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Marcos André da Gama Bentes, Vice
Presidente de Unificação da FEEES - Federação
Espírita do Estado do Espirito Santo |
ALTERIDADE
1. INTRODUÇÃO – Somos individualidades:
O espírito Hammed, através da psicografia de
Francisco do Espírito Santo Neto (1), lembra-nos que necessitamos viver
com naturalidade, participando efetivamente na sociedade e usando nosso jeito
natural de ser, pois “possuímos talentos que precisam ser exercitados
para que possam florescer”. Esses talentos estão esperando o nosso
empenho, “a fim de colocá-los em plena ação no intercâmbio
das relações com as pessoas e com as coisas”.
“Não podemos então olvidar que viver no mundo é “entrar
em contato com os espíritos de natureza diferente, de caracteres opostos”
(2) , reconhecendo que cada um dá o que tem, vive do jeito que pode,
percebe da maneira que vê, admitindo que, por se tratar de tendências,
talentos e vocações, todos nós temos a peculiar necessidade
de “ser como somos” e “estar onde quisermos” na vida
social”. (1)
Mas, neste intercâmbio de aptidões e talentos, encontramo-nos constantemente
em situações de conflitos que nos colocam a prova quanto a nossa
capacidade de compreensão do nosso verdadeiro papel de espírito
eterno, vinculado à lei do progresso. Não um progresso vinculado
apenas ao desenvolvimento da inteligência, na aquisição
de alguns conhecimentos, pois “há homens que usam mal do seu saber.
O progresso consiste, sobretudo, no melhoramento moral, na depuração
do Espírito, na extirpação dos maus germens que em nós
existem”. (3)
Uma vez que este processo ocorre na vida de relação, vamos discutir
as implicações da mesma, seus conflitos e as dificuldades vivenciadas,
com as soluções propostas pela Doutrina Espírita.
2. CONTO ZEN (Debate por um Alojamento) – Para reflexão
e relaxamento:
Em alguns templos Zen japoneses, existe uma antiga tradição:
se um monge errante conseguir vencer um dos monges residentes num debate sobre
budismo, poderá pernoitar no templo. Caso contrário terá
de ir embora.
Havia um templo assim no norte do Japão, dirigido por dois irmãos.
O mais velho era muito culto e o mais novo, pelo contrário, era tolo
e tinha apenas um olho.
Uma noite, um monge errante foi pedir alojamento a eles. O irmão mais
velho estava muito cansado, pois havia estudado por muitas horas. Assim, pediu
ao mais novo que fosse debater: “Solicite que o diálogo seja em
silêncio”, disse o mais velho.
Pouco depois, o viajante voltou e disse ao irmão mais velho: “Que
homem maravilhoso é o seu irmão. Venceu brilhantemente o debate.
Assim, devo ir-me embora. Boa noite!”.
“Antes de partir”, disse o ancião, ”por favor, conte-me
como foi o diálogo”.
“Bem”, disse o viajante, “primeiramente ergui um dedo simbolizando
Buda. Seu irmão levantou dois dedos, simbolizando Buda e seus ensinamentos.
Então, ergui três dedos para representar Buda, seus ensinamentos
e seus discípulos. Daí, seu inteligente irmão sacudiu o
punho cerrado em minha frente, indicando que todos os três vêm de
uma única realização”.
Com isso, o viajante se foi.
Pouco depois, veio o irmão mais novo parecendo muito aborrecido. “Soube
que você venceu o debate”, falou o mais velho.
“Que nada!” disse o mais novo, “esse viajante é um
homem muito rude”.
“É?” disse o mais velho, “conte-me qual foi o tema
do debate”.
“Ora”, exclamou o mais novo, “no momento em que ele me viu,
levantou um dedo insultando-me, indicando que tenho apenas um olho. Mas por
ser ele um estranho, achei que deveria ser polido. Ergui dois dedos, congratulando-o
por ter dois olhos. Nisto, o miserável mal-educado levantou três
dedos para mostrar que nós dois juntos tínhamos três olhos.
Então fiquei louco e ameacei-lhe dar um soco no nariz – assim ele
se foi”.
O irmão mais velho riu. (4)
3. COMO NOS SITUAMOS – Na nossa vida de relação?
Este conto permite discutirmos questões específicas sobre os problemas da comunicação, inclusive. Mas, vamos olhar mais profundamente os tipos psicológicos apresentados em cada personagem.
Entre outras possibilidades, podemos enquadrar estes personagens
com as seguintes características:
? Irmão mais velho – intelecto / razão
? Irmão mais moço – natureza / instinto
? Monge errante – raciocínio em vigília
Algumas questões fazem-se necessárias, no sentido
de provocar-nos a reflexão:
- Onde estamos?
- Em qual destes perfis apresentados mais comumente nos situamos?
- Em quais destes perfis mais interagimos?
4. ALTERIDADE – A Alteridade como solução
No livro “Nosso endereço de luz pede mudanças” (5), a autora (Saara Nousiainen), citando trechos do livro “Seara Bendita” (6), descreve a observação de Bezerra de Menezes, Espírito, sobre as Fases do Espiritismo. A autora destaca, resumidamente, que tivemos uma primeira fase de aproximadamente 70 anos, que representou a legitimação da ciência e da filosofia espírita, vivenciada intensamente por Allan Kardec e seu contemporâneos, principalmente. Uma segunda fase, com idêntica duração, teve como síntese a proliferação do conhecimento espírita, exemplificada pela intensa divulgação do livro espírita, em especial àqueles produzidos pela mediunidade de psicografia de Francisco Cândido Xavier. A terceira fase, que teve início junto com o novo milênio, é percebida como àquela que dará lugar à maioridade das idéias espíritas. Será, conforme citação de Bezerra de Menezes, o período da atitude.
Assim, nos vemos diante de um grande desafio: a exemplificação
da moral do Cristo, como Evangelhos vivos a sensibilizar e contaminar positivamente
todos os demais.
Estamos prontos para esta fase de atitude?
A Alteridade como conceito: “Alteridade significa considerar, valorizar, identificar, dialogar com o outro (alter, em latim). Diz respeito aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais. Na relação alteritária, o modo de pensar e de agir, as experiências particulares, são preservadas e levadas em conta sem que haja sobreposição, assimilação ou destruição”. (7)
Três etapas são percebidas na elaboração
de uma relação com base na alteridade:
- Identificar o contrário;
- Entendê-lo nas suas diferenças;
- Aprender com estas diferenças.
“Eis o desafio: estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes”. (7)
Ou, como dizia Martin Luther King (líder pacifista negro, norte-americano): “Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas”.
Este processo, contínuo, possibilita o crescimento e o amadurecimento das relações, de aflitivas para afetivas. E este raciocínio tem sido o grande desafio nas relações entre indivíduos, grupos, povos, nações... Há muito tempo!
5. IDENTIFICAR
E ENTENDER – Processo histórico dos diferentes caminhos: Oriente
e Ocidente.
Dois caminhos distintos foram historicamente percorridos pelos
povos orientais e ocidentais, nos últimos séculos, sendo claramente
identificados no texto a seguir:
“Por ter negado às vezes o lado espiritual da realidade, a filosofia
ocidental tornou-se prisioneira da razão; por ter ficado sob a tutela
da religião, a filosofia oriental freqüentemente abandonou a razão”.
(8)
A síntese histórica destes dois caminhos é
percebida com a divulgação da Doutrina dos Espíritos, que
proporciona o ponto de equilíbrio naquilo que estas duas culturas têm
de melhor a oferecer.
“Kardec fez o caminho inverso da escolástica medieval, que pretendia
justificar a fé pela razão e submetia a razão à
fé”. “E, no caso, essa fé era controlada pela Igreja
católica, uma instituição poderosa, que tinha seus interesses
econômicos e políticos”. (8)
“O espiritismo faz a crítica da fé, a partir da razão,
mas sem ferir-lhe a essência”. (8)
6. KARDEC – Resposta racional a problematização dos conflitos:
.
Compreensão da Fé - “Nem o judeu, nem o muçulmano,
nem o hindu, nem o budista dependem necessariamente do clero instituído
para obterem salvação. (...) apesar dos rituais que têm,
não há uma intermediação institucional entre o homem
e Deus.” (8)
A fé raciocinada - “Kardec propôs uma forma
de conhecer integrada de todas as áreas: sem o conflito entre ciência
e religião, sem a subjugação da filosofia, sem a exclusão
de nenhum instrumento possível que se debruce sobre o homem e o universo.
(...)”.(8)
“Há uma unidade essencial no universo: um só Deus, uma só
realidade, uma só capacidade do homem de compreender e interpretar essa
realidade. (...).” (8)
“Assim, o conhecimento que é fruto do diálogo entre as diversas
áreas tem um sentido pessoal e uma garantia na subjetividade do ser.
Não é apenas conhecimento objetivo, é experiência
subjetiva.” (8)
Diante desta compreensão, podemos corroborar com a afirmativa seguinte,
de que o
“Espírita não é aquele que simplesmente acredita
na reencarnação, mas aquele que se sente e se sabe um espírito
antigo; não é aquele que apenas crê na manifestação
dos espíritos, mas aquele que distingue e segue a inspiração
dos bons e para quem a percepção do mundo espiritual é
fato natural e corriqueiro da vida cotidiana.” (8)
7. ESPIRITISMO NO BRASIL - Porque o “pensamento”
da Doutrina Espírita interpôs-se entre nós, no Brasil, tão
efetivamente:
Diante de todo o caminho traçado pela Doutrina Espírita
na Europa, com a fase de legitimação da ciência e da filosofia
espírita consolidada, estranham alguns do porque esta Doutrina não
se fixou naquele povo aparentemente preparado para sustentar esta etapa de transformação
moral da humanidade. A preparação científica e filosófica
com certeza havia, mas faltava vencer alguns dos seus preconceitos, profundamente
enraizados.
O Dr. Sergio Felipe, da USP, advoga a idéia de que o povo de Israel era
aquele mais preparado para a vinda do Cristo, não só pelas suas
características monoteístas, trazidas por Moisés, mas também
porque naquela região onde este povo se localizou, seria a confluência
natural por onde passaram as grandes culturas, influenciando e sendo influenciada,
ao longo de séculos de dominação. Estas provas sustentaram
as bases deste povo, que com isso possibilitou a vinda do Mestre.
Da mesma forma, sob a ótica do Dr. Sergio Felipe de Oliveira, o Brasil
apresenta as condições básicas, sócios-culturais-espirituais,
de instalação da Terceira Revelação – a Doutrina
Espírita, corroborando o que está descrito no livro “Brasil
- Coração do mundo, Pátria do Evangelho”. (9)
Da mesma forma a Prof.ª Dora Incontri apresenta três condições
que, em sua opinião, foram determinantes para a instalação
desta Doutrina em nossas terras:
(a) somos um povo mediúnico, naturalmente interexistencial, um povo de
fé (...)
(b) proclamamos a nossa capacidade de convivência pacífica entre
diferentes religiões, culturas e etnias (...)
(c) nossa capacidade afetiva, o modo de nos relacionarmos, caloroso, informal,
amistoso é uma riqueza enorme, muito propícia ao princípio
da fraternidade cristã.(8)
8. A CASA ESPÍRITA – Núcleo.
Associação. Vivência espírita:
Mas, como anda a prática da alteridade nos nossos núcleos
espíritas, que em tese, deveria ser a exemplificação de
tudo que vimos até aqui?
“Há muito a aprender sobre alteridade nos agrupamentos espíritas,
principalmente porque o Espiritismo só poderá influenciar os vários
campos do conhecimento humano se conseguir se inserir de maneira harmoniosa
junto àqueles que atualmente pensam divergentemente de seus postulados.
As idéias espíritas predominarão na Terra um dia pelo alteritarismo
de relacionamento e não pelo autoritarismo de comportamento”. (7)
– amparo ao trabalhador espírita: o que temos para oferecer:
“O trabalhador da Casa Espírita, em sua grande
maioria”:
• Chega à Casa Espírita como Espírito necessitado
de orientação e socorro (“Vinde a mim todos vós que
sofreis”);
• Passa por período de “tratamento” para aliviar os
problemas que o afligem;
• Percebe, esclarecido pelo estudo, que vícios e imperfeições
morais indicam desarmonias enraizadas em si e que podem acarretar vínculos
com espíritos oportunistas também nas mesmas faixas de desarmonias;
• Recebe o Atendimento Espiritual e, concomitantemente, o trabalho-amor,
em serviço de ajuda ao próximo (“Tomai a vossa cruz e segui-me”);
• “Transforma esse serviço fraterno em um grande esforço
de auto ajuda e auto iluminação”. (9)
“É importante, nos núcleos de filosofia
espírita, que possamos exercitar a convivência e a ambiência
democrática e participativa, sem nos esquecermos, é claro, das
balizas que norteiam qualquer associação e/ou trabalho”.
(...)
“É, acima de tudo, uma vivência espírita, que se torna
natural na medida em que, individual e coletivamente, invistamos no processo”.
(10)
- Alteridade como solução nos grupos espíritas e externamente aos mesmos:
“Sendo o Centro Espírita um lar-escola-hospital-oficina
de trabalho e casa de oração, deve ter os recursos para amparar
aos seus trabalhadores, quando suas forças fenecerem e sua dor o impeça
de buscar seus recursos próprios”. Assim, deverá fornecer
os recursos:
- Do atendimento espiritual
- Do atendimento mediúnico
- Da compreensão e da compaixão
- Do auxílio mútuo
- Da consolação
- Do auto-conhecimento.
Através de um programa de estudo evangélico-doutrinário, como forma de profilaxia e/ou atendimento”. (9)
9. VIAGEM NO TEMPO – O que nos propõe a Lei de Progresso?
Se ainda estamos indecisos ou temerosos do que fazer; ainda
apegados ao nosso pequeno ego, vamos acompanhar a viagem seguinte, ao espaço,
para refletirmos sobre os trabalhos de Deus.
Buraco negro - Esta foto de um buraco negro nos induz a pensar para onde caminha
toda esta massa interestelar, ou seja, o que faz com que a vida de milhares
de sois e planetas caminhem para esta concentração de energia,
que um dia nos sugará...
Fim de uma estrela – Esta imagem retrata o que acontecerá com o nosso Sol um dia, encerrando todo um processo de vida na matéria, tal qual a conhecemos.
Fecundação espacial – Mas, no macrocosmo, existem vida sendo preparada, qual esta aproximação de orbes em formação.
Ninhos estrelares (geral) – E a vida se renova com a formação de novos sois a partir das “poeiras estelares”.
Ninhos estrelares (em detalhe) – Neste detalhe pode ser observado alguns novos sois nascendo e se projetando para o espaço, iniciando um novo ciclo de vida.
Novas formações – E a vida continua...
Se, após tudo o que lemos e vimos (e pensamos) tivermos
ainda alguma dúvida sobre qual é o nosso papel aqui, em mais uma
das etapas deste processo contínuo de reencarnação, lembremos
do Cristo, nossa meta e governador deste orbe, que indicou o caminho para sermos
tal qual a ele, num futuro próximo.
O que estamos fazendo para que isto seja um fato, na nossa vida de relação?
É a alteridade uma prática comum no nosso dia-a-dia?
10. BIBLIOGRAFIA E CITAÇÕES:
(1) – Livro “Renovando Atitudes”, Capitulo
Viver com naturalidade, p. 165, Francisco do Espírito Santo Neto, pelo
espírito Hammed.
(2) – Livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Capitulo
XVII, item 10.
(3) – Livro “Entrevistando Kardec”, Capitulo Progresso, p.149,
Suely Caldas Schubert.
(4) - Livro: “Mensagens dos Mestres” – Antologia Espírita
e Popular, Antônio F. Rodrigues – Editora EME.
(5) – Livro “Nosso endereço de luz pede mudanças”,
Saara Nousiainen.
(6) - Livro “Seara Bendita”, Wanderley e Maria José Soares
de Oliveira, diversos espíritos; citando Bezerra de Menezes – Congresso
Espírita Brasileiro – Goiânia, 05/10/1999, em comemoração
ao 50° do Acordo da Unificação – O Pacto Áureo.
(7) – Texto na Home-Page da ABRADE - “A prática da Alteridade”
- Quando a diferença é que soma - Carlos Pereira (PE) - carlosjfp@uol.com.br.
(8) - Livro “Para entender Allan Kardec”, p. 66, 72 e 101 –
Dora Incontri – Editora Lachâtre.
(9) – Texto FEB sobre a Atividade de Assistência Espiritual ao Trabalhador
Espírita – Comissão Regional Centro – Cuibá,
MT - 2004.
(10) - Texto na Home-Page da ABRADE - “Alteridade na seara espírita”
- Marcelo Henrique (SC) - cellosc@bol.com.br .
Citações:
- Livro: “Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (Francisco Cândido Xavier / Humberto dos Campos) – FEB.
- Palestra: “O Cientista Maior” - III Jornada da Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo – AME/ ES, “A Ciência do 3º Milênio: O Cientista Jesus” – 15, 16 e 17/09/2000 – Vitória, ES.
- Fotos do Espaço – Observatório Espacial Hubble – NASA.