Arte Espirita - Poemas

Walace Fernando Neves, Espirita Atuante no Centro Espirita Fé Esperança e Caridade Clara de Assis; Assessor Pedagógico do Departamento de Infância e Juventude -DIJ/FEEES; Professor aposentado do Centro de Artes da UFES; Coralista do Coral Renascer, alem de muitas outras atividades...
Obra Psicografada
O CONTADOR DE HISTORIAS é uma obra de delicadeza ímpar, cujo pratagonista é um arabe contador de historias que encantam e educam as platéias dos oásis por onde passa. Lembrando os célebres contos das mil e uma noites, e bem ao estilo que utilizava em vida, Malba Taham narra inúmeras histórias no decorrer da narrativa principal.
 
 
AS TRÊS CRUZES

Walace F. Neves (agosto de 1985)


A noite é tranqüila e nua... Por entre nuvens vadias,
Soltas, brancas, fugidias.
O doce clarão da lua.

A hora sexta já se fora:
O véu rasgado no templo,
Tumbas abertas a exemplo,
Da força libertadora.

E o luar que inda persiste,
Ouvindo canções da brisa,
Serenamente desliza
Sobre o monte calvo e triste.

Jaziam por sobre a terra
Sombras tredas, sedentárias...
De três cruzes solitárias,
Viris no topo da serra.

Eram gládios sanguinários
Ferindo o chão seco e duro,
Impermeável, escuro,
De punhos vis, temerários.

Conversavam sem temor
Sobre os acontecimentos
De anteriores momentos,
Um drama de tanta dor.

Falava altiva, a primeira:
-- Eu simbolizo a justiça
Para o homem que se atiça
Ao crime do qual se abeira.

Aqui padecem torturas
Pendurados nos meus braços
Para apagar-lhes os traços
De suas vidas impuras!...

A segunda cruz grosseira,
Nos trilhos da indiferença,
Marcando sua presença
Interrompeu a primeira:

-- Eu digo, muito segura,
Fomos lavradas, no intento,
De ser, somente instrumento
Para cilício e tortura,

Sou a justiça, de pé!...
-- Qual nada, aí ledo engano,
O mesmo do ser humano
Sempre injusto, errado, até!...

-- Somos madeira de lei...
(Insistiu mais, a primeira)
Sustive um ladrão sem eira
Para exemplar sua grei!

--E você aí, parceira,
Não diz nada? É caprichosa?
(Buscava, silenciosa
A cruz do meio, a terceira).

--Com qual de nós, a razão
Estará, enfim, das duas?
Fala das idéias suas
No topo deste torrão!

Veja o exemplo do meu fado:
Sustentei, até à morte,
Um ladrão de pouca sorte
Que nunca havia roubado!

Pouco me importa se a fome...
(E a segunda não se cansa)
Fez perder sua esperança,
Sua própria vida ou nome!...

Passaram-se alguns segundos
No silêncio que angustia,
Imersa, pois, parecia
Em pensamentos profundos.

Dormia a cidade, além
Brilhava uma luz distante,
Alguém velava, constante,
Na velha Jerusalém.

A cruz terceira falou
Envolvida em claridade
Com tanta suavidade
Que a brisa silenciou:

-- Eu alcancei toda a glória
De um homem bom, inocente,
Que dos meus braços, pendente,
Fulgirá por toda a história.

Puro, por excelência,
Deu-se ao mundo por amor,
Humilhado, em seu valor,
Por sicários da demência.

Para toda a Eternidade
Está gravada em meu lenho
Sua palavra de empenho
De perdão à humanidade.

Não podemos ser justiça
Ou indiferença vil
Numa atitude servil
Numa aparência castiça.

Podemos ser piedade,
Irmãs da misericórdia
Pois quando houver mais concórdia
Morrerá toda maldade...

E, para espanto das cruzes
Fluía do seu madeiro,
Acendendo, por inteiro,
Uma cascata de luzes.

Da palavra que redime,
Calara-se a cruz terceira,
Acendida, por inteira,
No momento mais sublime.

Na fimbria do horizonte
A lua já se deitara
E a quietude, então, voltara
Trazendo silêncio ao monte.

Aos poucos se incendeia
O vermelho do arrebol,
Em breve viria o Sol
Em luminosa candeia.

E, ao longe, com alegria,
O cantar dos lavradores
Que entoavam seus louvores
Às bênçãos de um novo dia:

O céu a nós se abrirá
Nas glórias de imenso amor,
O Senhor é meu Pastor
E nada me faltará...”

 
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