A exata compreensão do Natal sugere uma averiguação histórica quanto a data do nascimento de Jesus. Os pesquisadores não são unânimes em afirmar que ocorreu em dezembro, porque, na história do Cristianismo primitivo, os primeiros cristãos não tinham o hábito de celebrar o Natal, por considerarem a comemoração um costume pagão.
As primeiras observações acerca do nascimento aparecem por volta do ano 200. 0 dia 25 de dezembro foi mencionado em 336, o que não impedia que em outras datas também ocorressem os festejos, como, por exemplo, no dia 06 de janeiro, ate hoje é mantido pelas igrejas ortodoxas Orientais.
Com o passar dos séculos, o Natal foi deixando de ser uma festa de cunho religioso e passou a ganhar novos contornos, originários de culturas anteriores ao Cristianismo. Na Inglaterra, durante a Idade Media, o Natal transformou-se no dia mais alegre do ano, mas como esse estado de alma não era muito compatível com o "espírito sombrio" da época, os puritanos que encaravam a festa como pagã proibiram-na no país.
No ocidente, a celebração do Natal, anteriormente ligada ao nascimento de Jesus, aos poucos foi sendo modificada. A figura do Papai Noel, o bom velhinho, tornou-se um atrativo maior para as crianças, logo também para os adultos. As festas natalinas assumiram um caráter notadamente comercial, onde se estimula o consumismo desenfreado sob o pretexto de que esta é a época de se presentear os amigos e parentes.
Com tudo isso, Jesus foi sendo gradualmente substituído, de motivo central da festividade a elemento secundário na preferência popular, que resolveu homenagear outros ídolos.
Ele porém, dissera com convicção - "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos o lugar". Ao fazer tal afirmação, o Cristo garantiu que há lugar para todos, que a Ele cabe preparar.
Mas, e Ele? Que lugar ocupa no mundo atual? Será um lugar específico? Numa escala de valores, está em primeiro lugar? A civilização ocidental rotulada como cristã, todavia, é muito difícil encontrarmos o Cristo no Cristianismo presente. Parece que os homens o baniram, substituindo-o por outros modelos de heróis, que na verdade, não expressam nenhum dos valores cristãos.
Cultuam-se ídolos que se sobressaem pela força de seus músculos, pela facilidade de manter grande número de pessoas, pelas conquistas amorosas, pela adoção deliberada de extravagantes atitudes eróticas para a venda milionária de discos e livros.
Longe está o modelo do herói cristão, que traz à memória as figuras de Gandhi, Albert Schweitzerer, Madre Tereza de Calcutá e alguns poucos mais.
Por isso o Natal se distancia cada vez mais do seu real significado. 0 aniversariante, por certo, não se importaria de ser presenteado. Um dia uma mulher pecadora rendeu-lhe homenagens perfumando os Seus pés com essência de nardo, diante dos fariseus estupefatos e dos apóstolos um tanto constrangidos. 0 Mestre aceitou a oferenda porque sabia da atitude que a impulsionava. Todavia, quão distante esse gesto de humildade, respeito e amor da comercialização desenfreada que ocorre em nossos dias! Onde está Jesus neste Natal? Ele nos prepara o lugar. E que lugar lhe damos em nossa vida? No momento em que nossa cultura comemora esta data, vale a pena guardar na memória e no sentimento uma certeza: essa região, que o Mestre prepara para nós, começa no território do coração, e só com muito trabalho e comprometimento com o amor genuíno é que ampliamos horizontes seguros de nossa paz.
Isto equivale dizer que o homem reconheceria, então, o lugar do Cristo como o legítimo Governador Espiritual da Terra.
Na verdade, o Natal não significa somente o nascimento de Jesus, em um dia específico, diante das datas do mundo, mas também o nascimento do Cristo na consciência renovada do Homem Integral, em qualquer dia, a qualquer hora.
É com essa visão que Carmem Cinira traduz, em poesia, a festa real de Jesus:
"Natal!... 0 mundo é todo um lar festivo...
Claros guizos no ar vibram em bando...
E Jesus continua procurando
A humilde manjedoura do amor vivo.
Natal! Eis a Divina Redenção!...
Regozija-te e canta, renovado,
Mas não negues ao Mestre desprezado
A estalagem do proprio coração".
Revista O Reformador Ano 110, Dezembro, 1992, Nº 1965.
Carlos Alexandre Fett
É final de ano. As famílias já começam os preparativos para as festas natalinas. Presentes são comprados, viagens marcadas, descanso na certa. É o chamado "espírito natalino" envolvendo a todos.
Mas, quase sempre não nos importamos com o verdadeiro sentido deste feriado, que é a comemoração do nascimento de Jesus.
Nossas crianças, bombardeadas pela mídia, acreditam que o Natal é refletido na figura do Papai Noel, o bom velhinho que presenteia a todos.
Prestemos atenção, mas praticamente inexiste a idéia de Jesus nestes dias. Poucos conversam com seus filhos sobre o que o Mestre tem a ver com as comemorações. O comércio explora a ansiedade de compra dos consumidores, mostrando que o que mais importa é correr atrás das melhores ofertas.
Isso tudo não é errado. Afinal, a tradição dos homens recomenda a troca de presentes neste período. Chegam até a dizer que isso é um simbologismo do que fizeram os reis magos quando do nascimento de Jesus, quando lhe ofertaram ouro, incenso e mirra.
Se fizermos tudo isso com o objetivo de agradar a quem gostamos, não há problema algum. Devemos fazê-lo com muita satisfação.
Mas acontece que para nós o Natal passa a ser só isso, e pronto.
Na noite natalina, comemos e bebemos muito. Nos divertimos, contamos histórias. Até que começamos a exagerar.
Passamos de uma noite de confraternização para um momento de angústia e libertinagem.
Muitos de nós, embebedados, acabamos por fazer atos impensados. Alguns colocam seus traumas para fora, levantam velhas discussões de família, aproveitam para denegrir a imagem de quem não está presente.
Corremos com nossos carros pelas estradas, cometemos desatinos, não pensamos nas conseqüências.
Tudo em nome da "festa do dia". Na verdade, agimos como se fosse apenas mais um feriado para desforrarmos nossa vontade de "agitar".
Em meio a tudo isso, Jesus continua como o Mestre esquecido.
Coisa de beato, de fanático, dirão alguns. Ficar pensando em religião em dia de festa!
Porém, acabamos por esquecer que a festa deveria, além da confraternização, da alimentação farta, ser um momento de reflexão sobre nossas vidas.
Será que esse homem, que dois mil anos depois de sua crucificação tem sua data de nascimento simbolizada neste dia, que fez com que seus ensinamentos fossem a base para as leis do ocidente, não tem razão no que pregava?
Um homem que apenas com três anos de vida pública, dos 30 aos 33 anos de idade, fez o mundo ser dividido em dois: antes e depois dele, não mereceria ser seguido com mais afinco por todos nós?
Se o que ele dizia não fosse verdade sobreviveria por tanto tempo?
O que temos feito baseados no que ele ensinou?
Temos vivido só para comer, beber, dormir, fazermos sexo, trabalhar e se divertir? Ou temos aproveitado a inteligência que o Pai altíssimo nos deu, e de quem Jesus tanto falava, para buscarmos ser mais úteis e sábios em nossas decisões?
O Natal deveria ter também esta conotação. Dizemos também, porque pedir que só reflitamos sobre a vida neste dia é pedir muito para homens tão apegados ao consumo como ainda somos. Mas, precisamos dar a devida consideração a Jesus neste dia festivo, colocando-o lado a lado com nossas expectativas.
Tomemos cuidado com os exageros nas festas. Sejamos alegres, não imprudentes. Aproveitemos a oportunidade para reatar amizades perdidas por orgulho, perdoar a falha alheia, entender a necessidade do próximo.
Enfim, sejamos cristãos neste dia maravilhoso, que comemora a passagem entre nós daquele que dizia que quem quisesse ser o maior, deveria servir, e não ser servido. Lembremos de sua mensagem e fiquemos felizes.
Com certeza, como dizia o próprio Jesus, onde estiverem dois ou mais reunidos em seu nome, ali estará ele. E a felicidade reinará, absoluta.
Chico Xavier
Perguntemos a Maria de Magdala, onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá:
- Jesus nasceu em Betânia. Foi certa vez, que a sua voz, tão cheia de pureza e santidade, despertou em mim a sensação de uma vida nova com a qual até então jamais sonhara.
Perguntemos a Francisco de Assis o que ele sabe sobre o nascimento de Jesus. Ele nos responderá:
- Ele nasceu no dia em que, na praça de Assis entreguei minha bolsa, minhas roupas e até meu nome para segui-lo incondicionalmente, pois sabia que somente ele é a fonte inesgotável de amor.
Perguntemos a Pedro quando deu o nascimento de Jesus, Ele nos responderá:
- Jesus nasceu no pátio do palácio de Caifas, na noite em que o galo cantou pela terceira vez, no momento em que eu o havia negado. Foi nesse instante que acordou minha consciência para a verdadeira vida.
Perguntemos a Paulo de Tarso, quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá:
- Jesus nasceu na Estrada de Damasco quando, envolvido por
intensa luz que me deixou cego, pude ver a figura nobre e serena que me perguntava:
Saulo, Saulo porque me persegue? E na cegueira passei a enxergar um mundo novo
quando eu lhe disse:
- Senhor, o que queres que eu faça?!
Perguntemos a Joana de Cusa onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá:
- Jesus nasceu no dia em que, amarrada ao poste do circo em
Roma, eu ouvi o povo gritar:
- Negue! Negue!
E o soldado com a tocha acesa dizendo:
- Este teu Cristo ensinou-lhe apenas a morrer?
Foi neste instante que, sentindo o fogo subir pelo meu corpo, pude com toda
certeza e sinceridade dizer:
- Não me ensinou só isso, Jesus ensinou-me também a amá-lo.
Perguntemos a Tomé onde e quando nasceu Jesus. Ele nos responderá:
- Jesus nasceu naquele dia inesquecível em que ele me pediu
para tocar as suas chagas e me foi dado testemunhar que a morte não tinha poder
sobre o filho de Deus. Só então compreendi o sentido de suas palavras:
- Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Perguntemos à mulher da Samaria o que ela sabe sobre o nascimento de Jesus. E ela nos responderá:
- Jesus nasceu junto à fonte de Jacob na tarde em que me pediu
de beber e me disse:
- Mulher eu posso te dar a água viva que sacia toda a sede, pois vem do amor
de Deus e santifica as criaturas.
Naquela tarde soube que Jesus era realmente um profeta de Deus e lhe pedi: -
Senhor, dá-me desta água.
Perguntemos a João Batista quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá:
- Jesus nasceu no instante em que, chegando ao rio Jordão,
pediu-me que o batizasse.
E ante a meiguice do seu olhar e a majestade da sua figura pude ouvir a mensagem
do Alto:
- "Este é o meu Filho Amado, no qual pus a minha complacência!
- Compreendi que chegara o momento de ele crescer e eu diminuir, para a glória
de Deus.
Perguntemos a Lázaro onde e quando nasceu Jesus? Ele nos responderá:
- Jesus nasceu em Betânia, na tarde em que visitou o meu túmulo
e disse: - Lázaro! Levanta.
Neste momento compreendi finalmente quem Ele era... A Ressurreição e a Vida!
Perguntemos a Judas Iscariotes quando se deu o nascimento de
Jesus. Ele nos responderá:
- Jesus nasceu no instante em que eu assistia ao seu julgamento e a sua condenação.
Compreendi que Jesus estava acima de todos os tesouros terrenos.
Perguntemos a Bezerra de Menezes o que ele sabe sobre o nascimento
de Jesus e ele nos responderá:
- Jesus nasceu no dia em que desci as escadas da Federação Espírita Brasileira
e um homem se aproximou dizendo:
- Vim devolver-lhe o abraço que me deste em nome de Maria, porque renovei minha
fé e a confiança em Deus.
Foi naquele instante que percebi a Sua misericórdia e o Seu imenso amor pelas
criaturas.
Perguntemos, finalmente, a Maria de Nazaré onde e quando nasceu
Jesus. E ela nos responderá:
-Jesus nasceu em Belém, sob as estrelas, que eram focos de luzes guiando os
pastores e suas ovelhas ao berço de palha. Foi quando o segurei em meus braços
pela primeira vez e senti se cumprir a promessa de um novo tempo através daquele
Menino que Deus enviara ao mundo, para ensinar aos homens a lei maior do amor.
Agora pensemos um pouquinho:
E para nós, quando Jesus nasceu?
Pensemos mais um pouquinho:
e se descobrirmos que ele não nasceu?
Então, procuremos urgentemente fazer com que ele nasça um dia destes, porque, quando isso acontecer, teremos finalmente entendido o Natal e verdadeiramente encontrado a luz.
Que Jesus nasça em nossos corações e que seja sempre Natal em nossas vidas, para que nunca nos falte a Esperança e a Alegria Cristã.
FELIZ ANO NOVO!!!!!!
É Jesus que vem de novo, falar ao coração do povo!!!
Waldehir Bezerra de Almeida
Jesus vem recebendo, ao longo da história, incontáveis nomes dos que o têm como modelo moral e espiritual. A partir daqueles que com ele viveram e dos que mais de perto receberam seus ensinamentos até os dias de hoje, tem-se buscado defini-lo com expressões ou cognomes que realce a sua grandeza como fiel mensageiro de Deus. Acima das definições que possamos dar-lhe, o mais importante é como o sentimos.
O apóstolo Pedro, inspirado, definiu a natureza de Jesus, revelando que ela era “o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 13, 16-17). Portanto, humano. Não obstante as informações constantes dos Sinóticos e do evangelho de João, ainda existem os que insistem em afirmar que Jesus é Deus. O próprio Mestre foi categórico e claro quanto à sua natureza. Abordado pelo moço rico que o chamou de “Bom”, retrucou: “Por que me chamas de bom? Ninguém é bom senão só Deus” (Mc 10,17-18), dirimindo, assim, qualquer dúvida quanto a Jesus e Deus serem identidades distintas. Nós, os espíritas, sabendo que Jesus não é Deus, mesmo assim temos dificuldade em compreendê-lo na sua plenitude e de assimilar os seus ensinamentos. Isto por ser Jesus um Espírito sublimado, cujo significado cósmico está acima da nossa mortal capacidade para apreender as coisas transcendentais. E por sermos incapazes de limitá-lo com um mero nome ou expressão definidora, é que o Senhor da Vinha vem recebendo através dos séculos incontáveis cognomes, refletindo tal procedimento a nossa ansiedade de melhor conhecer aquele que foi “o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo”. (LE, 625).
Caracteriza nosso estágio evolutivo essa impossibilidade de conceber e expressar as grandezas divinas. Santo Agostinho dizia saber quem era Deus, mas se lhe perguntassem quem era, ele não sabia responder. O que Santo Agostinho pretendia esclarecer é que não encontrava recurso vocabular e raciocínio à altura para definir o Criador, já que definir é limitar. E como limitar o infinito? O mesmo acontece conosco em relação a Jesus. Como titulá-lo, defini-lo, chamá-lo, pois se não foi um homem comum? A propósito, Joanna de Ângelis assegura que “Jesus é o mais notável Ser da Humanidade. A sua vida e a Sua Obra são as mais comentadas e discutidas dentre todas as que já passaram pela cultura e pela civilização através dos tempos.” E mais à frente o chama de Amigo Inconfundível e Terapeuta Excelente. [1]
Busquemos agora nos seus contemporâneos, naqueles que o amaram de perto, que tiveram a felicidade de seguir os passos do Cristo durante sua estadia na Terra e após sua volta à verdadeira vida, saber o que pensavam, sentiam e o como o descreveram.
MATEUS.
O autor do primeiro evangelho registra que Jesus foi chamado de Rei por oito vezes (2: 2; 21: 5; 25: 34 e 40; 27:11, 29, 37 e 42). Também reconhecido por onze vezes como Filho de Davi (1:1; 9:27...).
MARCOS.
Primo de Barnabé e companheiro de Simão Pedro, do qual ouvia as memórias evangélicas, diz que Jesus é aquele que “faz maravilhas” (6:2).
LUCAS.
O médico heleno, convertido por Paulo, acreditava que Jesus era o Filho do Homem e o Salvador dos perdidos (19:10).
Timóteo, “filho amado” de Paulo, denominou o Mestre de Juiz que julga os vivos e os mortos (2Tm 4:1), e Paulo, o apóstolo dos gentios, que Jesus era o Pacificador (Rm 5:1) e o Libertador (Gl 5:1).
JOÃO.
O apóstolo de Patmos foi quem mais epitetou Jesus, deixando clara a visão que dele tinha como ser histórico e cósmico. Sobre ele vamos dar a palavra à professora Marislei: “João, também chamado ‘o discípulo amado’, que repousou sobre o peito do mestre, ‘filho do trovão’ devido o seu temperamento impulsivo, dando ocasião a que Jesus o censurasse uma vez por ter proibido certo indivíduo de operar milagres, outra vez por ter desejado que viesse do céu castigo sobre os inóspitos samaritanos e mais tarde ‘o presbítero’, isto é, o velho (...) Esteve presente no calvário quando o Mestre entregou sua mãe aos seus cuidados (...) Fundou inúmeras igrejas em Éfeso (...) durante a perseguição de Domeciano foi desterrado para a ilha de Patmos...”.[2] Lá viveu seus últimos anos de vida.
João descreve Jesus de formas variadas. Citamos algumas: o Filho de Deus (1:14), o Mestre Divino (3: 2), o Grande Médico (5:1-9), Água da Vida (7: 37-38), a Luz do Mundo (9: 5), Rei (12:12), Mestre e Senhor (13:13)... Paramos aqui em respeito ao espaço que nos é concedido, convidando o leitor para a busca de mais títulos nos evangelhos.
ESPIRITISMO.
Para o Espírito de Verdade Jesus é o Guia e Modelo do Homem (LE, 625) - conforme já dissemos antes - e para Allan Kardec foi Espírito superior da ordem mais elevada, Messias, Espírito Puro, Enviado de Deus e, finalmente, Médium de Deus (GE, XV, item 2).
O Espírito André Luiz considera Jesus o Doutrinador Divino (Os Mensageiros, cap. 27) e Médico Divino (Missionários da Luz, cap. 18). Por sua vez, Emmanuel o denomina de Diretor angélico do orbe e Síntese do amor divino (O Consolador, 283 e 327), e Ramatis o chama de Sublime Peregrino em obra do mesmo nome.
E para você, caro leitor, quem é Jesus? Qual o seu conceito sobre ele? Como o sente?
Sem dúvida, os nomes nos ajudam. Temos necessidade deles como referências, são apoios psicológicos para a elaboração dos nossos pensamentos, mas não terão valor para nos aproximar do Bom Amigo. O que vai pesar mesmo para chegarmos mais perto do Cristo será a vivência dos seus ensinamentos, fundamentada na regra áurea que nos legou: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas.” (Mt 7,12).
Terminemos com um trecho da “Epístola a Jesus”, escrita pelo “Apóstolo de Matão”, falando da atemporalidade da palavra do Rabi da Galiléia: - “Tudo tem passado nestes dois mil anos, na Terra quanto no Céu – mas a tua Palavra brilha como um Sol sem ocaso, guiando as ovelhas tresmalhadas, os cordeiros perdidos do Rebanho de Israel à porta do aprisco, para restituí-los ao Bom Pastor”.[3]
Seja qual for o nome que te dermos Jesus, nossa esperança é que renasças em nossos corações todos os dias e não somente no Natal.
[1] FRANCO, Divaldo Pereira. Jesus e o evangelho: à luz da psicologia profunda. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. LEAL, Salvador – BA, p. 9.
[2] BRASILEIRO, Marislei de Souza Espíndula. Apresentação dos Evangelhos in “O Livro dos Evangelhos”. BRASILEIRO, Emídio Silva Falcão. Lúmen, São Paulo – SP, 2000, p. 23.
[3] SCHUTEL, Cairbar. Parábolas e ensinos de Jesus. 13. ed. O Clarim, São Paulo – Matão, 1993, p. s/n.
Francisco Cândido Xavier
- Chico, estão querendo separar a parte científica, filosófica e religiosa da Doutrina, dizendo que o Espiritismo não é religião, isto é, estão querendo tirar Jesus do Espiritismo. O que você acha de tudo isso?
A resposta não se fez esperar:
- Se tirarmos Jesus do Espiritismo, vira comédia. Se tirarmos Religião do Espiritismo, vira um negócio. A Doutrina Espírita é ciência, filosofia e religião. Se tirarmos a religião, o que é que fica?
A filosofia humana, embora seja uma conversa sem fim, tem ajudado a clarear o pensamento, mas não consola perante a dor de um filho morto.
A ciência humana, embora seja uma pergunta infindável, está aí em nome de Deus.
Antigamente tínhamos a varíola, mas Deus, inspirando a inteligência humana, nos deu a vacina e hoje a varíola está quase eliminada da face da terra.
Sofríamos com o problema da distância, mas a bondade divina, inspirando a cabeça dos cientistas, nos trouxe o motor. Hoje temos o barco, o carro, o avião suprimindo distâncias... o telefone aliviando ansiedades... a televisão colocou o mundo dentro de nossas casas...
Tínhamos medo da escuridão, mas a misericórdia divina nos enviou a lâmpada, através da criatividade humana.
A dor nos atormentava, mas a compaixão divina nos enviou a anestesia.
Há, porém, uma coisa em que a ciência não tem conseguido ajudar. Ela não tem conseguido eliminar o ódio do coração humano. Não há farmácias vendendo remédios contra o egoísmo, o orgulho, a vaidade, a inveja, o ciúme... Não podemos pedir misericórdia a um computador.
Jesus, porém, está na nossa vivência diária, porquanto em nossas dificuldades e provações, o primeiro nome de que nos lembramos, capaz de nos proporcionar alívio e reconforto, é JESUS.
De maneira que se tirarmos a religião do Espiritismo fica um corpo sem coração, se tirarmos a ciência fica um corpo sem cabeça e se tirarmos a filosofia fica um corpo sem membros.
(Entrevistas com Chico Xavier)
José Herculano Pires
O pensamento pedagógico, orientador dos processos educacionais superiores, resulta da reflexão sobre os problemas da educação. Jesus não era um educador no sentido comum da palavra. Não possuía, como homem, nenhum experiência educativa. Sua profissão era a do pai, segundo a tradição familiar: carpinteiro. Deixando de lado os problemas referentes à sua origem e natureza divinas e encarando humanamente os fatos poderíamos falar numa Pedagogia de Jesus?
A História nos mostra o aparecimento de gênios que superaram por si mesmos as deficiências de sua formação cultural e deram lições aos mestres qualificados. Esse é um capítulo que constitui verdadeiro mistério da Ontogênese, a ciência que trata da formação dos seres. Mas no Espiritismo o problema se esclarece facilmente com a lei da reencarnação. Esta lei nos explica que os espíritos se encarnam em diferentes graus de evolução, o que por sua vez explica as vocações que superam o meio cultural em que nascem certas criaturas e consequentemente resolve o problema da genialidade.
O que revela a existência de um pensamento pedagógico na orientação educacional dada por um mestre não são os seus títulos, são as coordenadas e a estrutura do seu ensino. Toda pedagogia se funda numa filosofia. No caso de Jesus a filosofia básica é a dos Evangelhos. Essa filosofia, que é a própria essência do Cristianismo, fornece a Jesus as diretrizes e dela resulta o reconhecimento, já largamente efetuado no plano pedagógico, de uma verdadeira Pedagogia de Jesus.
Francisco Arroyo, em sua monumental "História Geral da Pedagogia", sustenta o seguinte: "Com o Cristianismo aparece um novo tipo histórico de educação. –– Jesus é o modelo perfeito do mestre cristão. Clemente de Alexandria chama-o de Pedagogo da Humanidade". O mesmo autor nos fornece esta breve mas expressiva lista de obras a respeito: "Cristo como mestre e educador, de S. Raue, Berlim, 1902; "Didática de Cristo", Metzler, publicado em Kempton, 1908; "Jesus, educador de seus apóstolos", G. Delbrel, Paris, 1916".
Os historiadores da Educação e da Pedagogia, entre os quais Monroe, Hubert, Luzuriaga, Marrou, Riboulet, Messer, Bonatelli, todos reconhecem a existência de uma Pedagogia de Jesus que deu origem às várias formas da Pedagogia Cristã, nascida, como nota Arroyo, entre as formas pedagógicas da Humanitas latina e da Paidéia grega. Não se trata, pois, de uma novidade ou de um problema controverso, mas de assunto pacífico no campo pedagógico.
Os fundamentos pedagógicos do ensino de Jesus estão na sua concepção do mundo, abrangendo o homem e a vida. Essa cosmovisão se opõe à concepção pagã e à concepção judaica. Jesus, assim, não é apenas um reformador religioso, mas um filósofo na plena acepção da palavra. Ele modifica a visão antiga do mundo e essa modificação atinge a todas as filosofias do tempo, não obstante os pontos de concordância existentes com várias delas. Bastaria isso para nos mostrar, à luz da Ciência da Educação, a legitimidade da tese que inclui Jesus entre os grandes educadores e pedagogos, colocando-o mesmo à frente de todos. Não se trata de uma posição religiosa, mas de uma constatação científica.
A comparação entre a idéia de Deus do Velho Testamento e a idéia de Deus do Novo Testamento mostra-nos a diferença entre o mundo judeu e o mundo cristão. O Deus de Jesus é o pai de todas as criaturas, sem distinção de raças ou posições sociais. Essa paternidade universal determina a fraternidade universal. O Deus-Pai do Evangelho não é vingativo nem irado, não comanda exércitos para destruir povos e nações, mas ama a todos os seus filhos, quer a salvação de todos e a todos concede o seu perdão generoso. Como diria Paulo mais tarde, o tempo da lei e da força fora substituído pelo tempo da graça e do amor.
Os deuses olímpicos, cheios de paixões humanas, e os deuses brutais dos fenícios e dos babilônios, os deuses monstruosos dos egípcios, dos indianos e dos chineses são substituídos pelo Deus-amor e paternal do Evangelho. O próprio Jeová irascível dos judeus, ciumento e vingativo, perde o seu poder sobre o mundo. Os pobres, os doentes, os sofredores, os escravos deixam de ser os condenados dos deuses e passam à categoria de bem-aventurados. A virtude não está mais na bravura e no heroísmo sangrento de gregos e romanos, mas na paciência e no perdão. Dar é melhor do que conquistar, humilhar-se é melhor do que vangloriar-se, responder ao mal com o bem é a regra da verdadeira pureza espiritual . Os mortos não estão mortos, nem mergulhados nas entranhas da terra à espera do juízo final, mas estão mais vivos que os vivos.
Da velha lei judaica não é modificado um só ponto referente ao bom procedimento do homem da Terra, mas tudo o mais é substituído pelo contrário. O culto a Deus é virado pelo avesso: nada mais de sacrifícios materiais, de rituais simbólicos, de privilégios sacerdotais. O único sacrifício é o das más paixões, do orgulho, da arrogância, da cupidez. A vaidade e a ambição devem dar lugar à humildade e à renúncia. A ignomínia da cruz transforma-se em santificação. As pitonisas e os oráculos são substituídos pelas manifestações mediúnicas das reuniões evangélicas, como vemos em Paulo, I Coríntios.
O objetivo da vida humana não é mais a conquista do céu pelo violência, mas a implantação do Reino de Deus na Terra. As riquezas e o poder não são coisas desejáveis e invejáveis, mas fascinações perigosas que podem levar a criatura humana à perdição. As crianças não são desprezíveis, mas as preferidas de Deus, e para nos tornarmos dignos d'Ele temos de nos fazer crianças. Matar os pequeninos, os inocentes, os indefesos não é prova de valentia e de coragem, mas crime aos olhos de Deus.
Não se consegue a salvação pela obediência à lei e pelos rituais do culto (as obras da lei), mas pelo aperfeiçoamento do espírito, pela purificação do coração, pela educação integral da criatura. Por isso é preciso nascer de novo –– não em forma simbólica, mas naquele sentido que Nicodemos não podia compreender: nascer da água e do espírito (a água era o símbolo da matéria, do poder fecundante e gerador), nascer para se redimir, não da desobediência de Adão e Eva, mas dos seus próprios erros, como aconteceu ao cego de Jericó, como sucedera a Elias reencarnado em João Batista.
Desses princípios fundamentais resultava logicamente a Pedagogia da Esperança. A educação não era mais o ajustamento do ser aos moldes ditados pelos rabinos do Templo, a imposição de fora para dentro da moral farisaica, mas o despertar das criaturas para Deus através dos estímulos da palavra e do exemplo. A salvação pela graça não era um privilégio de alguns, mas o direito de todos. Jesus ensinava e exemplificava e seus discípulos faziam o mesmo. Chamava as crianças a si para abençoá-las e despertar-lhes, com palavras de amor, os sentimentos mais puros. Nem os apóstolos entenderam aquela atitude estranha: um rabi cheio da sabedoria da Torá perder tempo com as crianças ao invés de ensinar coisas graves aos homens. Mas Jesus lhes disse: "Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus".
Sua condição de mestre é afirmada por ele mesmo: "Vós me chamais mestre e senhor, e dizeis bem, porque eu o sou". Sim, ele é o mestre do Mundo, o senhor dos homens, de todos os homens, sem qualquer distinção. Cada criatura humana é para ele um educando, um aluno, como escreveu o Dr. Sérgio Valle: "matriculado na Escola da Terra". Assim, a Terra não é mais o paraíso dos privilegiados e o inferno dos condenados. É a grande escola em que todos aprendemos, em que todos nos educamos. A Pedagogia da Esperança oferece a todos a oportunidade de salvação, porque a salvação está na educação.
Vejamos este expressivo trecho de Francisco Arroyo em sua "História Geral da Pedagogia":
"Jesus possui todas as qualidades do educador perfeito. Os recursos pedagógicos de que se serve conduzem o educando, com feliz e profunda alegria, à verdade essencial dos seus ensinos. Por isso pode sacudir e despertar a consciência adormecida do seu próprio povo, asfixiado sob o peso excessivo da lei mosaica e da política imperialista da época".
"Os ensinos de Jesus são sempre adaptados aos ouvintes. Ele pronuncia as suas palavras de forma compreensível para todos, sempre nas ocasiões mais oportunas. Recorre freqüentemente às imagens e parábolas, dando maior plasticidade às suas idéias".
"A Pedagogia do mestre é também gradual. Não cai jamais em precipitações que possam fazer malograr o aprendizado. Semeia e espera que as sementes germinem e frutifiquem: Tenho ainda muito a vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora".
"Como todo educador genial, Jesus emprega em alto grau a arte de interrogar, de expor, de excitar o interesse dos discípulos. Seus colóquios decorrem sempre num ambiente de incomparável simpatia. É digno, severo, paciente, segundo as circunstâncias e os interlocutores".
Os seus ensinos são claros e intuitivos. Cria figuras literárias e busca exemplos da vida cotidiana para esclarecer o seu pensamento. Aperfeiçoou a forma da parábola e revestiu-a de incomparável esplendor" (Riboulet).
"Seus ensinos têm um toque de autoridade (Eu sou o caminho , a verdade e a vida, todo o poder me foi concedido). Mas exerce com suavidade a sua autoridade. Responde com bondade aos contraditores de boa fé e com energia aos que querem combatê-lo".
Este quadro da didática de Jesus (aplicação da sua pedagogia) mostra-nos as raízes da revolução pedagógica do Cristianismo. Costuma-se dizer, e com razão, que Rousseau produziu uma revolução copérnica na educação. Mas a seiva de toda a Pedagogia de Rousseau foi bebida na Pedagogia de Jesus. O "Emílio" começa por esta frase: "Tudo está certo ao sair das mãos do Criador". Os homens, para Rousseau, nascem bons e puros, pois Deus é bondade e pureza. Mas ao entrarem nas relações sociais do mundo sofrem a queda na maldade e na impureza. É o dogma judeu da queda de Adão e Eva racionalizado numa interpretação cristã. Para Jesus a criança é pura e boa, mas o contato com os homens vai deformá-la e os homens precisam voltar a ser crianças para entrar no Céu.
A descoberta copérnica da psicologia infantil por Rousseau corresponde à diferença estabelecida por Jesus entre a criança e o homem. A respeito de Rousseau pelo desenvolvimento natural e gradual da criança, que não deve ser perturbado por exigências prematuras do ensino, eqüivale à condenação de Jesus para todos aqueles que violentarem "um desses pequeninos". A educação natural de Rousseau, seguindo a graduação necessária do desenvolvimento psicológico e orgânico, lembra o respeito de Jesus pelas condições evolutivas do homem nos seus vários estágios, guardando os ensinos mais profundos para mais tarde. É o que Arroyo chama "o método agógico da Pedagogia de Jesus".
Uma comparação mais rigorosa e pormenorizada provaria de sobejo que é Jesus o pai e o verdadeiro inspirador da Pedagogia Moderna. Houve naturalmente o interregno do medievalismo, quando as interpretações errôneas do Cristianismo e as infiltrações de idéias judaicas e pagãs na escola cristã a deformaram. Mas essa fase já havia sido prevista pelo Mestre e esse fenômeno confirma o seu respeito pelas leis naturais da evolução humana. A parábola do grão de trigo, ensino dialético do processo histórico, é suficiente para demonstrar isso. A parábola do fermento que leveda a farinha é outra confirmação.
E dessas duas parábolas, reforçadas pela promessa do Espírito da Verdade, que seria enviado ao mundo para restabelecer os seus ensinos, ressalta que a Pedagogia Espírita é a própria ressurreição, no tempo devido e previsto no Evangelho, da Pedagogia de Jesus. A Educação Espírita que renasce em espírito e verdade.
FONTE: Pedagogia Espírita, Edição EDICEL.