Estudos com o "Expositor Espirita Capixaba"

José Marcelo Gonçalves Coelho, Medium Atuante na Sociedade de Estudos Espírita Irmão Tomé em Morada de Camburi - Vitória/ES, entre outras muitas atividades...

A ARTE ATRAVÉS DOS SONHOS


As questões 400 à 412, da primeira obra basilar do Espiritismo, nos oferecem interessantes apontamentos acerca deste tão conhecido estado de emancipação da alma denominado sono físico, bem como de seu principal resultado - o sonho.
Ressalte-se, inicialmente, que nem todos os sonhos de que nos recordamos representam uma vivência real nos campos da espiritualidade, razão pela qual, assim estatuiu a questão 405 de O Livro dos Espíritos: “...Não deveis esquecer que, durante o sono, a alma está constantemente sob influência da matéria, às vezes mais, às vezes menos, e, conseqüentemente, nunca se liberta completamente das idéias terrenas. Disso resulta que as preocupações enquanto acordados podem dar àquilo que se vê a aparência do que se deseja ou do que se teme. A isso é o que verdadeiramente pode se chamar efeito da imaginação.”
Entretanto, há momentos em que o ser humano se desliga ostensivamente de seu corpo físico, entrando em franca comunicação com o Plano Maior, de lá extraindo elementos preciosos para a concretização de determinados objetivos na Terra. Após esses momentos, poderá, então, ao despertar, lançar idéias inovadoras capazes de levar o progresso aos diversos setores da sociedade planetária. Assim se fará, inclusive, no tocante às manifestações artísticas.
Na obra intitulada Os Mensageiros, capítulo 16, André Luiz, sob psicografia de Francisco Cândido Xavier, nos traz valiosa contribuição para a temática em apreço.
Encontrava-se o autor espiritual em trânsito por determinado posto de socorro, ocasião em que, ao observar amplo salão daquela paragem, assim se expressou: “....Admirado, fixei as paredes, de onde pendiam quadros maravilhosos. Um deles, contudo, impunha-me especial atenção. Era uma tela enorme, representando o martírio de São Dinis, o Apóstolo das Gálias, rudemente supliciado nos primeiros tempos do Cristianismo, segundo meus humildes conhecimentos de História. Intrigado, recordei que vira, na Terra, um quadro absolutamente igual àquele. Não se tratava de um famoso trabalho de Bonnat, célebre pintor francês dos últimos tempos? A cópia do Posto de Socorro, todavia, era muito mais bela.”
Julgou André Luiz que a tela que observara naquela região espiritual seria uma simples reprodução da existente na Terra. Diante do seu equívoco, recebeu a seguinte explicação, por ele reproduzida: “Engana-se - elucidou o meu gentil interlocutor - nem todos os quadros, como nem todas as grandes composições artísticas, são originárias da Terra. (...)Temos aqui a história real dessa tela magnífica. Foi idealizada e executada por nobre artista cristão, numa cidade espiritual ligada à França. Em fins do século passado, embora estivesse retido no círculo carnal, o grande pintor de Bayonne visitou essa colônia em noite de excelsa inspiração, que ele, humanamente, poderia classificar de maravilhoso sonho. Desde o minuto em que viu a tela, Florentino Bonnat não descansou enquanto não a reproduziu, palidamente, em desenho que ficou célebre no mundo inteiro”.
Tratava-se, na verdade, do notável pintor francês Leon-Joseph-Florentin Bonnat (1833-1922), que, dotado de aguçada espiritualidade e sensibilidade artística, o que se percebe em todas as suas obras, aproveitou-se de diversas noites de sono para reproduzir, entre nós, a obra em que se inspirara no além. Trabalho verdadeiramente exaustivo, já que foram necessários mais de dez anos para sua conclusão (1874-1885).
A “cópia” de Bonnat, de grandes dimensões, hoje faz parte do acervo do Panteão de Paris.
Como vemos, nossas noites podem ser perfeitamente aproveitadas para o exercício das mais nobres tarefas. Todavia, infelizmente, conforme nos afirma o instrutor Gúbio, em alerta reproduzido por André Luiz, em sua obra Libertação, pg. 80, psicografia de Chico Xavier, “...a maior porcentagem desses semilibertos do corpo, pela influência natural do sono, permanecem nos círculos de baixa vibração.”
Por fim, no que pesem nossas inclinações negativas, esforcemo-nos, doravante, no sentido de transformarmos as horas de sono em efetivas oportunidades de progresso espiritual, ressaltando-se que os nossos sonhos, conforme se tem comprovado, são os reflexos de nossas mais íntimas aspirações.

Bibliografia: Kardec, Allan; O Livro dos Espíritos, cap. 8, questões 400 à 412.
Luiz, André/Chico Xavier, Os Mensageiros, capítulo 16
Luiz, André/Chico Xavier, Libertação, pg. 80
Anexos: Fotos de Leon Bonnat e sua obra O Martírio de São Dinis

Leon-Joseph-Florentin Bonnat
(1833-1922)

“O MARTÍRIO DE SÃO DINIS
(ou DIONÍSIO)” - 1874-1885

 

CARIDADE INTEGRAL



À questão 893, de O Livro dos Espíritos, Kardec indagava aos luminares espirituais qual seria a mais meritória das virtudes; ao que os espíritos responderam ser aquela que nasce da mais desinteressada caridade.
Habitualmente, quando falamos em caridade, pensamos em assistência material, muito embora não seja somente esse o seu significado, como veremos. E ao falarmos em caridade material, lembramo-nos de sua mais elementar manifestação, que é a esmola, que, a propósito, foi alvo da questão 888, daquela mesma obra, em que Kardec assim questionava:

Que se deve pensar da esmola?
“Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na justiça deve prover a vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa-vontade de alguns.”

Diante de tão incisiva resposta, o Codificador acrescentava (888-a):

Dar-se-á reproveis a esmola?
“Não; o que merece reprovação não é a esmola, mas a maneira por que habitualmente é dada. O homem de bem, que compreende a caridade de acordo com Jesus, vai ao encontro do desgraçado, sem esperar que este lhe estenda a mão.

E complementam:

“... Nem sempre o mais necessitado é o que pede. O temor de uma humilhação detém o verdadeiro pobre, que muita vez sofre sem se queixar. A esse é que o homem verdadeiramente humano sabe ir procurar, sem ostentação”.

Uma vez, então, indo ao encontro daquele que necessita “sem que haja para ele humilhação”, por que meio podemos avaliar se estamos de fato praticando uma caridade satisfatória?
Na passagem evangélica intitulada “A oferta da viúva pobre” (Mc 12: 41 a 44), já exaustivamente estudada, Jesus nos demonstrou que a importância da caridade material não se avalia pela quantia que se dá, mas, sim, pelo sentimento de desprendimento com que se dá - pode-se dar muito ou pouco, com muito ou pouco amor.
Entretanto, importa ressaltar que a distribuição indiscriminada de recursos nem sempre resulta na prática da caridade responsável.

A esse respeito, Kardec, à questão 896, também da primeira obra basilar, indagava:

“Há pessoas desinteressadas, mas sem discernimento, que prodigalizam seus haveres sem utilidade real, por lhes não saberem dar emprego criterioso. Têm algum merecimento essas pessoas?”

Tendo obtido a seguinte elucidação:

“Têm o do desinteresse, porém não o do bem que poderiam fazer. O desinteresse é uma virtude, mas a prodigalidade irrefletida constitui sempre, pelo menos, falta de juízo. A riqueza, assim como não é dada a uns para ser aferrolhada num cofre forte, também não o é a outros para ser dispersada ao vento. Representa um depósito de que uns e outros terão de prestar contas, porque terão de responder por todo o bem que podiam fazer e não fizeram, por todas as lágrimas que podiam ter estancado com o dinheiro que deram aos que dele não precisavam.”

Por extensão de raciocínio, se, em sã consciência, entregarmos certo recurso financeiro nas mãos de quem dele se utilizará de maneira irresponsável, para alimentar vícios ou excessos de qualquer ordem, certamente estaremos contribuindo para a queda de alguém; e contribuir para a queda de alguém jamais será considerado um ato de caridade.
Por outro lado, sem reduzir em momento algum a importância da caridade material, os Espíritos, à questão 886, novamente da primeira obra básica, nos afirmam, peremptoriamente, que o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus, se traduz por “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias e perdão das ofensas”. Eis aí a caridade moral, que também deve ser exercida sempre que possível, mas, também, mediante certas precauções.
Oportunamente, recordamo-nos de um episódio relatado pelo Espírito André Luiz, no capítulo 31, de sua obra intitulada Nosso Lar, psicografada por Chico Xavier, em que a questão da responsabilidade no exercício da caridade nos foi exemplificada de modo bastante significativo.
Encontravam-se André Luiz e Narcisa em Nosso Lar, quando uma figura de mulher se aproxima de um dos acessos daquela colônia implorando por socorro, em lamentável condição espiritual. Imediatamente o Vigilante-Chefe é convocado, e, ao examinar atentamente a recém-chegada das regiões umbralinas, afirma que, naquele momento, a triste criatura não poderia receber o socorro desejado. Confessando-se escandalizado, como muito provavelmente nós mesmos nos mostraríamos, André Luiz indaga se não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora à própria sorte; ao que o responsável pela segurança aduz que assim agira por haver detectado cinqüenta e oito pontos escuros que maculavam o perispírito daquela entidade, e que correspondiam a exatamente cinqüenta e oito crianças por ela assassinadas ao nascerem, umas por golpes esmagadores, outras por asfixia.
Ao ser cientificada sobre o motivo que lhe impedia a entrada, a desafortunada criatura, antes aparentemente humilde, toma-se de cólera, passando a dirigir palavras extremamente agressivas ao seu interlocutor, demonstrando o seu verdadeiro estado de espírito.
Dando curso à valiosa lição, o Vigilante-Chefe afirma que, caso a infeliz entidade lograsse acesso àquela paragem de refazimento, certamente levaria extrema desarmonia a todos quantos ali se encontravam. E concluiu asseverando: “...a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina, mas, por princípio de caridade legítima, na posição em que me encontro, não lhe poderia abrir nossas portas.” (grifei)
Percebemos, pelo exposto, que, muitas vezes, a caridade se cumpre de maneira efetiva quando dizemos não, pois que, assim, estaremos propiciando àquele que erra, uma oportunidade para que, através do tempo e do esforço íntimo, possa avaliar toda a amplitude das conseqüências de seus atos.
A realidade é que a vida nos acena constantemente com as mais variadas possibilidades de atuação no campo da caridade.
Assim, ela estará presente no amparo material, através do pão que alimenta; da água que mata a sede; do abrigo que acolhe; do agasalho que ameniza o frio ou do recurso financeiro que suaviza a penúria-é a caridade material.
Senti-la-emos sendo elaborada na intimidade do ser, através das ondas mentais que emitirmos sob a forma do perdão silencioso que enobrece; da prece íntima que revigora ou do amor verdadeiro que liberta; são atitudes mentais salutares que, em primeiro lugar, nos favorecem, e, lançadas no espaço, certamente beneficiarão todos a quem se dirijam, encarnados ou desencarnados-é a caridade mental.
Far-se-á vibrante através das palavras que enunciemos; muitas são as tragédias íntimas e coletivas que a cada dia podemos evitar pela palavra que, quando sábia, orienta e edifica; quando suave, sufoca o pranto; quando indulgente, atenua a culpa; quando consoladora, dissipa o sofrimento; quando plena de amor, rompe o ódio ou quando em forma de oração, nos aproxima de Deus-é a caridade verbal.
Mas se pela palavra somos caridosos, também o podemos ser quando silenciamos ante uma ofensa desatada pelo desequilíbrio ou emudecemos para ouvir um desabafo de quem por tantas vezes não encontrou quem o fizesse-é a caridade passiva.
E, por estarmos encarnados, nosso corpo também se servirá à fraternidade, através do amplexo comovido que transfunde energia; do afago paternal que envolve uma criança; de um beijo carinhoso que aproxima as almas ou de um simples aperto de mão que faz brotar o sorriso num rosto antes amargurado-é a caridade gestual.
E se Deus nos concedeu, em qualquer grau ou modalidade, a ferramenta da mediunidade, como recurso precioso de auxílio a encarnados e desencarnados, estaremos aptos a praticar a solidariedade através das faculdades mediúnicas de que dispusermos-é a caridade mediúnica.
Só nos resta, então, porfiar nos caminhos que nos levam à eliminação lenta e gradual do orgulho e do egoísmo, o que somente se fará possível através da prática da caridade, em suas múltiplas e divinas manifestações, pois que, fora dela, conforme estatui a máxima eternizada pelo Espiritismo, não há salvação; salvação essa que representa para nós, espíritas, a inevitável purificação espiritual - única finalidade de nossas sucessivas existências.

José Marcelo Gonçalves Coelho
josemarcelo.coelho@bol.com.br

Referência bibliográficas:
1)O Livro dos Espíritos-Edição FEB (questões 886, 888, 893 e 896)
2)Novo Testamento-(Evangelho de Marcos, cap. 12, v. 41 a 44)
Tradução: João Ferrreira de Almeida

 

 

CRIANÇAS DO ALÉM

 

Sempre nos despertou grande curiosidade a sorte das crianças após a “morte”, bem como a possibilidade de intercâmbio com aqueles que tenham se despojado prematuramente de suas roupagens carnais.
Iniciando nossa explanação a res­peito do tema, citemos a questão 381, de O Livro dos Espíritos, em que Kardec assim indagava:
Por morte da criança, readquire o Espírito, imediatamente, o seu precedente vigor?
Ao que responderam os Espíritos:

“Assim tem que ser, pois que se vê desembaraçado de seu invólucro corporal. Entretanto, não readquire a anterior lucidez, senão quando se tenha completamente separado daquele envoltório, isto é, quando mais nenhum laço exista entre ele e o corpo.”

Ocorre que esse desligamento será tanto mais rápido quanto mais elevado for o grau evolutivo do Espírito em questão. Vejamos alguns exemplos:
Na quarta obra basilar da Codifica­cão, O Céu e O Inferno, publicada pela primeira vez em 1865, temos, pre­cisamente na segunda parte, capítulo VIII, a oportunidade de analisar uma comunicação de alto teor filosófico, que revela a rápida emancipação do Espírito Marcel, desencarnado alguns meses antes, aproximadamente aos oito anos de idade, após atrozes sofrimentos que ele havia superado de maneira exemplar.
Anos mais tarde, já no Brasil, um triste episódio marcaria sensivelmente a vida do casal Francisco e Terezinha Cruañes.
Foi em tarde ensolarada, numa fazenda do interior de São Paulo, quando a pequena Fernanda Cruañes, de apenas quatro anos de idade, caía do trator em que se encontrava, vindo a desencarnar em 08 de agosto de 1981. Menos de doze meses após o ocorrido, exatamente em 30 de julho de 1982, Fernanda se manifestava atra­vés da mediuni­dade segura de Francisco Cân­dido Xavier, em comunicação reproduzida na obra Estamos no Além, solici­tando aos seus pais que não se entregassem tanto ao desespero, como freqüentemente vinham fazendo, posto que todas aquelas sensações de sofrimento lhe eram integral­mente transmitidas. Declarava, ainda, que sua avó Jenny, também desencarnada, conduzia-lhe as mãos durante a comunicação, pois que ela se ressentia da dificuldade de “não saber escrever”, revelando um condicionamento psíquico comu­mente observado na maioria dos espíritos precocemente desencar­nados, sem prejuízo, porém, da consistência de sua mensagem, que acusava uma situação evolutiva satisfatória.
Também pode se dar, ainda que ra­ramente, encontrarmos “crianças” em funções espirituais de grande relevância, conforme relatado por Rafael Ranieri em sua obra Materializações Lumi­nosas, em que ele discorre sobre di­versas reuniões de materialização de espíritos em que tomou parte, inclusive com a pre­sença de Chico Xavier.
Naquelas memoráveis sessões, o Espírito Araci, Guia Espiritual do conceituado médium Francisco Peixoto Lins (Peixotinho), tangibilizava-se sob a aparência de uma criança de aproximadamente três anos de idade. Assim também, para sua surpresa e satisfação, descobre que a dirigente espiritual daqueles trabalhos de alta importância era exatamente sua filha Heleninha, desencarnada quando contava apenas um ano e oito meses. Por vezes, ela se apresentava na forma infantil; noutras ocasiões, mostrava-se sob aparência adotada em encarnação pregressa, demonstrando grande domínio sobre seu perispirito.
Informações igualmente preciosas nos deu André Luiz, em sua obra inti­tulada Entre a Terra e o Céu, psico­grafada por Francisco Cândido Xavier.
Conta-nos ele que, em determinado momento no plano espiritual, passa a ouvir uma suave me­lodia; ao se aproximar, percebe que a música era entoada por um coro de crianças felizes e sorridentes, em meio a paisagens de rara beleza. Ele se en­contrava no Lar da Bênção - um misto de escola de preparação para a maternidade e abrigo para espíritos que haviam desencarnado na infância. Al­guns deles, naquele exato momento, recebiam a visita de suas mães, ainda encarnadas, que para lá se deslocavam por ocasião do sono físico. André Luiz, então, fascinado com o que via, questiona se haveria ali cursos primários de alfabetização; ao que a diri­gente daquele educandário responde afirmativamente, pois que se tratava de um verdadeiro estabelecimento de ensino no além, que abrigava, à época, cerca de dois mil espíritos desencarnados em tenra idade, que lá per­maneciam até reunir condições para retornar ao plano fisico, o que se dava, na maioria das vezes, antes que o Es­pírito retomasse sua compleição adulta.
Surge, então, a instigante questão do “crescimento das crianças no plano espiritual”, que estará intimamente atrelada à retomada de consciência por parte do Espírito desencarnado, o que lhe permitirá plasmar as modificações necessárias em seu corpo fluídico.
Exemplo disso encontramos novamente na obra Estamos no Além, através do relato mediúnico de Sandra Regina Camargo. desencarnada aos nove anos de idade, após ter padecido durante três anos em virtude de pertinaz leucemia. Menos de quatro anos após seu desencarne, na noite de 17 de ja­neiro de 1981, ela se comunicaria com seus entes queridos, através de Chico Xavier, declarando: “ saibam também que cresci. Isso aconteceu na medida de meu desejo de me fazer pessoa grande...”.
Assim também se deu com Upton, desencarnado com apenas três meses de vida. Em carta psicografada por Chico Xavier, e publicada na obra Reencontros, demonstrava ter recobrado sua maturidade espiritual em poucos anos de regresso à Vida Maior.
Há, portanto, espíritos que, tendo desencarnado na infância, em retorno ao plano espiritual reassumem em curtissimo prazo a forma adulta que tinham antes de reencarnar, ou, ainda, outra apresentação perispiritual que lhes convenha, sempre de acordo com suas potencialidades anímicas.
Entretanto, o Espírito André Luiz, ainda na obra Entre a Terra e o Céu, nos afirma que essas são exceções, pois que a maioria dos seres que estagiam no planeta Terra necessitam de longo espaço de tempo e total amparo da Espiritualidade para se desvencilharern dos impositivos da forma infantil, a que se encontram mentalmente fixados. Ademais, são em grande número aqueles que, ao desencarnarem precocemente, adentram o plano espi­ritual em extremo desequilíbrio, razão pela qual são recolhidos em alas isoladas, com o fito de receberem cuidados especiais.
Certamente que a temática não se esgota neste breve estudo, todavia, desde já podemos concluir, mais uma vez, que o Espiritismo é, irrefutavelmente, o Con­solador prometido por Jesus, por nos brindar com a realidade da sobrevi­vência da alma, notadamente em relação àqueles que retornaram às esferas espirituais quando ainda ensaia­vam seus primeiros passos no mundo.

José Marcelo Gonçalves Coelho
josemarcelo.coelho@bol.com.br

Bibiografia:
Kardec, Allan: O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76 ª edição.
Kardec, Allan: O Céu e o Inferno, Segunda Parte, cap. VIII, Editora FEB, 76ª edição.
Ranieri, Rafael R.: Materializações Luminosas, cap. IX, XIII e XXVI, Edições FEESP, 1989.
Xavier, Francisco Cândido (Espíritos di­versas); Estamos do Além-Instituto de Difusão
Espírita, cap. 2 e 10, 1986.
Xavier, Francisco Cândido (Espíritos diversos): Reencontros-Instituto de Di­fusão Espírita, cap. 10,1987.
Xavier, Francisco Cândido (André Luiz): Evolução em Dois Mundos, Segunda Parte, cap. IV, FEB, 1991.
Xavier, Francisco Cândido (André Luiz): Entre a Terra e o Céu, cap. X e XI, FEB, 1991.

 

 

EPIDEMIA DE OBSESSÃO


Em março do ano de 1857, a comuna de Morzine, situada na Alta Sabóia, leste da França, com aproximadamente 2.500 habitantes, encontrava-se, segundo os noticiários da época, sob a influência de uma desconhecida epidemia, que iniciava sua escalada.
Em novembro, daquele mesmo ano, os atingidos já totalizavam vinte e sete; em 1861, alcançava o máximo de cento e vinte.
Demonstrando intensa preocupação com a patologia, o governo francês designou um certo Dr. Constant, para que desenvolvesse criteriosa investigação sob os rigores da ciência médica.
Durante alguns meses o pesquisador teve o ensejo de presenciar diversas crises que periodicamente acometiam os pacientes - meninas, em sua grande maioria - tendo elaborado farto relatório, cujos trechos mais significativos transcrevemos:

“Em meio a mais completa calma, raramente à noite, de repente sobrevêm bocejos, espreguiçamentos, tremores, pequenos solavancos nos braços; pouco a pouco, em curto espaço de tempo, como por efeito de descargas sucessivas”
“Elas batem nos móveis com força e vivacidade, começam a falar, ou antes a vociferar”.
“No estado de crise as moças têm uma força desproporcional à idade, pois são precisos três ou quatro homens para conter, durante a mesma, meninas de dez anos”.
“Sabemos que deram respostas exatas a perguntas feitas em línguas por elas desconhecidas”.
“Durante a crise, o caráter dominante destes momentos terríveis é o ódio a Deus e a tudo a que a ele se refere (...) após, as meninas não têm qualquer lembrança do que disseram ou fizeram...”.

Sob a ótica espírita, certamente não hesitaríamos em identificar, nos relatos acima, claras evidências de um legítimo enredo obsessivo; no entanto, assim concluiu o Dr. Constant:

“Tudo o que se viu em Morzine, sobretudo aquilo que se conta, poderá parecer para certas pessoas um sinal manifesto de uma possessão demoníaca, mas é, muito certamente, o de uma moléstia complexa que recebeu o nome de histero-demoniomania”(grifei).

Tratar-se-ia, segundo o diagnóstico proposto, de uma intrigante histeria coletiva, agravada pela fixação na figura demoníaca.
Em função da impotência da terapêutica médica convencional para solução da insólita problemática, julgou-se conveniente recorrer aos tradicionais procedimentos de expulsão demoníaca, a cargo das autoridades religiosas.
Pensaram, então, em reunir na Igreja local todos os “doentes” de Morzine, com vistas a implementar um exorcismo coletivo. Todavia, para desespero dos sacerdotes ali presentes, todas as jovens entraram em crise ostensiva simultaneamente, derrubando e quebrando o mobiliário do templo, lançando-se ao chão entre homens e crianças que, em vão, tentavam contê-las.
Em vista da desastrada experiência, optou-se, a partir de então, por se implementar o exorcismo a domicílio, a qualquer hora do dia ou da noite, o que também não surtiu melhores efeitos.
À época, a Doutrina Espírita já se apresentava ao mundo, principalmente através de suas duas primeiras obras basilares, O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, suficientes para a elucidação da estranha epidemia que atingia os moradores do modesto vilarejo. Entretanto, o interessante fenômeno coletivo fez com que Kardec solicitasse orientação específica ao Espírito São Luiz, que assim se expressou:


“Os possessos de Morzine estão realmente sob a influência dos maus Espíritos, atraídos para aquela região por causas que conhecereis um dia, ou melhor, que vós mesmos reconhecereis um dia. O conhecimento do Espiritismo ali fará predominar a boa influência sobre a má fé, isto é, os Espíritos curadores e consoladores, atraídos pelos fluidos simpáticos, substituirão a maligna e cruel influência que desola aquela população. O Espiritismo está chamado a prestar grandes serviços: será o curador dos males cuja causa era antes desconhecida e ante às quais a ciência continua impotente; sondará as chagas mortais e lhes ministrará o bálsamo reparador; tornando os homens melhores, deles afastará os maus Espíritos, atraídos pelos vícios da humanidade. “Se todos os homens fossem bons, os maus Espíritos deles se afastariam porque não poderiam os induzir ao mal (...)”(grifei).


Transportando os acontecimentos desencadeados em Morzine para a nossa realidade, percebemos o quanto eles se mostram atuais, pois que, hoje, uma verdadeira epidemia de obsessão assola a humanidade terrestre, que se curva extremamente passiva ante as sugestões do mal, oferecendo franco repasto às Inteligências umbralinas que sobrecarregam a psicosfera do planeta.
Também oportuna a citação de Kardec, eternizada no Capítulo XIV, item 45, da quinta obra basilar, A Gênese, em que ele, corroborando a afirmação de São Luiz, deduziu:


“Pululam em torno da Terra os maus Espíritos, em conseqüência da inferioridade moral de seus habitantes”.


Urge, portanto, que, diante de tão elucidativas afirmações pertinentes à temática da obsessão, nos abstenhamos de responsabilizar os Espíritos momentaneamente imersos nas sombras por todos os dissabores e infortúnios que nos visitam a existência, reconhecendo que processo obsessivo é fenômeno de sintonia, sobretudo mental, em que ondas semelhantes se entrelaçam, fazendo com que os afins se atraiam, ainda que circunstancialmente.
Dispostos, enfim, ao entendimento ampliado que a Doutrina Espírita nos permite alcançar, conscientizemo-nos da realidade de que somente nos faremos imunes a todo o mal que nos circunda, quando houvermos debelado todo o mal que nos habita. Assim procedendo, certamente estaremos nos dedicando à única terapia de fato libertadora ao nosso alcance, que se denomina...Reforma Íntima.

José Marcelo Gonçalves Coelho
josemarcelo.coelho@bol.com.br


Referências bibliográficas:
Kardec, Allan, A Gênese, capítulo XIV, item 45.
Kardec, Allan, Revista Espírita (ano 1862-nº de abril e dezembro; ano 1863-nº de janeiro, fevereiro, abril e maio)

 

MÚSICA E ESPIRITISMO


Muitos questionamentos têm sido aventados quanto à pertinência ou não do uso da música em reuniões espíritas, públicas ou mesmo mediúnicas. Alega-se, muito freqüentemente, se não estaríamos incidindo em práticas ritualísticas comuns a outras correntes religiosas.
Preliminarmente, recorramos à questão 251, de O Livro dos Espíritos, na qual se faz referência aos encantos da música celeste, praticada nas esferas espirituais elevadas, como sendo “tudo o que de mais belo e delicado pode a imaginação espiritual conceber”.
Em Obras Póstumas, Segunda Parte, temos o relato de uma jovem musicista, que, conduzida pelos protetores espirituais em estado sonambúlico, mergulha em intenso êxtase, ao sentir a magnífica harmonia celestial.
Alguns anos após, o Espírito André Luiz, em sua obra intitulada Nosso Lar, psicografada por Francisco Cândido Xavier, viria nos oferecer fortes subsídios que confirmariam a imprescindibilidade da música nas atividades desenvolvidas no plano espiritual, principalmente às páginas 67 e 68, onde deparamos com decisiva elucidação acerca da temática ora abordada; vejamos:

”Em plena via pública, ouviam-se, tal qual observara à saída, belas melodias atravessando o ar. Notando-me a expressão indagadora, Lísias explicou fraternalmente: Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham os habitantes de "Nosso Lar". Após consecutivas observações, reconheceu a Governadoria que a música intensifica o rendimento do serviço, em todos os setores de esforço construtivo. Desde então, ninguém trabalha em “Nosso Lar” sem esse estímulo de alegria”.

No capítulo 45, daquela mesma obra, o autor espiritual discorre sobre as atividades no “Campo da Música”, aprazível localidade destinada aos mais interessantes exercícios musicais, onde, inclusive, teve a grata oportunidade de maravilhar-se com um belíssimo hino, cantado por duas mil vozes simultâneas.
Ressalte-se, oportunamente, que o Espiritismo há de concorrer decisivamente para o processo de sublimação da música no planeta em que vivemos, como conseqüência de sua salutar influência na reforma moral dos homens. A propósito, transcrevemos uma interessante orientação, inserida em Obras Póstumas, também na Segunda Parte, na qual o Espírito Rossini, que na Terra foi conhecido compositor lírico italiano, fala-nos sobre a ação que a Doutrina Espírita certamente terá como elemento refinador das composições musicais, tendo assim se expressado:

“O Espiritismo, moralizando os homens, exercerá, pois, grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão suas virtudes através de suas composições.(...) Por outro lado, os ouvintes que o Espiritismo preparar para receber mais facilmente a harmonia, sentirão verdadeiro encantamento ao ouvir a música séria; desprezarão a música frívola e licenciosa, que seduz as massas”.
Plenamente justificada, então, a utilização da música, em qualquer de suas manifestações, desde que consonante com os objetivos superiores a que nos dediquemos, notadamente no ambiente espírita, guardando-se a devida cautela na seleção das melodias a serem entoadas, de modo a conduzir encarnados e desencarnados a um clima mental satisfatório.
Por extensão, a música far-se-á poderoso e legítimo coadjuvante na condução dos ensinamentos espíritas, seja nas tarefas de evangelização da infância e da juventude; nas preliminares ou encerramento de reuniões públicas e mediúnicas, ou em quaisquer outras ocasiões em que a Doutrina Espírita se apresente.
Deixemo-nos levar, portanto, pelas melodias edificantes que o mundo nos ofereça, ou que as nossas vozes ou instrumentos possam produzir, reconhecendo que, onde quer que se situe, a música, desde que sublime, é prece que enleva e enobrece o espírito eterno que todos somos, permitindo-nos entrar em estreita comunhão com os planos superiores da expressão espiritual.

José Marcelo Gonçalves Coelho
josemarcelo.coelho@bol.com.br

Referências bibliográficas:

XAVIER, Francisco Cândido
Nosso Lar, Editora FEB-Espírito André Luiz

KARDEC, Allan
O Livro dos Espíritos-Editora FEB
Obras Póstumas-Editora FEB


O PENSAMENTO


Diferentemente dos orientais, nós, os representantes da chamada civilização ocidental, dificilmente nos dedicamos a aprofundamentos em torno das imensas potencialidades mentais de que dispomos.
A ciência acadêmica, materialista por excelência, estabelece que o pensamento é um fenômeno meramente fisiológico, decorrente da incessante atividade neuronial.
Em tempos idos, acreditávamos que os pensamentos que emitíamos eram de nossa exclusiva propriedade, razão pela qual permaneceriam, por assim dizer, encarcerados em nossos cérebros.
Entretanto, nascida em berço europeu, a Doutrina Espírita fez surgir, sobretudo pelas vias da razão, um novo conceito daquilo que reputamos como sendo o mais importante atributo do Espírito.
A questão 833 de O Livro dos Espíritos nos esclarece que é pelo pensamento que o homem desfruta de uma liberdade sem limites. A problemática que então se estabelece é a de não avaliarmos, com total exatidão, a verdadeira amplitude das conseqüências de nossas produções mentais.
André Luiz, em sua obra Mecanismos da Mediunidade, psicografada por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, nos afirma que pensar é o ato de emitir matéria mental. Assim sendo, o pensamento deixa de ter um aspecto de invisibilidade para assumir a condição de matéria em movimento. Mas...de que modo isso se processa?
Recorrendo novamente à primeira obra basilar do Espiritismo, verificamos que Kardec, em nota correspondente à questão 495, nos esclarece que é exatamente através do fluido cósmico (presente em todo o universo) que os corpúsculos mentais se movimentam. Por certo, não conseguimos visualizá-los com nossos olhos grosseiros, apenas lhes sentimos os resultados, da mesma forma como divisamos claramente a luz do sol refletida na Terra, mas, nunca, a movimentação das partículas que lhe deram origem.
Importante ressaltar que, em virtude das ondas emitidas por sua mente, o homem se mantém enclausurado nas zonas inferiores da vida carnal, acometido por diversos males, de ordem física e psíquica, decorrentes das vibrações deletérias com as quais se ajusta.
Todavia, é também a partir do pensamento que todos nós, seres eternos que somos, nos candidatamos aos mais altos vôos em direção ao sublime caminho de luz que nos cumpre trilhar.
Ademais, bem sabemos que toda vibração, de qualquer matiz, ao ser lançada no espaço, certamente há de influenciar tantos outros seres, encarnados e desencarnados, que, conscientemente ou não, nutrir-se-ão das mesmas emanações, num fenômeno natural de afinização.
Lembremo-nos, finalmente, que a tão falada reforma íntima, que se traduz por constante renovação de atitudes, inicia-se, incontestavelmente, pela reformulação lenta e gradual de nossa vida mental.

José Marcelo Gonçalves Coelho
josemarcelo.coelho@bol.com.br

 

 

SUICÍDIO - UM PERIGO CRESCENTE!

 

Em janeiro de 2002, a Organização Mundial de Saúde publicava, em Bruxelas, dados estatísticos verdadeiramente preocupantes, demonstrando que, no mundo inteiro, durante o ano 2000, cerca de 815.000 seres humanos haviam aniquilado a própria vida: um suicídio a cada 40 segundos (!!!).
Mais terrível ainda é constatar um aumento estrondoso desses índices na faixa etária de 15 a 34 anos, em que o suicídio mostrou-se como a terceira causa de mortalidade mundial.
E a situação poderia ser ainda mais lastimável, já que, para cada ato concretizado, existem dez tentativas, ou seja, de cada dez pessoas que tentam se matar, somente uma logra êxito.
Tentemos compreender as causas de tão desesperada iniciativa.
Urge, primeiramente, diferenciarmos fatores desencadeantes (causas secundárias) de causas propriamente ditas (causas primárias).
Consideram-se fatores desencadeantes do suicídio, as provas e expiações pelas quais passamos na Terra, tais quais: desemprego, fracassos profissionais, dificuldades financeiras, desilusões amorosas, perda de entes queridos, mutilações, doenças orgânicas, processos depressivos organogênicos (depressão pós-parto, por exemplo), depressões psicogênicas (presente nos usuários de drogas e alcoólatras), além das doenças mentais, é claro, com a ressalva de que somente 10 a 20% das pessoas que se mataram sofriam de algum tipo de patologia mental.
Estudiosos apontam, ainda, as baixas temperaturas como elementos predisponentes ao suicídio, em decorrência da depressão orgânica a que ele pode dar causa, além do abatimento psíquico, suscitado pela ausência prolongada do calor e da luz solar, condições típicas de muitos países europeus.
Entretanto, certamente não são todos os seres humanos que passam pelas situações acima elencadas que atentam contra suas vidas, o que prova que as verdadeiras causas do suicídio (causas primárias) residem em cada um de nós, na forma de insuficiências espirituais.
Na questão 943, de O Livro dos Espíritos, Kardec indagava qual seria a causa do desgosto pela vida que se apoderava de certas pessoas sem causa aparente. Ao que os Espíritos responderam: “Efeito da ociosidade, da falta de fé, e, às vezes, da saciedade (...).” Analisemos individualmente cada fator:
Ociosidade: A ociosidade começa pela atitude mental invigilante, uma vez que, ao mantermos a mente vazia de pensamentos nobres, estaremos oferecendo vasto campo a expressões mentais intrusas de baixo teor, mormente aquelas que sinalizam para o desprezo pelo maravilhoso dom da vida. Ociosidade no campo mental que se transforma facilmente em inércia física, tornando a vida um campo infértil tomado por ervas daninhas. Eis a razão pela qual as estatísticas demonstram que a incidência do suicídio é maior entre pessoas desempregadas ou voluntariamente entregues a inação.
Falta de fé: A fé num poder maior, que rege todo o Universo, nos dá segurança para sobrepujar as vicissitudes da vida, robustecendo-nos a esperança, que é a expectativa de felicidade. Sem ela, entretanto, tudo se torna mais grave; as nuvens se acumulam ante nossos olhos, tornando a existência amarga e desprovida de beleza. Surgem, então, os processos depressivos; daí ao suicídio é um passo que muitos têm dado. Estatísticas também comprovaram que as taxas de suicídio são sensivelmente maiores em pessoas afastadas de uma crença religiosa qualquer.
E é exatamente pelo desconhecimento espiritual, a que a ausência de fé conduz os seres incautos, que homens dotados de expressiva inteligência, mas isentos de sensibilidade espiritual, fizeram legalizar, na Suiça, o suicídio assistido, que consiste no seguinte: alguém que sofre de um mal irreversível qualquer solicita o auxílio de um médico, que, então, lhe prescreve determinado medicamento, em expressiva dosagem, que lhe permita desencarnar “suavemente” em alguns poucos minutos.
A única condição que a lei impõe para esse tipo de suicídio é que o próprio paciente ministre em si mesmo o medicamento letal. Ou seja, o médico deve se limitar a assistir passivamente a morte lenta e gradual daquele cuja vida ele deveria preservar. Dados estatísticos desmonstram que, em dez anos dessa prática vergonhosa, o número de suicídios simplesmente triplicou naquele país, já que pessoas de nações vizinhas têm se deslocado até a Suiça para se matarem em “grande estilo”.
Saciedade: A ONU publicou recentemente um documento em que situou a Suécia (seguida da Noruega e da Finlândia) como o país que oferece a melhor qualidade de vida da Terra, já que, por lá, questões como desemprego, fome e miséria são praticamente inexistentes. Contudo, aqueles três países registram, na ordem referida, os maiores índices de suicídio do planeta.
Mas por que razão? Vejamos: A revista Isto É, edição de 28/01/2004, publicou uma reportagem bastante interessante sobre uma norueguesa de nome Clara Karoliussem que, após viver por mais de cinco anos em Santos (SP), preparava-se para retornar ao seu país de origem, curiosamente, contra sua vontade, pois afirmava que, no Brasil, ela comemorava cada vitória, fruto de muito trabalho, o que não ocorria em seu país de origem, onde, em suas palavras, tudo vêm de mãos beijadas, razão pela qual não existe a satisfação íntima da conquista.
Pode-se dizer, então, que as altas taxas de suicídio verificadas naquele país decorrem da saciedade mal vivenciada de alguém que, tendo conquistado tudo que a vida pode lhe oferecer, no sentido material, passa a sentir um desconcertante vazio, decorrente da falta de perspectivas para o futuro. De fato, a saciedade material, destituída de um certo respaldo espiritual, é uma das grandes causas do desgosto pela vida.
Ressalte-se que o Brasil, com tantas mazelas sociais, surge no cenário mundial das estatísticas do suicídio apenas na 71ª (septuagésima primeira) posição, certamente em decorrência do profundo sentimento de religiosidade dos brasileiros.
E a Doutrina Espírita, na condição de Consolador Prometido por Jesus, nos alerta sobre as gravíssimas conseqüências do suicídio, no plano espiritual e nas vidas sucessivas, auxiliando-nos a repelir sugestões infelizes, tão logo se apresentem em nossa tela mental. Oferece-nos, ainda, depoimentos mediúnicos dos próprios suicidas, que nos atestam a grande frustração pela qual passaram ao se defrontarem, no além, com uma realidade muito mais terrível do que aquela que vivenciavam na Terra, justamente por terem cometido o grande engano de julgar que, ao darem fim às suas vidas carnais, estariam, também, eliminando a inextinguível essência divina que somos todos nós.

José Marcelo Gonçalves Coelho
(josemarcelo.coelho@bol.com.br)

 

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