A pluralidade das existências - Reencarnação

Carlos Alexandre Fett

Allan Kardec foi bastante racional nas considerações que teceu sobre a pluralidade das existências. A certa altura ele diz:

"Se não há reencarnação, não há mais do que uma existência corporal, isso é evidente. Se nossa existência corporal é a única, a alma de cada criatura foi criada por ocasião do nascimento, a menos que admitamos a anterioridade da alma. Mas nesse caso perguntaríamos o que era a alma ANTES do nascimento, e se o seu estado não constituiria uma existência sob qualquer forma. Não há, pois, meio-termo: ou a alma existia ou não existia antes do corpo.

Se ela existia, qual era a sua situação ? Tinha ou não tinha consciência de si mesma ? Se não a tinha era mais ou menos como se não existisse; se tinha, sua individualidade era progressiva ou estacionaria ? Num e noutro caso, qual a sua situação ao tomar o corpo? Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, ou o que dá no mesmo, que antes da reencarnação só tinha faculdades negativas, formulemos as seguintes questões:

  1. Por que a alma revela aptidões tão diversas e independentemente das idéias adquiridas pela educação ?
  2. De onde vem a aptidão extranormal de algumas crianças de pouca idade para esta ou aquela ciência, enquanto outras permanecem inferiores ou medíocres por toda a vida ?
  3. De onde vêm, para uns as idéias inatas ou intuitivas, que não existem para outros ?
  4. De onde vêm, para certas crianças, os impulsos precoces de vícios ou virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza, que contrastam com o meio em que nasceram ?
  5. Por que alguns homens, independentemente da educação, são mais adiantados que outros ?
  6. Por que há selvagens e homens civilizados ? Se tomarmos uma criança hotentote, de peito, e a educarmos, enviando-a depois aos mais renomados liceus, faremos dela um Laplace ou um Newton ?
  7. Por que umas nascem na mais extrema miséria e outras na opulência. Umas têm berço de ouro e outras não têm um mísero bercinho para acomodar seu corpinho ?
  8. Por que algumas pessoas nascem portando doenças incuráveis (sem ser caso de hereditariedade) e sofrem a vida toda, e outras nascem cheias de sa£de e de vigor ? Por que morrem crianças em tenra idade e outras vivem muitos anos ?
  9. Por que algumas pessoas nascem sem alguns de seus membros, na cegueira, portando numerosas deficiências físicas ?
  10. Por que uns nascem no seio de povos primitivos e em países inóspitos, e outros nascem no seio dos povos mais civilizados ?
  11. Por que nascem crianças precoces, no campo da música, da matemática e de outros conhecimentos, e outras, apesar de estudarem e se esforçarem a vida toda, não conseguem alcançar um nível razoável de conhecimento ?
  12. Por que criaturas más desfrutam de grande prosperidade na vida, e outras, bondosas e moralizadas, vivem uma vida cheia de tropeços e de amargores ?

Qual a Filosofia ou a Religião que pode equacionar esses problemas sem valer-se da lei das vidas sucessivas ou da Reencarnação ?

O Espiritismo tem explicação para todos esses problemas, demonstrando que essas discrepâncias ocorrem devido, a maior parte das vezes, aos desvios que a criatura comete, e que exige reajuste perante a justiça do Criador.

Deve-se, pois, reconhecer que a doutrina da pluralidade das existências é a única a explicar aquilo que, sem ela, é inexplicável; que é altamente consoladora em conformidade com a justiça mais rigorosa, sendo para o homem a tábua de salvação que Deus lhe concedeu na sua misericórdia infinita.

Desacreditá-la é, no mínimo, afirmar que Deus é injusto.

 

A reencarnação está na Bíblia

Carlos César Barro

Jesus Cristo havia subido ao monte Tabor com três de seus discípulos para orar: Pedro, Thiago e João. Chegando ao topo, o Mestre se transfigura perante os apóstolos e eis que aparecem junto deles Moisés e Elias, já falecidos há centenas de anos, que conversam com o Senhor. Depois, Ele e seus seguidores desceram da pequena elevação e se envolvem no diálogo que colocamos ao lado.

Nas Escrituras Sagradas, mais precisamente no livro de Malaquias, há uma profecia afirmando que antes da vinda do Messias, o profeta Elias deveria novamente retornar. Sem entendê-la direito, os Escribas e os Fariseus, religiosos da época e inimigos de Jesus, apegavam-se nela para afirmarem que o Mestre não era o Filho de Deus, pois não tinham visto a Elias.

Indagado sobre a vinda do profeta, Jesus responde que ele já havia nascido, e que ninguém o tinha reconhecido. Então, os apóstolos compreenderam que se tratava de João Batista, a quem o Mestre se referia.

Em outra passagem anterior à citada, Jesus também afirma que João era Elias : ...Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Mateus 11: 13 a 15).

João Batista era primo de Jesus, filho de Izabel e Zacarias. É importante não confundir este João com o apóstolo do mesmo nome, chamado o Evangelista. O Batista começou a pregar no deserto, onde morava. Vestia-se de pele de animais e comia mel silvestre e gafanhotos. Sua pregação era muito enérgica, conclamando o povo a seguir os ensinamentos morais das Escrituras. Quando alguém se convertia a sua doutrina, prometia que dali em diante sua vida iria mudar. João mergulhava esta criatura nas águas do Jordão, num ato simbólico de batismo, para selar o compromisso. Este ato foi chamado de "batismo pela água". Daí o nome "Batista". Note que na época só se batizavam adultos.

Chegando Jesus à margem do Jordão, foi também batizado por João, "para que se cumprissem as antigas profecias". Este acontecimento marcou o início da vida pública do Mestre e o declínio da pregação do Batista. João foi preso pelo rei Herodes, por causa das críticas que ele fazia ao adultério do rei com sua cunhada Herodias, mulher de seu irmão Felipe. No aniversário do rei, Herodias pediu a cabeça de João. A história dos Evangelhos ilustra a vida de trabalho do Batista, à causa do Bem.

O Evangelho de Lucas, capítulo I, versículos 36 a 45, pode ser analisado. Nele, é contada a história da gravidez de Izabel, mãe do Batista, prima de Maria, a mãe de Jesus. João nasceu de parto normal, como outra criança qualquer. Conclui-se pois, que se Jesus afirmou que João era o Elias da profecia, deu inequívoco testemunho de que o Espírito ou a Alma pode entrar no ventre da mãe para nascer de novo.

Existem outras passagens que mostram que alguns judeus acreditavam na reencarnação. Muitas vezes perguntavam ao Mestre se ele era um dos antigos profetas que havia voltado (veja Mateus 16: 13 a 16). Se eles assim questionavam, é que entendiam que os Espíritos tinham possibilidade de viverem outras vidas.

Quanto a Jesus não ter utilizado o termo "reencarnação" naquela época, ele mesmo responde numa conversa com Nicodemos, o fariseu simpático a Jesus:

Em verdade te digo que aquele que não nascer de novo , não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode retornar ao ventre de sua mãe? Jesus respondeu: Na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito. Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Nicodemos respondeu: Como pode ser isso? Jesus disse: Tu és mestre de Israel e não sabes disso? ... Se vos falei de coisas terrestres e não crestes, como crereis se vos falar das celestiais? (S. João, cap.III - vers. 3 a 12).

Jesus deixa claro que nem todos estavam aptos a entenderem a verdade como ela hoje nos é apresentada pela Doutrina. Afinal, a encarnação do Mestre foi há quase dois mil anos. Não havia condições intelectuais para se entender as abstrações da vida espiritual. Por este motivo, o Mestre sempre dizia os que têm olhos para ver, vejam; os que têm ouvidos para ouvir, ouçam. Não falou claramente da reencarnação, nem da vida após a morte, mas o fez nas entrelinhas. As Escrituras Sagradas nos fornecem subsídios importantes para crermos na reencarnação como dádiva de Deus. BANCO DE DADOS

Publicado no Jornal Entenda a Vida, edição 1

 

A Reencarnação Segundo a Bíblia

Machado de Assis (espírito)

Todos nós somos formados de um intelecto que nos faz ter a compreensão e entendimento das coisas, quer materiais quer espirituais, esse dom nos é dado por Deus nosso Pai de sabedoria e compreensão infinita.

Alguns são dotados de maior compreensão do que outros, muitas vezes por desníveis culturais, mas é um ou outro privilegiado pelo nosso Pai celeste que levou a critério sua escolha.

Temos lido a bíblia diversas vezes de capa a capa, e teve alguns trechos que nos chamou a atenção no tocante a reencarnação; que se faz pura e cristalina a sua escrita nas sagradas escrituras, e temos irmãos letrados e até doutos que se fazem de desentendidos em sua interpretação, o que lamentamos porque a humanidade teria outro rumo espiritual e moral em todo o seu bojo, se todos os nossos irmãos em Cristo assimilassem o seu conteúdo de forma clara, como nos é transmitida pelo seu narrador, vou retransmitir na integra alguns trechos do Novo Testamento em sua versão original.

O Evangelho Segundo Mateus

Capitulo 11 Jesus prega nas cidades

Versículo 11 em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele.

Versículo 12 desde os dias de João Batista até agora o reino dos céus é tomado por esforço, e o que se esforçam se apoderam dele.

Versículo 13 porque todos os profetas e a lei profetizaram até João.

Versículo 14 e, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.

Versículo 15 quem tem ouvidos para ouvir ouça.

Capitulo 17 A transfiguração

Versículo 10, mas os discípulos o interrogaram: por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro?

Versículo 11 então Jesus respondeu: de fato Elias virá e restaurará todas as cousas.

Versículo 12 eu, porém vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram, antes fizeram com ele tudo quanto quiseram... assim também o filho do homem há de padecer nas mãos deles.

Versículo 13 então os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista.

Livro de João

Capitulo 3 Nicodemos visita a Jesus

Versículo 1 Havia, entre os fariseus, um homem, chamado Nicodemos, um dos principais judeus.

Versículo 2 este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.

Versículo 3 a isto respondeu Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

Versículo 4 perguntou-lhe Nicodemos: como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?

Versículo 5 respondeu Jesus: em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus.

Versículo 6 o que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do espírito, é espírito.

Versículo 7 não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo.

Versículo 8 o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabe de onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do espírito.

Versículo 9 então lhe perguntou Nicodemos: como pode suceder isto? acudiu Jesus:

Versículo 10 tu és mestre em Israel, e não compreendes estas cousas?

Versículo 11 em verdade, em verdade te dito que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto, contudo não aceitais o nosso testemunho.

Versículo 12 se tratando de cousas terrenas não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?

Versículo 13 ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o filho do homem que está no céu.

Versículo 14 e de modo por que Moisés levantou a serpente do deserto, assim importa que o filho do homem seja levantado.

Versículo 15 para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.

Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios

Capitulo 15 A Ressurreição de Cristo, Penhor da Nossa Ressurreição.

Versículo 12 ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?

Versículo 13 e, se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou.

Versículo 14 e, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã a nossa fé;

Versículo 15 e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam.

Versículo 16 porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.

Versículo 17 e se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.

Versículo 18 e ainda mais: os que dormiram em Cristo, pereceram.

Versículo 29 doutra maneira, que farão os que batizam por causa dos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, porque batizam por causa deles?

Versículo 30 e porque também nós nos expomos a perigos a toda hora?

Versículo 31dia após dia morro! Eu o protesto, irmãos, pela glória que tenho em vós outros, em Cristo Jesus nosso Senhor.

Versículo 32 se, como homem, lutei cem Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos.

Versículo 33 não vos enganeis; as más conversações corrompem os bons costumes.

Versículo 34 tornai-vos à sobriedade, como é justo, e não pequeis; porque alguns ainda não tem conhecimento de Deus; isto digo para vergonha nossa.

Relatamos acima alguns trechos da Bíblia Sagrada, para que todos os irmãos em Cristo pudessem assim assimilar, o discutido tema da reencarnação e com a interpretação própria, assim tirassem suas próprias conclusões, não aceitando falsos profetas, que desvirtuam os conceitos bíblicos para enganar seus seguidores, que são possuídos de pouca leitura, e seguem dogmas já ultrapassados e mesmo que nunca existiram, e se escondem em mantos de comércio extorquindo do povo o que é de mais sagrado, que é a fé, e ainda por não se falar em bens materiais, não podemos viver cobertos ainda com esse véu da hipocrisia, se as santas escrituras nos mostra às claras, a raiz da verdade, para que não sejamos levados, por falsos escribas como fossemos carneirinhos, sem sequer ter o mínimo de auto afirmação, temos que abrir os nossos olhos para a verdade, e para os senhores que tiverem a oportunidade de ler este conceito bíblico, poderão se afirmar pegando a bíblia e olhando capitulo a capitulo e versículo a versículo e tirarão suas próprias conclusões.

Porque morre o amor, mas não morre a esperança, e não existe lugar onde as mãos de Deus não alcançam.

 

Despertando do coma

Carlos Pereira

Terry Wallis foi notícia no mundo inteiro porque abriu os olhos novamente depois de dezenove anos em estado de coma após sofrer um acidente de carro, nos Estados Unidos. Fato raro, segundo a Medicina, uma vez que a freqüência comum de reavivamento é de três meses. Terry acordou do longo sono bastante humorado. Primeiro falou com a mãe, depois pediu a terapeuta para fazer amor com ele. Outro caso interessante ocorreu com Patricia White Bull, uma bailarina que durante o parto de seu quarto filho desacordou para somente recobrar a consciência dezesseis anos depois, exatamente no natal de 1999. Embora a ciência tenha avançado bastante sobre o mecanismo de funcionamento do cérebro, especialmente nesta última década, não conseguiu desvendar o mistério para casos como estes de Terry Wallis e Patricia Bull. Não conseguiu porque ainda não levou em consideração a tese do princípio espiritual que anima cada ser vivente.

O ser humano não é tão-somente um animal racional, é, sobretudo, um ser espiritual que recebe um corpo de carne para passar por experiências de aprendizado no planeta Terra.  Para ligar o espírito ao corpo físico existe um corpo específico, semimaterial, que encontra várias denominações como corpo bioplasmático, perispírito, corpo astral etc. A morte somente acontece quando as ligações do corpo físico com este corpo espiritual se efetiva. Um paciente em estado de coma mantém estes laços de vitalidade sem tempo determinado para desligamento. Por isso, a terminologia mais adequada para configurar este fenômeno seria a desencarnação, isto é, a ação de saída do corpo de carne. A miopia científica, porém, para as questões espirituais, faz atrasar os avanços necessários para o tratamento integral do ser humano.

Um paciente, em estado de coma, está presente no local onde seu corpo fica paralisado, presenciando o que ocorre ao seu redor ou em qualquer lugar, a semelhança do que atestam as pessoas que passaram por experiências de quase-morte. Se familiares, amigos ou médicos conversarem com o paciente podem ter a certeza que ele terá condições de ouvir e ver, sem, contudo, ter a capacidade de dar a resposta. Pode até aparecer normalmente em sonhos, pois quem está aprisionado na cama é o corpo e não o espírito. Mas, qual a razão para alguém passar tanto tempo ausente do mundo? Pode-se afirmar que cada caso é um caso, e compreendendo a Lei Divina como perfeita, é certo que aquela experiência deva servir de resgate de débitos cármicos provocados por ele noutras vidas.

O desaviso sobre a realidade espiritual pode, também, nos casos de coma profundo por longo período, levar ao raciocínio de abreviação dos sofrimentos do paciente e provocar a eutanásia. O termo eutanásia, proposto pelo filósofo Francis Bacon, em 1623, vem do grego, podendo ser traduzido como boa morte ou morte apropriada e teve a Holanda como o primeiro país do mundo a legalizá-la, em 2001. A eutanásia é outro equívoco. Equívoco porque parte do pressuposto de que a vida pertence à pessoa. A vida, na verdade, pertence a Deus que permite a cada um de nós usufruí-la para a nossa felicidade, não devendo ninguém abreviar a sua ou a de qualquer um, seja qual for a justificativa.

O sono profundo que necessitamos despertar é o da inconsciência daquilo que realmente somos. Acordar para a dimensão do espírito e vivermos em consonância com ela, modificando nossa forma de pensar e conseqüentemente de agir, sobretudo com os outros, sob a perspectiva da vida futura e da imortalidade que nos é inerente.

Carlos Pereira é presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Pernambu

 

O Espírito na Reencarnação da Humanidade

Jorge Ândrea dos Santos

A ciência biológica, como outras ciências, vem apresentando, no dia-a-dia, ampliação de seus horizontes com descobertas bem expressivas.

O campo da reprodução dos seres, especificamente a humana, diante de percepções nos campos do infinitamente pequeno, vem mostrando novos estudos e preciosos acontecimentos, inclusive algumas conseqüências nas equações espirituais.

Sabemos que o processo reprodutivo humano está diretamente relacionado ao encontro do espermatozóide com o óvulo, possuindo cada uma dessas células, o número de cromossomos pela metade, porquanto a sua união restabelece o número de 46 que caracteriza a espécie humana.

O encontro das células genésicas, dum lado o espermatozóide, do outro o óvulo, obedecem um roteiro tão ordenado que nos faz pensar num campo influenciador e orientador desse mecanismo. Ainda mais, o sexo do futuro ser estará na dependência do tipo de espermatozóide existente entre os 200 milhões deles, quando lançados nas vias femininas. Na espécie humana, sabemos que os espermatozóides, possuindo 23 cromossomos, um deles é denominado de cromossomo sexual e mostrando-se de duas variedades, o Y e o X. O óvulo só possui o cromossomo sexual de uma única variedade, isto é, o X. Se a combinação da célula genésica feminina for com o espermatozóide Y, o produto será masculino (Y + X), se com a variedade X, o produto será feminino (X + X). Tudo perfeitamente comprovado pela ciência e onde somente um deles penetrará a célula feminina. Os demais serão absorvidos, porém deixarão uma coroa energética que funcionaria como campo defensivo da célula fecundada.

Um fenômeno de tal ordem, equilibrado nas polaridades sexuais dos seres, denotando inteligente direcionamento, não pode estar submetido a um acaso biológico. Terá que haver um diretor, um orientador responsável conduzindo o processo. Este só poderá ser o Espírito reencarnante, que traz consigo, no momento de seu mergulho na matriz perispiritual materna, a polaridade sexual de sua necessidade reencarnatória. Daí, passaria a influenciar, pelas suas irradiações, o espermatozóide (X ou Y) que penetrará o óvulo, concluindo a concepção (gravura-1). Temos como certo que o Espírito reencarnante com seus automatismos em irradiação seleciona o espermatozóide que atenda o revestimento corpóreo de suas necessidades evolutivas, se em corpo masculino ou feminino.

No processo reencarnatório, o Espírito será o campo-organizador-da-forma, embora sem a consciência do processo, o que acontece na maioria das reencarnações. Os automatismos dos lastros espirituais, desenvolvidos nos milênios e sempre com aquisições das experiências pretéritas, ocupando a célula fecundada – o ovo –, passa a direcionar, com seus impulsos, a embriogênese na conclusão do novo ser.

Os 46 cromossomos que caracterizam as células da espécie humana possuem um total de 100.000 genes, onde cada um deles ou mesmo pequenos grupos afins são responsáveis por determinados fatores de herança. Toda essa imensa rede de genes, em seu bioquimismo, não pode deixar de obedecer a um orientador, um elemento que acione seus potenciais, de modo tão perfeito e adequado, que o resultado seja ajustado e harmonioso. Um simples bioquimismo material não possui condições de proporcionar uma fenomenologia inteligente. O que se passa nos mecanismos genéticos é da mais expressiva precisão, de modo a traduzir uma meta a ser alcançada.

Por aí, desde logo, percebe-se que, se o orientador ou impulsionador apresentar defeitos, estes, naturalmente, alcançarão os campos a que estão coligados, perturbando o processo em questão. Porém, nada havendo no campo orientador, constituído de energias específicas e desconhecidas, como, também, no campo material onde se instalam os genes, os mecanismos se farão com precisão, obedecendo as respectivas influências que trazem em sua organização.

A molécula cromossômica que aloja os genes é o conhecido ADN (ácido desoxirribonucleico) e o campo energético que lhe influencia, orienta e conduz é o campo-organizador-da-forma. Este, de há muito era conhecido da filosofia e seitas religiosas orientais. No Egito foi denominado de Ka e na Grécia de Eidolon. Paracelso intitulou essa organização de Campo Sidéreo; outras tantas denominações, amiúde, se tem mostrado. Em meados do século XIX, Allan Kardec teve a feliz idéia de criar o termo perispírito na designação de tal campo, hoje de voz corrente na maioria dos estudos e experiências paranormais.

Assim, os cromossomos com seus genes estariam como que mergulhados no mundo energético perispiritual sofrendo sua direta influência e que, por sua vez, está submetido à orientação da zona mais nobre e desconhecida do psiquismo, a zona do inconsciente ou espiritual.

Diante de tais fatos, os genes, em última análise, seriam influenciados pelas fontes ou raízes espirituais, tendo na camada perispiritual um campo adaptador, autêntico filtro energético, de modo a permitir que a "telegrafia espiritual" possa mostrar-se nos campos materiais e dentro das possibilidades dos mesmos. Daí deduzir-se que o conteúdo psíquico estaria sob influência da região central da psique, o Grande Eu, a Luz Espiritual.

A fim de que o campo perispiritual possa adaptar-se aos genes, bem claro que seria necessário uma afinidade entre os mesmos. Diante de tal conceituação, poderíamos dizer que os genes, alojados na molécula do ADN, não seriam propriamente a sua organização atômico-molecular, mas uma zona específica, que por aí se instale, cujas condições possam atender as duas partes, a energética e a material. Não seriam os genes um campo energético bastante condensado com afinidades pela matéria, mas, ao mesmo tempo, coligado às terminações perispirituais e com que perdendo-se e fundindo-se nos vórtices atômicos do ADN? Isso porque os genes, em sua estruturação, são desconhecidos; conhecemos, sim, zonas nos cromossomos, sob forma de listras, tidas como sendo os próprios genes, a representarem as unidades biológicas.

É nessa zona dos genes que os pesquisadores, os geneticistas, têm apresentado valorosos trabalhos e descobertas que estão ampliando os campos da ciência. Ao decifrar o denominado mapa genético, se vão localizando os campos dos genes e suas respectivas responsabilidades no processo da herança. Os pesquisadores têm utilizado animais de variada natureza a fim de atender seus intentos científicos. Com as trocas e substituições nas fitas cromossomiais, vão observando os efeitos e atinando com a topografia e situação dos genes, demarcando as zonas de herança, de modo a decifrar, cada vez mais, o mapa genético. Muitos genes já foram avaliados e decifrados. Segundo informações científicas, somente na década de 20 do próximo século conheceríamos em detalhes o total segredo da herança física que, por natural seqüência, abriria o campo ainda desconhecido da herança espiritual com seus mecanismos experienciais, renovatórios e de ampliação evolutiva proporcionados pelas reencarnações.

Ao lado de tudo isso, os pesquisadores acreditam que, com o mapeamento dos genes cromossomiais, poderemos corrigir muitas doenças congênitas pelo conhecimento de sua origem e tendências nos processos de herança. Acrescentamos que essas posições serão alcançadas, com maior precisão, quando conhecermos os mecanismos da influência perispiritual, ou campo organizador, na zona material, e suas adequadas conseqüências no sistema imunológico do ser.

A própria ciência já bem situou o processo da herança física. Sabemos que na espécie humana, especificamente, por mais semelhantes sejam os indivíduos no processo de herança (alimentação, educação, lar, condições ambientais), não existe um indivíduo igual ao outro. Mesmo nos gêmeos univitelinos, onde as condições de herança física são idênticas, inclusive indivíduos do mesmo sexo, mesmo assim o biótipo psicológico é diferente. Existe algo bem diverso que nos chama atenção, mostrando existir no processo de herança algo muito importante além da semelhança física. Herdamos semelhanças físicas, até mesmo alguns direcionamentos no sentido de orientação da vida em formação, mas nunca as tendências e o processo afetivo-íntimo, enfim o caráter. Os pais nos proporcionam o corpo, jamais a alma.

Existem, perante o rosário reencarnatório, aquisições das múltiplas e incontáveis experiências que permitirão, nos processos da herança física, aqui e ali, possam revelar-se com a aquisição de novos genes. Estes devem, a pouco e pouco, mostrar-se em futuras reencarnações, atados a tal mecanismo. Se a herança fosse exclusivamente física, com limites nos genes existentes, ficaríamos num ciclo vicioso sem avanço e a evolução seria a conseqüência de um processo fixista, atualmente sem qualquer condição de defesa. Tudo seria adrede preparado, do mais simples animal até o hominal! Como não pode existir privilégios no concerto universal, o processo renovador das reencarnações será a única explicação lógica na compreensão de tal mister. O princípio inteligente ou espiritual, até alcançar a espécie humana, foi caldeado nos reinos da natureza, em intermináveis épocas, com experiências e retificações de todos os matizes. Em cada reencarnação, o espírito além de proporcionar o nascimento de novos genes, embora muito lento nas jornadas corpóreas, como fixação de experiências, também se mostra em tendências, no caráter e na mais íntima condição da energia criativa que é o amor. Cada ser mostra a condição do amor, com todas as suas vertentes, a seu próprio modo e na posição evolutiva em que se encontra.

Já foram anotados, nas fitas cromossômicas, além dos genes, pequenos pontos que foram denominados de micro-satélites e que ousaríamos dizer como sendo os responsáveis pela herança dos caracteres adquiridos de colorido espiritual (gravura 2). No sentido espiritual, J. B. Lamarck teria razão quando fez, em 1809, a grande afirmativa da existência da herança dos caracteres adquiridos, que não podem ser computados na cadeia física como sendo direta conseqüência de pai para filho. Quem sabe Lamarck não teve a intuição do mecanismo em pauta e focalizou-o na herança física? O pensamento de Lamarck necessita de revisão, mesmo porque seus estudos permitiram muitos esclarecimentos no interessante trabalho de C. Darwin. A herança adquirida se passou na dimensão espiritual.

Não pode deixar de existir a herança espiritual que cresce e avança às expensas das experiências corpóreas, embora deixando pequenos e complicados rastros de difícil interpretação. Somente os dias vindouros, em próximas décadas, poderão decifrar os complexos fenômenos de hoje, quando os ritmos perispirituais forem registrados, analisados e bem interpretados, tal qual acontece com os ritmos cerebrais, anotados pelo eletroencefalograma.

Assim, de futuro, o psiquismo oferecerá novas condições de pesquisa científica, em estudos mais bem calcados num espiritualismo sadio e melhor compreendido que, com suas sondas, irá em busca da definição das raízes do espírito.

 

O que diz Mahatma Gandhi sobre o esquecimento

Mário Boari Tamassia

No livro "Viva sem Morte", o autor Nils O. Jacobson, destacada figura da psiquiatria e parapsicologia, na Europa, ao fazer um balanço sobre a crença na Reencarnação, verifica que as maiores objeções apresentadas pelos seus correspondentes, se referem ao fato de que "não nos lembramos de quem fomos . E realmente os argumentos, às vezes até mesmo aguerridos dos que têm obrigação religiosa ou profissional de defender a tese anti-reencarnacionista, são sempre ligados ao fato de que estaríamos passando por agruras cujas causas desconhecemos e que, portanto, estaríamos sendo punidos, sem que nos dessem a conhecer as razões do procedimento de Deus-Juiz em relação a cada um de nós.

No entanto, encontro, de certo modo, no Mahatma Gandhi, uma proposta que seria válida a todas as questões que se levantam no tocante a este assunto. Em "Cartas a um Discípulo", ele diz: "Não conservar a memória das reencarnações anteriores é sinal da bondade da natureza para conosco. Que bem receberíamos por conhecer os particulares dos inúmeros nascimentos que já tivemos? Se fôssemos obrigados a suportar tão terrível carga de memória ao longo do nosso caminho, a vida se tornaria um fardo muito pesado".

O esquecimento, pois, de nossas vidas passadas não representa um mal, um procedimento draconiano do Governo Divino, mas, pelo contrário, a aplicação da mais profunda sabedoria. Conforme a alma se eleve e se desembarace do seu excessivo personalismo, então sim, ela poderá ter capacidade de num relance conhecer ou ter consciência de toda ou parte da vida pregressa: aqui foi potentado e com a riqueza abusou dos pobres e vilipendiou-lhes os lares, conspurcou-os, desta ou daquela maneira; ali adiante teve de se humilhar, experimentando a dura vida de servo de mau senhor. Num momento, quis enganar a vida, fugindo dela e se acomodando em atitude contemplativa monacal: noutra meteu-se atrás da fortuna, feito louco, perdendo totalmente o equilíbrio.

Como costumava nos dizer um Guia da nossa intimidade, sem que nisso pretendesse ser original: "Deus é aquele credor compassivo e Justo que não nos tira a responsabilidade para que não nos habituemos a ser marotos, mas, abre-nos novo crédito concedendo-nos novo nome, sobrenome, família, lugar, onde não nos conheçam e não nos cobrem coisa alguma. Pelo contrário, nesse novo estabelecimento concedido apresentamo-nos na abertura do negócio com cara de querubim".

O curioso é que em revistas, jornais, colunas católicas, os teólogos hábeis que dão respostas, batem na mesma tecla, a que alude Nils O. Jacobson, dizendo que "Deus seria cruel se nos desse vida de provação, sofrimentos indescritíveis, a loucura, a paralisia, o câncer, sem nos mostrar afinal qual teria sido a nossa dívida". No entanto, vejam só, acham natural, até mesmo bacana, na opinião do Cardeal Belarmino, que 99,99% dos filhos de Deus sejam mandados por Ele para o Inferno, onde arderão nas chamas do Fogo. não um espaço de tempo, mas por toda a Eternidade. Eternidade?!

Fonte: "A Caminho da Luz"

 

Por que existe reencarnação?

Jorge Carmona

Imagine você vivendo na época da escravidão, sendo de cor branca, dono de uma Senzala, praticando maldades contra negros, seus escravos. Imagine depois, que você morre (desencarna), após tanta maldade.

E agora ? Irá para o INFERNO ETERNO, ou - como um aluno que repete o ano escolar - irá reencarnar, nascendo de novo (conforme afirma Cristo, em João, 3:3), em situações diferentes, para o aprimoramento moral? Imagine então, que você (seu espírito) renasce (reencarna), porém, nascendo, agora, uma criança negra, na mesma Senzala a qual antes era dono. Agora, sendo negro, esquecido do passado, inicia sua vida de sofrimentos, apanhando, inclusive, de seus ex-empregados, sentindo a dor da discriminação e das chibatadas, reclamando de Deus por ter nascido negro. Após várias desencarnações e reencarnações, sempre nascendo negro, você passa a amar os negros pois vai se acostumando com eles, possuindo pais e filhos negros, casando com negros, vivendo seus costumes, etc...

Agora sim. Você novamente morre (desencarna), e pode até reencarnar como branco, pois já aprendeu a amar os negros. E isto acontece, ou seja, você nasce de novo, numa família de brancos, onde seu pai maltrata negros, pois é dono de uma Senzala. Você, agora, mesmo sendo branco, luta a favor dos negros, indo contra seu próprio pai.

Você já está moralmente evoluído, com fins a praticar, inclusive, as ações que Cristo (em Mateus, 25;31/45) menciona ser a condição essencial para viver em um Plano Espiritual Superior, que somente os bons conseguem.

O exemplo acima, talvez o leve a entender a importância de várias vidas, para nossa evolução moral, ora sendo branco, ora negro, ora rico, ora pobre, etc.. Segundo a Bíblia (Hebreus, 9;27), é dado aos homens morrer uma só vez. Contudo, o espírito que habita o homem não morre nenhuma vez. É este espírito imortal que reencarna em corpo de homem, quantas vezes necessário para sua evolução moral. Por exemplo, Cristo afirma a Nicodemos (João, 3;1/12) ser necessário nascer de novo. Nicodemos, não entendendo como poderia o homem (a carne) nascer novamente, pergunta: "como pode um homem nascer, sendo velho ? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?" Cristo responde: "o que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito." Veja o leitor, que a carne, não pode nascer novamente, mas o espírito pode. O ESPÍRITO NUNCA MORRE.

É, praticamente, impossível, em tão curto espaço, explicar reencarnação. Contudo, quem se aprofunda no caso, obtém respostas para várias perguntas, tais como: por que crianças (que segundo algumas Doutrinas, não possuem pecados) nascem aleijadas, cegas, surdas, mudas, com câncer, etc.? Propósito de Deus? Deus possui propósito bons para alguns, e ruins para outros ? Na verdade, o Planeta Terra e o nosso corpo, são as ferramentas que possuímos para nossa evolução moral, pois DEUS É JUSTO, DEUS É BOM, DEUS É AMOR.

(Tribuna do Cricaré)

 

Puccini voltou Puccini!

Giovanni Scognamillo

"Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre. Tal é a Lei - inscrição no túmulo de Allan Kardec, no cemitério do "Pere-Lachaise", em Paris.

Relendo a biografia do Maestro Giacorno Puccini, numa antiga edição de "Fratelli Fabbri Editori", de Milão, Itália, descobrimos algo muito interessante e curioso. Vejamos.

O Maestro Giacomo Puccini nasceu na cidade italiana de Lucca, na Toscaria, em 22 ele dezembro de 1858, e desencarnou em Bruxelas, Bélgica, em 29 de novembro de 1924, com a idade de 66 anos (menos 22 dias), sendo filho de músicos e educado, naturalmente, para seguir a mesma carreira.

Atentemos agora para este significativo detalhe. O primeiro dos Puccini a se dedicar inteiramente à Música chamava-se (não nos assustemos!) exatamente Giacomo Puccini, nascido na mesma cidade de Lucca, em 1708, e desencarnando em 1781, ainda em Lucca, onde se dedicara a compor sinfonias e música sacra para a catedral, sei se preocupar em , compor ópera, que era a "coqueluche" da época.

Um dia, indagado por um amigo e admirador o porquê não compunha óperas, tendo toda a facilidade para isto, respondeu ele com expressiva frase, frase que retratava a sua certeza da continuidade da vida e da reencarnação do Espírito. Mas acompanhemos o diálogo:

- Então, Maestro, quando teremos a alegria de assistir e aplaudir uma ópera com a sua assinatura?

Resposta textual do "primeiro" Maestro Giacorno Puccini, também consagrado compositor, naquela tarde primaveril do ano de 1778, três anos antes do seu retorno á Espiritualidade:

- Se algum dia retornar a este mundo, prometo atender ao seu pedido, mesmo que você não aplauda a minha ópera.

E, com um largo sorriso, enquanto abraçava o amigo, indaga:

- Voltaremos mesmo?

Façamos as contas... O trisavô de Giacomo Puccini desencarnou em 1781 e o "nosso" Giacorno Puccini nasceu em 1858, com um espaço de tempo de 77 anos, mais do que suficiente para o Espírito programar uma nova existência na vida física. E escolher, como fez, a mesma família para renascer e dar continuidade ao trabalho interrompido, vindo, porém, tão somente para compor óperas, como prometera 80 anos antes...

E, por coincidência (?), recebe o mesmo nome que tivera há 150 anos, contando-se da data do seu nascimento até 1858.

Pesquisadores e estudiosos das composições da família Puccini encontraram "una verosimiglianza tra uno e I'altro a dire che il Puccini del ottocento riprodurre il Puccini del settecento, con piccole variabile" (Uma verossimilhança existe entre um e outro, a tal ponto que o Puccini dos anos oitocentos reproduz o Puccini dos anos setecentos, com pequenas variações).

Podemos concluir, de nossa parte, que, sem dúvida alguma, o trisavô renasceu como trineto 77 anos depois, em resposta à sua própria indagação:

- Voltaremos mesmo?

“Onde o bem permanece, Deus está”
Escada de Luz – Emmanuel

 

Reencarnação

Albino A. C. de Novaes

Elizabeth Clare Prophet dá um tratamento todo especial à reencarnação - pouco comum às pessoas que emergem do movimento evangelista. Ela considera a reencarnação como sendo o ELO PERDIDO DO CRISTIANISMO e dedica seus escritos àqueles seguidores de Cristo que estão preparados para beber o cálice completo de suas mensagens. É a oportunidade de aprender com os nossos erros na Terra e buscar a Deus. É a chave para compreendermos a jornada da nossa alma. Ela empreende uma verdadeira jornada, e convida outros a seguir-lhe os passos, para descobrir como a reencarnação se coaduna com os antigos conceitos cristãos como o batismo, a ressurreição e o reino de Deus. No mergulho voraz na história, explica como os Patriarcas da Igreja suprimiram a reencarnação da teologia cristã e por que a reencarnação pode resolver muitos dos conflitos que atualmente afligem a cristandade.

Prophet, sem ser espírita, consegue ver a reencarnação e o Cristianismo caminhando juntos, não consegue separar um do outro. Existe um abismo profundo entre a necessidade espiritual das pessoas e o que as igrejas oferecem. A abordagem da VIDA no Cristianismo que herdamos das sucessivas mutilações do movimento dos SEGUIDORES DO CAMINHO, é extremamente árida. “ Se realmente temos apenas uma oportunidade para determinar se a nossa eternidade será passada no céu ou no inferno, o que acontece àquele cujas vidas são encurtadas pela guerra ou pelo câncer? Se Jesus pode simplesmente apagar todos os nossos erros passados, qual é então o sentido das nossas ações na Terra?” .

“Questões como estas levaram-me a uma nova avaliação do misticismo, que diz que a salvação é uma experiência interior da Deus e não um evento de fim de mundo. Percebi que a encarnação oferece uma alternativa satisfatória para o Cristianismo ortodoxo” (Reencarnação – E. C. Prophet – Nova Era). Por isso , ela decide trabalhar suas idéias sobre Jesus, sobre a reencarnação e o significado intrínseco do Cristianismo no contexto das novas pesquisas sobre o Jesus histórico. Nossos irmãos evangélicos apresentam um Jesus místico sem admitir que ele tenha ensinado algo sobre a reencarnação, um Jesus-Deus, com o poder de dispor sobre a vida e o destino das almas. Quando lemos mais atentamente o Velho Testamento e o Novo Testamento, não obstante as mutilações produzidas no texto, encontramos fortes evidências da reencarnação tanto na tradição do judaísmo como entre os seguidores do Caminho.

“Uma vez que a alma não pode ser encontrada sem o corpo e todavia não é corpo, pode estar neste ou naquele corpo e passar de corpo em corpo” – são palavras ditas por Giordano Bruno durante seu dramático julgamento em Veneza, 1592. É Elizabeth que nos conta um pouco da história envolvente deste mártir.

“Tochas acesas iluminavam a pálida manhã de fevereiro. Os espectadores acotovelavam-se para ver a procissão. Aqueles oitocentos metros seriam percorridos lentamente desde a Torre Nona, onde o prisioneiro estivera encarcerado, até o Campo das Flores, uma praça ampla onde seria executado.

O filósofo de 52 anos caminhou vagarosamente sobre as pedras de calcário que pavimentavam as estradas de Roma. Descalço e acorrentado pelo pescoço, vestia um lençol branco ornamentado com cruzes e salpicado de demônios e chamas vermelhas.

Os monges da Fraternidade de São João, o Decapitado, caminhavam a seu lado, incitando-o ao arrependimento. De tempos a tempos, aproximavam o crucifixo dos seus lábios, dando-lhe a oportunidade de salvar-se. Peregrinos vindos de toda a Europa amontoavam-se na praça. Atraídos a Roma pelas celebrações do jubileu de 1600 que a Igreja faria ao longo do ano, ansiavam por ver um famoso herético morrer na fogueira. Alguns cuspiam e zombavam, enquanto os guardas despiam o pequeno e magro homem e o atavam a uma estaca de ferro circundada por feixes de lenha. Depois de o homem ter-se recusado mais uma vez a beijar a cruz, amordaçaram-no e, em seguida, empilharam mais lenha misturada com palha em volta da estaca, cobrindo-o até o queixo. Os monges cantavam ladainhas enquanto os oficiais de Roma lhe davam uma última oportunidade para retratar-se. Em seguida, atacaram fogo à pira.

Enquanto as labaredas chamuscavam-lhe a barba e os seus pulmões enchiam-se de fumaça, teria Giordano Bruno lamentado o caminho que o conduzira à fogueira? Enquanto a pele estalava e o sangue fervia nas chamas, teria ele se interrogado se essa dor se prolongaria por toda a eternidade no inferno? Ou manteve-se firme no seu sonho de ver outros sóis, inúmeros mundos celestiais e de viajar "através do infinito"?

A morte na figueira era menos freqüente em 1600 do que nos tempos medievais. Apenas vinte e cinco hereges foram queimados em Roma durante todo o século XVI. Como Giordano Bruno, que fora monge dominicano e, durante muitos anos, filósofo errante, acabou recebendo a pena máxima da Igreja?

Bruno foi morto na fogueira devido aos seus conceitos heréticos, entre eles a idéia de que a alma humana poderia, após a morte, retornar à Terra num corpo diferente, e até continuar a sua evolução em muitos outros mundos além da Terra. Também defendia uma idéia que, muitas vezes, caminha lado a lado com a da reencarnação - a idéia de que o homem pode unir-se a Deus ao longo da jornada da sua alma na Terra. Para ele, a religião era o processo pelo qual a luz divina "exerce domínio sobre a alma, eleva-a e converte-a a Deus. Bruno acreditava que não era necessário esperar pelo fim do mundo para que a união divina ocorresse. Ela pode acontecer hoje mesmo.

Na visão de Bruno sobre o potencial humano podemos encontrar a semente da causa que levou o Cristianismo a rejeitar a reencarnação: sua visão abalava a autoridade da Igreja. De acordo com o sistema de Bruno, a salvação não dependia do relacionamento do indivíduo com a Igreja, mas sim do seu relacionamento direto com Deus. E foi tanto neste ponto como no da reencarnação que ele entrou em conflito com a Inquisição.

Bruno havia sido um constante incômodo para a Igreja praticamente desde o momento em que fora ordenado padre dominicano em Nápoles, aos 24 anos. Filho de um soldado de carreira, não se adaptava bem à vida monástica. Era um pensador e leitor voraz, com um temperamento irascível e propensão para irritar as autoridades.

Quando era um jovem monge, Bruno tinha idéias próprias. Defendia Ano, o herege do século IV, de quem voltaremos a falar mais tarde, e leu as obras proibidas de Erasmo, filósofo e humanista holandês. Quando a sua cópia clandestina do livro foi descoberta num anexo do mosteiro, Bruno viu-se em apuros. Devido às suas heresias, os oficiais da Igreja em Nápoles abriram um processo contra ele, o que o levou a fugir da Itália em 1 578.

Passou os quatorze anos seguintes perambulando pela França, Inglaterra, Alemanha e Suíça. Apaixonado, intenso e sarcástico, Bruno foi forçado a fugir várias vezes depois de causar grande celeuma com os seus comentários e escritos inflamados. Atacou os membros da Universidade de Oxford por apoiarem Aristóteles e ridicularizou os acadêmicos franceses. Foi julgado em Genebra por ter apontado "erros numa palestra de um teólogo calvinista”.

Tanto a igreja católica como a protestante o excomungaram (embora, provavelmente ele nunca tenha se tornado protestante). Porém, o seu sonho era reconciliar católicos e protestantes através da filosofia. Discordava das suas teologias e se autodenominava "um cidadão e servo do mundo, um filho do Pai Sol e da Mãe Terra .

Bruno foi um dos homens mais brilhantes do seu tempo. Instruiu o rei francês Henrique III na arte de memorizar ensinou filosofia na Universidade de Toulouse e freqüentou o círculo literário que rodeava a rainha da Inglaterra, Elizabeth 1. Os seus escritos prolíficos e incomuns conquistaram um número pequeno, mas devotado de adeptos.

Ele era muito avançado ou muito atrasado para o seu tempo. Embora Bruno não fosse um cientista, suas idéias sobre o universo prenunciaram algumas das descobertas dos físicos do século XX.

No século XIX, os intelectuais reverenciaram-no como um mártir da pesquisa científica e da liberdade de pensamento, principalmente por ter defendido a teoria de Copérnico sobre a rotação da Terra em torno do Sol. Por isso, os inimigos dos seguidores de Copérnico também se voltaram contra Bruno - um dos seus inquisidores, o cardeal Robert Beilarmine, interrogaria também Galileu a respeito de suas observações sobre a rotação da Terra em torno do Sol. Contudo, Bruno não compartilhava da visão científica que Copérnico tinha do mundo.

Foram o misticismo e a filosofia que deram a Bruno a sua visão sobre a infinidade de mundos. Bruno concordava com Copérnico que a Terra poderia não ser o centro do universo, mas, de acordo com a sua perspectiva, o Sol também não o era. Ele acreditava que a Terra era apenas um mundo entre um número infinito de mundos.

Numa época em que a maioria das pessoas pensava que as estrelas estavam permanentemente fixas no céu, Bruno enumerou as suas crenças revolucionárias: "Existe apenas um espaço único, uma imensidão única e vasta a que podemos chamar Vácuo; nele existe uma infinidade de mundos como este em que vivemos e nos desenvolvemos. Consideramos este espaço infinito; nele existem mundos infinitos semelhantes ao nosso.

Para Bruno, o conceito [da existência] de mundos infinitos abriu as portas para o conceito de infinitas possibilidades humanas. Se existem mundos infinitos, então por que não poderá haver infinitas oportunidades para explorá-los? Uma pessoa, quer esteja dentro ou fora do corpo, "nunca está completa , escreveu Bruno. Ela tem a oportunidade de experimentar a vida de muitas formas diferentes. "Assim como existe à nossa volta um espaço infinito, também a potencialidade, capacidade, receptividade, maleabilidade e matéria são infinitas.

 

Reencarnação e Desigualdades

Deolindo Amorim
(1906-1984).

Como política preventiva, que significa simplesmente atacar o mal ainda na raiz, antes que seja tarde, o programa espírita sempre se esforçou no trabalho de assistência e educação, visando à modificação do ambiente moral e social, até mesmo nos recantos mais sórdidos. Prevenir, portanto, para que a pobreza aviltada não chegue a uma convulsão incontida.

Se é óbvio que não podemos tratar somente do corpo, mas também, principalmente, do espírito, é óbvio ao mesmo tempo que não devemos relaxar os deveres em relação às necessidades do corpo. Se o espírito precisa de instrumento humano para a comunicação de seus dons, logicamente um corpo doente, abatido pela deficiência alimentar ou depauperado pelo esgotamento, não pode ser bom veículo por causa do desmantelo orgânico.

E já se sabe que há repercussão recíproca entre o orgânico e o psíquico. Mas a Doutrina adverte, a certa altura, que às vezes uma pessoa pode nascer em "posição difícil e embaraçosa, precisamente para ser obrigada a procurar vencer as dificuldades, nunca, porém, deve deixar a vida correr à revelia, o que seria mais preguiça do que virtude." (O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. V, nº 26). Este ponto, sem dúvida alguma, sugere reflexão sobre o problema das desigualdades sociais à luz da reencarnação.

Seja, porém, como for, a despeito dos "altos e baixos" dos compromissos reencarnatórios na vida social, não nos compete fazer julgamento, mas temos o dever de trabalhar pela melhoria do homem. E com fazê-lo sem ir ao encontro dos focos de revolta e decadência? Disse muito bem o dr. João Pompílio de Almeida Filho:

"Devemos ir ao encontro dos necessitados, para dar-lhes o que precisam, moral e materialmente, antes que eles venham até nós arrancar o que lhes falta, e destruir as riquezas, que são nossas, mas exigem emprego inteligente, com distribuição de parte em favor dos que têm fome, sofrem frio, vivem envilecidos nos vícios, constituindo verdadeiro peso-morto à margem da sociedade". Tese oficial - 1° Congresso Espírita do Rio Grande do Sul-1945.

Realmente. Tais palavras estão inteiramente abonadas pela Doutrina Espírita. A esmola é uma doença da sociedade. Ainda não temos uma consciência de solidariedade capaz de suprir as falhas no rastro da pobreza extrema e da invalidez relegada.

Mas a palavra esmola não teria mais razão de ser, dentro de uma organização social mais espiritualizada ou mais aproximada do Evangelho. Em vez de esmola, diríamos acertadamente dever. Se é verdade que os males sociais, em grande parte, têm relação com o nosso passado e, por isso, também é verdade que cabe à criatura humana fazer a sua parte, a fim de que ninguém seja privado pelo menos do essencial à subsistência nos flancos mais ínfimos da sociedade.

Melhoramento social engloba estabilidade e libertação do medo, mas não significa que todos tenham de ser ricos ou venham a possuir automóvel como requinte de bem-estar; mas todos têm o mesmo direito a uma condição de vida condizente com a dignidade humana, por mais frisante que seja a desigualdade dos níveis sociais.

O Espiritismo não propõe a eliminação total das desigualdades, notadamente no estágio evolutivo em que nos encontramos, pois a sociedade é toda diversificada, com ricos e pobres, inteligentes e parvos, empreendedores e preguiçosos, progressistas e retrógrados, homens de bem e homens trapaceiros, por exemplo. Sem pensarmos, porém, na utopia de um mundo sem falhas e disparidades, como se fosse um paraíso terrestre, podemos e devemos, contudo, dar o quinhão que a Doutrina Espírita nos atribui, porque temos a nossa parte de responsabilidade no conjunto:

"Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na Justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação.

Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa vontade de alguns". (O Livro dos Espíritos-Parte 3a, Cap. XI).

Como se vê, a Doutrina Espírita não absorve a idéia de fatalismo como explicação genérica dos desacertos sociais, nem a tese da reencarnação levaria a tanto.

O fatalismo social seria a condenação de pessoas ou grupos a uma vida de privações indefinidamente, como se fossem todos marcados pela adversidade inarredável. Não. Nesta ordem de considerações o que a Doutrina afirma nada tem de radical: os males deste mundo são de duas ordens, isto é, os que têm vínculos com o passado, por causa de atos praticados noutra existência, e os que resultam de erros e abusos cometidos no presente. Nem tudo, portanto, se deve lançar na conta do passado.

A incapacidade ou a falta de escrúpulos na gestão administrativa, a negligência na vida pessoal e os desperdícios são responsáveis por muitas crises na sociedade. O cotidiano das ocorrências bem o demonstra. São fatos da presente existência. A interpretação unilateral seria muito inconveniente, pois os problemas exigem, antes de tudo, análise conjuntural. Dois fatores são indiscutivelmente relevantes neste passo: a educação e a reforma moral.

Na confluência dos problemas com que nos defrontamos, de um lado e do outro, não seria lógico pôr de lado a interferência de "situações cármicas". Há criaturas humanas sujeitas ao determinismo de uma existência difícil ou penosa em razão do que fizeram antes, não se sabe onde ou em que época.

Quem, suponhamos, explorou o suor alheio, quem abusou da riqueza ou da autoridade como verdadeiro tirano ou corruptor, certamente vai ter que lutar muito contra a humilhação, as aflições e os embaraços, ainda que trabalhe e estude com o maior afinco para subir pela inteligência e pela tenacidade.

Por mais que insista na tentativa de afastar os empecilhos, fica sempre na planície social, em posição apagada, obrigado a executar serviços inferiores, segundo os valores convencionais do nosso mundo.

Mais adiante se nos depara o varredor de rua, um homem que já fora lorde noutra época e, agora, volta à Terra para reeducar-se na humildade, pois impusera humilhação a muita gente quando estava na opulência.

Semelhantemente, não seria um despropósito admitir que antigo e orgulhoso aristocrata, daqueles que faziam pouco caso das pessoas que estivessem abaixo de sua camada social, venha a reencarnar com uma prova que o coloque nas calçadas como engraxate, vivendo à margem das multidões nos grandes centros urbanos. Noutros tempos, tinha criados sobre os quais tripudiava com arrogância e desumanidade.

O fato de engraxar sapato nada tem de deprimente para quem trabalha honestamente, tanto quanto a profissão de gari e outras profissões tidas como das mais modestas não aviltam as mãos honradas.

Se a sociedade precisa de médico para os problemas de saúde pública, também precisa do gari, ao mesmo tempo, porque sem a limpeza da cidade e a remoção dos detritos e entulhos transmissores de vermes e alimentadores de mosquitos os planos sanitários ficam seriamente comprometidos. O cavalheiro elegante, habituado a vestir-se com apuro, não pode fazer "boa figura" em público se não tiver quem lhe engraxe os sapatos no momento necessário. E quem vai fazê-lo?

O titular de um cargo importante? O funcionário de status mais elevado? Claro que não. É o engraxate, que se torna uma figura indispensável naquele momento.

Naturalmente é uma prova para o espírito que reencarna, como se diz, nas "classes baixas" da sociedade e não consegue projetar-se, porque tem débitos pesadíssimos de outras existências. O tipo inteligente ou espertalhão de outrora, muito afeito a espertezas com prejuízo de terceiros, depois de ter tantas e tantas vezes abusado da inteligência para fins inconfessáveis, sem jamais ter sido alcançado pela justiça terrena, não poderá reincorporar-se à mesma sociedade a que pertencera, mas agora reencarnado como servente ou trabalhador explorado, sempre em aperturas financeiras, lesado aqui, sacrificado ali? É uma contingência admissível no desenrolar do processo reencarnatório.

É a lei de causa e efeito.
A justiça nunca deixa de vir, cedo ou tarde, segundo as nossas noções de tempo. A reencarnação está na vida social, não tenhamos dúvida. Conseqüentemente, não se exclui em tudo e por tudo a reencarnação como um dos dados de avaliação nos desajustes sociais, ainda que não seja razoável generalizar, o que daria motivo a conclusões muito rígidas.

Se, de fato, há circunstâncias que se sobrepõem aos nossos desejos e meios de ação, porque decorrem de uma carga de responsabilidade individual ou coletiva de outras etapas da vida, há obstáculos e eventualidades que denunciam apenas a falta de vigilância ou a displicência nesta existência. E se o homem fosse conduzido pelo passado em todos os instantes não haveria mudança nem disposição do livre-arbítrio.

A vida seria uma sucessão fatal de episódios predeterminados.
Como corpo de idéias, baseado em fatos que comprovam a sobrevivência do espírito além do corpo e a sua comunicação com o nosso mundo, o Espiritismo também se interessa pelo ser humano na vida de conjunto, o que quer dizer: o homem na sociedade.

Sem a vida social ninguém teria como se desenvolver e renovar-se, pois a penitência reclusa, distante dos problemas, ignorando o sofrimento de seu próximo, sem dar sequer um pouco de si, não faz nenhum santo.

É na forja social realmente que adquirimos experiência e exercitamos as nossas possibilidades latentes, ora caindo, ora levantando, até que nos modifiquemos para melhor. Não sendo, portanto, fatalista, como já dissemos e fazemos questão de repetir, está bem claro que a Doutrina Espírita se preocupa com as desigualdades humanas, cujas causas devem ser atacadas para que se corrijam as injustiças.

Muitas chagas sociais já teriam sido extirpadas se houvesse mais sentimento de humanidade, mais respeito às razões éticas, tanto no plano do poder público quanto no plano particular. Há desigualdades que são o flagrante resultado do egoísmo, da ambição e, por fim, das incongruências de uma sociedade discriminativa na distribuição dos bens indispensáveis à vida humana.

Uma sociedade em que a vivência real do Cristianismo ainda está reduzida a compartimentos limitados, porque o Cristo é apenas objeto de devoções formais, sem ação nas profundezas do coração, a não ser das pessoas abnegadas, cujo espírito de sacrifício vem contrabalançar o peso da indiferença ou da frieza dominante.

Pois bem, é contra esse tipo de sociedade, ainda vigente, que invocamos os princípios espíritas, sem compromisso com ideologias e facções políticas.

Não estamos defendendo a igualdade maciça ou mecânica, pois seria uma pretensão visionária. Como igualar os elementos de um aglomerado humano composto de criaturas desiguais?

Sim, desiguais espiritualmente, desiguais no temperamento, na formação moral, tanto quanto desiguais intelectualmente, etnicamente, psiquicamente. Neste ponto, exatamente, a noção de igualdade, tão mal situada nas discussões doutrinárias ou políticas, tem dois sentidos muito naturais: somos iguais pela natureza e pela origem, porque somos criaturas de Deus e pertencemos à espécie humana, mas não somos iguais nas aptidões, no caráter, na educação, na cultura, nas decisões do livre-arbítrio.

Teoricamente, "todos são iguais perante a lei". Seria, de fato, o ideal de uma sociedade bem equilibrada. Como seres humanos, todos têm o direito a uma vida normal, uma vez que todos têm aspirações, compromissos e deveres compatíveis com as necessidades biológicas e espirituais. Necessidades inerentes à natureza humana e, por isso mesmo, não se condicionam, pelas categorias sociais.

No entanto, há muitos casos em que animais de estimação, como cavalos, cachorros e gatos são mais bem tratados do que as próprias crianças que ficam em volta desses animais. Que os animais sejam bem cuidados e defendidos, mas que não se despreze o ser humano. A proteção do reino animal é uma prova de adiantamento de uma civilização.

É válido indiscutivelmente o conceito de igualdade na acepção de respeito aos direitos comuns, os direitos intrínsecos da pessoa humana em qualquer nível social: preservação da integridade física, oportunidades para estudar e melhorar-se, liberdade de escolha de seus objetivos profissionais, intelectuais e religiosos. Igualdade, portanto, nos direitos essenciais.

Nosso conceito de igualdade, porém, não vai ao irrealismo de imaginar uma sociedade em que todos tenham o mesmo "trem de vida", as mesmas regalias, as mesmas qualificações sociais. Na luta pela vida, sob a pressão das competições, sempre se defrontam capacidades diferentes, com interesses conflitantes.

O emprego do livre arbítrio, por sua vez, está sujeito às variações circunstanciais nos empreendimentos e nos modos de proceder ou de julgar as coisas. Ao lado, por exemplo, dos que querem vencer e, por isso, estudam, trabalham, enfrentam todos os reveses, há muitos que não querem sair da comodidade, não se esforçam para mudar de posição, porque preferem ficar onde estão, cultivando a displicência como regra de vida.

Ora, o indivíduo operoso e realizador, porque leva a vida a sério não se confunde com o preguiçoso, que se anula por si mesmo no grupo social.

Figuremos de passagem o caso de dois irmãos, cujo pai tenha dado oportunidade ou chances, como se diz correntemente, tanto a este como àquele. O primeiro trabalhou, não esbanjou o tempo, preparou-se para ocupar lugares mais altos, enquanto o segundo deixou tudo correr à vontade, fazendo suas farras, abusando das energias da mocidade.

Mais tarde, na "idade madura", quando as ilusões já estão desfeitas, um irmão está em boa situação, com estabilidade, mas o outro, completamente despreparado, desgastado pelas extravagâncias, está de mãos vazias, nulificado na planície social. De quem a culpa? ...

Iguais na origem, no lar de onde saíram, mas visivelmente desiguais na  organização/ temperamental, na vontade, nas inclinações.

A sociedade, em suma, é um somatório das desigualdades individuais. Seria então irrealizável a igualdade em termos absolutos. A reencarnação não invalida totalmente o livre-arbítrio. Justamente por isso, se estamos encarando a questão à luz do pensamento espírita, precisamos ter uma visão mais elástica.

De um lado, há quem afirme, por exemplo, que as desigualdades são problemas sociais e, portanto, "nada têm a ver com a reencarnação"; do outro lado, com o mesmo acento categórico, afirma-se que as desigualdades sociais são "conseqüências de nosso passado", e, assim, seria inútil qualquer tentativa de modificação.

Então, a única solução é "deixar como está". São entendimentos contrários à verdadeira índole da Doutrina Espírita, de um lado e do outro. Nossa posição há-de ser a do meio termo, nunca das definições intransigentes diante da realidade social.

Há, de fato, situações que inferiorizam o indivíduo socialmente, durante uma reencarnação ou mais, por causa da rede expiatória de envolvimentos que o acompanham do passado. Se não cabem no vocabulário espírita as palavras "azar", "má sorte", "capricho do destino" e outras, de uso comum, naturalmente há uma razão para que certos casos perdurem na sociedade, a despeito de todo o empenho que se faça para afastá-los ou atenuá-los.

Se a razão determinante do sofrimento ou das dificuldades não está nesta existência, teremos de encontrá-la no passado, sob a ação da lei moral de "causa e efeito", não pelo que os pais fizeram, mas pelo que o próprio culpado fez, não importa se neste ou noutro século.

Daí, porém, não se segue que todas as injustiças da Terra, efeitos da maldade, do engodo e do orgulho, por exemplo, sejam projeções do passado e, por isso, irremediáveis. Não. Até certo ponto, as deficiências sociais podem ser retificadas pelas atitudes reparadoras, pela luta contra o mal e pelas reações da parte mais sadia da sociedade.

E sempre houve, felizmente, em todos o grupos humanos, os elementos que não se contaminam, ainda que sejam obrigados a transitar pelas mesmas vielas por onde passam o ódio, a baixeza, o vício e a hipocrisia bem enroupada.

Os desafios são uma contingência desse estado de coisas, mas nem todas as ocorrências são fatais. A reparação das brechas que se abrem no organismo social exige a reforma periódica de suas estruturas. É um fenômeno inevitável, sem o que a sociedade não se adaptaria às mudanças impostas pelas necessidades.

Mas as reformas estruturais não eliminam a relevância da reforma moral, é ponto em que insistimos. São instâncias concomitantes.

A reforma de uma estrutura política, administrativa, religiosa ou educacional, por exemplo, pode ser muito inteligente, como boa base de sustentação, mas o funcionamento vai depender do homem. E se o homem não estiver preparado para conviver com os novos mecanismos, não apenas do ponto de vista intelectual ou técnico, mas também do ponto de vista moral, a melhor estrutura possível corre o risco da poluição, apesar das boas aparências. (...).

Que poderíamos esperar de uma casa muito bem traçada, muito bonita por fora, mas construída com material de péssima qualidade, sem alicerce seguro?

Então, embora as reformas de estruturas sejam necessárias, o equilíbrio social não dispensa a reforma moral de alto a baixo. Não se reformam costumes por leis ou pela força. Por mais bem intencionada e cuidadosa que seja uma lei, não está isenta de acomodações e distorções quando o homem quer usá-la em benefício de seus caprichos ou de conveniências ocultas.

A lei por si só não reforma a sociedade, pois os resíduos da imoralidade e das artimanhas sempre subsistem enquanto o homem, por sua vez, também não se modifica interiormente. Dentro dessa concepção, que está na ordem geral das idéias que até aqui explanamos, naturalmente nos defrontamos com o problema da propriedade.

Como já recordamos, o Espiritismo nos põe diante de uma concepção igualitária quanto aos direitos essenciais da criatura humana. Mas também estabelece a distinção entre a propriedade privada e a propriedade destinada ao uso geral.

Não usa terminologia jurídica nem muito menos formulações técnicas, mas divide, claramente, em termos técnicos, o bem comum, a que todos têm direito, e a fortuna de uso particular. Reconhecemos, por isso mesmo, a legitimidade da propriedade privada, obtida à custa do trabalho honesto, sem prejuízo de ninguém, como ensina a Doutrina.

E porventura não tem o direito de usufruir o resultado de seu esforço todo aquele que trabalha e sabe perseverar e economizar para conseguir um padrão de vida melhor? É lógico e humano. Isto não implica aceitar ou defender a transformação de recursos ou bens de uso geral em propriedade particular, para o enriquecimento de uns poucos em desfavor de muitos.

É o que significa, sem tirar nem pôr, a monopolização de um patrimônio coletivo. A propriedade e o capital são, portanto, valores relativos. Se a Doutrina Espírita não é contra o capital em si, coerentemente não apóia a designação depreciativa do dinheiro como o "vil metal".

O homem é o responsável pelos efeitos do capital, pois o dinheiro é apenas um instrumento que tanto pode servir de peça decisiva de um sistema de corrupção e violência.

O problema é com o ser humano, não é com o dinheiro, pois já sabemos muito bem que as melhores coisas deste mundo, quer materialmente, quer intelectualmente, podem ser usadas para o mal ou para o bem, na medida em que o livre-arbítrio pende para um lado ou para outro.
É o que aprendemos na Doutrina Espírita:

"Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, conforme se poderia inferir de certas palavras de Jesus interpretadas segundo a letra e não segundo o Espírito, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, idéia que repugna a razão". (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI).
Coincidentemente - apesar da grande distância no tempo e nas circunstâncias - o presidente Franklin Roosevelt, dos Estados Unidos, chefe de uma nação capitalista, dizia isto:

"Os capitalistas vorazes serão devorados pelo fogo que eles atearam... O capital é essencial; razoáveis compensações ao capital são essenciais; porém o mau uso dos poderes do capital ou a egoística supervisão de seu emprego precisa ter fim, ou o sistema capitalista se destruirá pelos seus próprios abusos".

Roosevelt estava então fomentando a política do New Deal, um plano econômico realmente revolucionário. Roosevelt defendia até veementemente a propriedade privada, mas ressalvou logo que a propriedade "não pode ser sujeita à manipulação desumana dos jogadores profissionais da bolsa ou dos conselhos de administração". O sentido humano da propriedade, em suma. São idéias que se encontram com as idéias espíritas:

"O que por meio do trabalho honesto, o homem junta, constitui legítima propriedade sua, que ele tem o direito de defender, porque a propriedade que resulta do trabalho é um direito natural, tão sagrado como o de trabalhar e viver". (O Livro dos Espíritos - capítulo XI, parte 3a, nº 882).

Outra coincidência relevante, sobretudo pelo espaço de tempo (90 anos) entre o pensamento espírita e o pensamento de um economista contemporâneo, o que demonstra, mais uma vez, as antecipações da Doutrina Espírita em relação a problemas de nosso tempo:

1947. H. Hansen: "Numa fase de industrialização e urbanização, o indivíduo não pode ordenar a sua vida isoladamente. Só conseguirá resolver os complexos problemas hodiernos mediante esforço conjugado e a ação cooperativa dos seus semelhantes".

1857. O Livro dos Espíritos: "O homem tem que progredir. Isolado não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No isolamento ele se embrutece e estiola".

No fundo, o que resulta de suas conceituações de origens tão diferentes é um apelo de ordem ética, porque contrário ao egoísmo, mas identificado com o espírito de solidariedade, que continua a ser uma força social das mais ponderáveis."Uma sociedade que se baseia na lei e na justiça de Deus - diz a Doutrina Espírita - deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação".

É o caso da esmola, que humilha e não resolve os problemas. Mas o assunto provoca reflexões no campo sócio-econômico, o que será objeto de próximo capítulo.

Texto publicado originalmente no livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos".
Edição USE, 1985. Primeira edição em 1948.

 

Reencarnação e o progresso espiritual

Carlos Toledo Rizzini

A escola espírita têm a evolução espiritual não somente como provada, mas também como necessidade lógica. O princípio espiritual, criado por Deus, desenvolve-se ao longo do tempo, aprimorando-se paulatinamente. Por isso são desiguais as idades dos espíritos e o curso da evolução (pelo respeito ao livre-arbítrio quando surge), há homens em todos os níveis de adiantamento, desde o selvagem até Einstein e Gandhi. Por hora, o estado moral do nosso planeta admite a heterogeneidade, que ‚ útil às lutas evolutivas. O progresso do espírito processa-se pela assimilação de experiências vividas e conhecimentos adquiridos. Esse material, em cada existência, é absorvido e manipulado pela mente consciente; mas, a sua integração no acervo acumulado no espírito dá-se pela transferência para o inconsciente (subconsciente), onde fica armazenado. Contudo, isso não o anula, porquanto, sempre que preciso, renasce como aptidão e vocação.

A evolução espiritual consiste na transferência dos novos elementos de progresso do consciente para o inconsciente e, nesta passagem, na transformação deles (conhecimentos e experiências) em faculdades - donde as aptidões e vocações, não raro bem manifestas em crianças.

A reencarnação atende à evolução, pois, sendo múltiplas as experiências e variados os conhecimentos, uma só vida material pouco representa na eternidade do espírito imortal! E os erros, os crimes, os vícios, a ignorância? Como repará-los, se o faltoso morre em falta? Vê-se logo que a reencarnação ‚ noção que se impõe tão pronto a mente se desembarace de certos entraves íntimos.

A assimilação de experiências vividas, acima explicada exige ampla cota de tempo e, daí, a volta à carne muitas vezes. Em inúmeras de suas vidas terrenas, o espírito comete erros naturais e violações intencionais, adquirindo dívidas perante a Lei de Deus, cuja justiça ‚ infalível e minuciosamente exata.

Numa vida subseqüente, terá de viver de modo a reparar ou diminuir tais débitos. E isto ‚ feito por meio da expiação (resgate) e da reparação. O princípio que assegura a continuidade das vidas de um Espírito unindo logicamente os fatos de uma aos da seguinte, é a chamada "Lei de Causa e Efeito", que declara o homem livre para agir, mas sujeito às conseqüências da ação: ele pode lançar causas, mas terá de reabsorver os efeitos danosos. Se numa vida espoliei outro e aproveitei o produto do furto, noutra passarei privações; se fiz alguém perder um braço, perderei um braço mais tarde em circunstâncias equivalentes. Estas experiências, assimiladas, darão ao Espírito esclarecimento para libertá-lo mais cedo ou mais tarde, do mau impulso levando-o a ser correto, e afastar-se do mal como meio de obter vantagem agora (e dores depois).

A reencarnação fornece a única explicação lógica e natural acerca das desigualdades sociais, que as pessoas consideram como injustiças, donde as lutas pela decantada "justiça social".

Afirmar o contrario seria dizer que Deus ‚ injusto !.

Retirado de "Evolução Para o Terceiro Milênio".

 

Reencarnação

Jorge Borges de Souza

A doutrina dos renascimentos, pregada pelo espiritismo, não é nova; encontra-se em todas as religiões e filosofias dos povos antigos.

Não é, pois uma criação do Espiritismo.

A ansiedade dessas idéias é mais uma prova importante a apresentar para assegurar a veracidade da doutrina. Os sábios e filósofos do passado estudaram e investigaram bastante o assunto de modo que ofereceram à presente geração um patrimônio considerável de princípios palingenésicos que encontraram abrigo em todos os corações ao tempo em que o orgulho, o interesse e os prejuízos eram esmagados pelo desejo de conhecer a verdade.

Passaram-se os séculos, passaram os homens e as suas obras, mas se transmitiu de geração em geração a idéia vencedora transferindo-se, por assim dizer, de uma filosofia a outra de uma a outra religião em virtude dos ensinos velados ou explícitos dos profetas e dos grandes Instrutores da humanidade.

Os Vedas considerados pelos brâmanes como o livro sagrado por excelência, em que se contem a ciência das ciências, ostentando o código, da ensinam a necessidade dos renascimentos, através de uma linguagem, ora simbólica, ora positiva. Os hinos védicos feitos há cerca de 60.000 anos, falam-nos na lei da reencarnação e afirmam que é preciso reencarnar e fazer o bem para estar “novos laços com outros corpos em outros mundos”.

Eduardo Schure no seu maravilhoso livro "Grandes iniciados", aludindo a Rama, a sua doutrina e aos seus contemporâneos, escreve: "Os poetas védicos não se preocupam somente com o destino da alma; inquietam-se também com sua origem. Onde nasceu a alma? Ela existe nos que vem para nós e regressa nos que regressam e tornam a voltar".

Eis, em duas palavras, a reencarnação, que desempenhara mais tarde, um papel capital no bramanismo e no budismo, entre os egípcios e os orficos na filosofia de Pitágoras e de Platão, o mistério dos mistérios, o arcano dos arcanos.

Nada mais simples e maior que a religião védica onde um profundo naturalismo se mistura a um espiritualismo transcendente. Se lermos os princípios do Bhagavadgita, maravilhoso fragmento interpolado no grande poema de Mahabharata, considerado pelos brâmanes um dos mais sagrados livros, veremos que eles se referem em muitas partes a essa doutrina. “Tu trazes em ti mesmo, - diz o Bhagavadgita - um amigo que desconheces”.

Porque Deus reside no Intimo de cada ser, mas poucos sabem, que o trazem lá. 0 homem que sacrifica os seus desejos, e as suas obras ao Ser de que procedem aos princípios de todas as cousas e por Quem o universo foi formado, obtém por esse sacrifício a perfeição. Aquele que encontra em si mesmo a sua felicidade, sua alegria e, em si mesmo também, a sua luz, identifica-se com Deus. "Ora; sabei-o, a alma, que encontrou Deus, libertou-se do renascimento e da morte, da velhice e da dor, e bebe a água da imortalidade".

Na verdade a alma que encontrar Deus, que se purificar, que as culminâncias de espiritualidade, não sofrerá mais a encarnação material. Liberar-se-á do aguilhão da morte, não mais envelhecerá por não ter mais corpo físico, já não sentirá a dor e, por tudo isso, terá vida eterna. Buda dizia: "Se não nascêssemos e renascêssemos, não estaríamos sujeitos à dor, à doença à miséria, à velhice à morte”.

Krisma, o inspirado de Mahadeva, numa linguagem de um simbolismo oriental, doutrinando, sobre o destino da alma, depois da morte, ensina que ela não foge à ação da lei universal da transformação, mas obedece sempre ao plano divino. “Como ao raiar das estrelas se abrem às profundezas do céu, assim as profundezas da vida se alumbram ao raiar desta verdade”.

Quando o corpo está dissolvido, logo que Sativa (a sabedoria) domina, a alma evola-se as regiões desses seres puros que têm conhecimento do Todo Poderoso.

Quando, o corpo se desfaz, enquanto Raga (a paixão) o domina, a alma vem habitar de novo entre aqueles que estão apegados às cousas da terra.

Pela leitura desse trecho, compreende-se que ele ensina que a alma muito evoluída sobe aos mundos mais elevados, onde se pode conhecer a felicidade e ter de Deus melhor concepção, ao passo que a que pouco progrediu volta novamente a renascer, entre os homens naturalmente até que se purifique e adquira a necessária sabedoria.

João Pessoa, Janeiro de 1971.

(Jornal o Clarim - 15/Junho/1971)

 

Reencarnação

Juvanir Borges de Souza

Recente pesquisa anunciada pelos meios de comunicação de massas, em dezembro de 1996, dá o percentual de 35% da população brasileira como aceitando a doutrina da reencarnação, ou das vidas sucessivas, enquanto que 52% lhe são contrários. Os restantes 13% são os indecisos e os que não quiseram opinar.

Considerando que a grande maioria da nossa população é constituída de católicos romanos, adeptos das igrejas reformadas (protestantes) e materialistas confessos, os quais são radicalmente contrários à doutrina das vidas sucessivas, a conclusão lógica, diante dos números da pesquisa, é que católicos e protestantes estão aderindo à idéia reencarnacionista. Os materialistas ficam à margem dessa consideração, por não admitirem a existência da alma, ou espírito.

Essa dedução lógica mostra-nos, antes de mais nada, a força da realidade viva triunfando sobre dogmas e interpretações humanas divorciadas da verdade. Induz, outrossim, à constatação de que muitos religiosos seguidores das igrejas tradicionais, embora não se desligando de sua fé, não aceitam mais as imposições absurdas de doutrinas dogmáticas, contra a lógica dos fatos.

Por que a doutrina da reencarnação vai-se tomando cada vez mais difundida e aceita no mundo ocidental, onde impera o dogmatismo das igrejas oriundas do Cristianismo?

Em primeiro lugar, ela se firma por estar na natureza das coisas. É lei divina, que pode ser rejeitada e até anatematizada pelo fanatismo dos homens, mas não deixa de atuar como lei pela simples oposição dos que não a aceitam.

A própria Igreja dos primeiros séculos não se opunha à reencarnação. Havia divergências interpretativas. Muitos padres seguidores de Orígenes (século II) admitiam a reencarnação, que só foi repelida e condenada pelo Sínodo Permanente de Constantinopla, no ano de 543. O papa Virgílio aprovou a rejeição da tese anti-reencarnacionista baseado na decisão daquele Sínodo, acrescentando que a idéia da reencarnação era incompatível com a noção de que "Deus salva o homem pela morte e ressurreição de Jesus-Cristo."

Posteriormente, diversos outros Concílios proscreveram a doutrina reencarnacionista, o último dos quais foi o Vaticano II, em 1965.

A Igreja criou, assim, sua doutrina, com base em diversas decisões de seus concílios, através dos séculos. Foram decisões infelizes, divorciadas da realidade.

Isto não quer dizer que a doutrina autenticamente cristã, ou seja, aquilo que exsurge dos ensinos do Cristo expressos nos quatro Evangelhos, exclua ou repila a reencarnação.

O mal causado pelas interpretações humanas dos Evangelhos é evidente.

Se todos os obstáculos de nossas vidas foram superados pelo Cristo, que, segundo a doutrina da Igreja, assumiu todos dos os pecados na cruz e na ressurreição, bastando que a criatura aceite ser incluída no rol dos redimidos, qual o interesse de cada um em proceder corretamente e praticar as leis de Deus e dos homens, se sua salvação está assegurada de antemão?

Como fica a responsabilidade individual dos que praticam o mal conscientemente?

Onde a Justiça Divina, se o malfeitor, o criminoso, o corrupto, o mau, o indiferente são tratados da mesma forma que o caridoso, o sensível aos sofrimentos alheios, o que se sacrifica pelo seu próximo?

Há uma total injustiça nessa doutrina, que desestimula a prática do bem e a submissão aos ensinos evangélicos, que acena com o sacrifício de si mesmo, o trabalho individual dirigido ao bem, o amor ao próximo como condições de aperfeiçoamento. O progresso individual, a evolução contínua é que é a salvação e não uma espera de julgamento indefinida no tempo, como quer a doutrina ultrapassada da Igreja.

É evidente que o Cristo de Deus é o Salvador da Humanidade, oferecendo sua Mensagem de vida eterna como roteiro, como o caminho e a verdade que Ele mesmo se proclamou. Ele é exemplificação e modelo, mas compete a cada criatura seguir o caminho indicado, com esforço, com amor, com dedicação e não ficar de braços cruzados à espera da salvação.

Pregar que a redenção da criatura se faz simplesmente pela cruz e pelo batismo e não pelo esforço de cada um, através de vidas sucessivas, é incentivar a indiferença pela vida, igualando bons e maus. É, igualmente, desprezar a Justiça Divina, na sua função de dar a cada um segundo suas obras, como ensinou o Cristo.

O mundo caminhou muito nos séculos que sucederam a Nova Era inaugurada com a presença de Jesus entre os homens.

Se seus ensinos não puderam ser apreendidos no seu sentido real, verdadeiro, por deficiência do entendimento dos homens, o tempo, o progresso das ciências e, sobretudo, a Nova Revelação trazida pelo Espírito Verdade e seus prepostos proporcionaram um conhecimento e um juízo mais consentâneo com a realidade.

A verdade e o entendimento justo dos Evangelhos estão à disposição dos homens, através do Consolador prometido e enviado pelo Cristo.

Compete aos homens, sobretudo às organizações religiosas tradicionais, atentarem para os novos tempos e aceitarem a nova interpretação dos textos evangélicos e não se petrificarem no entendimento antigo, contraditório, injusto e ingrato para com o próprio Cristo, cuja doutrina é de Amor, de Justiça e de Caridade.

É preciso atentar que o homem, enquanto se preparava para novos tempos, podia conviver com as trevas da Idade Média, guiado em suas carências intelectuais e morais por aqueles que eram os guias e intérpretes das Escrituras Sagradas.

Entretanto, após séculos de preparo e de progresso da Ciência, nas suas múltiplas divisões e aplicações, após tantas retificações de antigos enganos e, sobretudo, após o socorro do Alto com a vinda do Consolador, soou a hora das retificações necessárias dos erros cometidos pelos homens na interpretação dos textos sagrados, para que as religiões não mais cometam a injustiça de atribuir a Deus e ao Cristo os enganos de seus concílios e suas resoluções transformadas em dogmas.

É necessário que as Igrejas retifiquem seus enganos interpretativos para proveito de seus seguidores, seus fiéis, que se vêem desorientados com prejuízo evidente no desenrolar de suas vidas.

É desolador constatar que, nos albores do Terceiro Milênio da Era Cristã, as Igrejas ainda não tenham percebido a realidade da reencarnação como lei natural e a combatam com tanta veemência, numa contradição que muito tem a ver com o obscurantismo, já que tudo aponta para essa realidade antiqüíssima: a ciência, as experiências, o bom-senso, a razão e o próprio texto dos Evangelhos, em algumas de suas passagens.

Como está claro na Doutrina Consoladora, o progresso das almas é resultado do esforço de cada uma. Sendo livres, trabalham com maior ou menor intensidade, segundo a própria vontade, acelerando ou retardando sua evolução e o encontro com a felicidade.

Portanto, são os Espíritos os próprios autores de sua situação feliz ou infeliz, de conformidade com o ensino de Jesus: A cada um segundo as suas obras.

Todos estão de acordo neste ponto:

"Existem, portanto, dois mundos: o corporal, composto de Espíritos encarnados; e o espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo Espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de nós, como no Espaço, sem limite algum designado." ("O Céu e o Inferno" - 1ª parte, cap. III, nº 5.)

Ora, se existem dois mundos que estão em relacionamento, se do mundo espiritual partem as criaturas para o mundo corporal, encarnando-se e depois desencarnando, o que impediria que se repetisse a encarnação? Não é ela muito mais lógica que uma só vida na carne?

Se o corpo se destrói, de acordo com a lei natural e se o Espírito volta à sua condição livre, por que não poderia repetir a encarnação em novo corpo, que, por sua vez, será destruído também, repetindo-se assim a operação, enquanto a lei da evolução o determinar?

A dificuldade das Igrejas está nas próprias resoluções tomadas em seus concílios. Entenderam elas que a alma é criada no momento do nascimento do ser, ou de sua concepção, não admitindo que ela preexiste ao renascimento. Tudo o mais fica difícil de conceber diante dessa concepção discrepante da realidade, que é a da criação da alma no nascimento do ser, em contraposição à preexistência do ser espiritual.

Quando meditamos sobre os ensinos do Mestre Incomparável, como nessas passagens admiráveis:

 

Amai os vossos inimigos.
Bendizei os que vos maldizem.
Não julgueis para não serdes julgados.
No mundo tereis tribulações.
Eis que vos envio como ovelhas no meio dos lobos.
Entre vós, o maior seja servo de todos.
Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me;
torna-se impossível ter no Cristo um doador de vida fácil, sem sacrifícios.

Como nos mostra Emmanuel, se o Cristianismo é esperança sublime, fé restauradora e amor celestial, é também trabalho sacrificial para o aperfeiçoamento contínuo.

 

A reencarnação é confirmada pela bíblia

Paulo Afonso da Mata Machado

1) INTRODUÇÃO

"É certo que os vivos nascem dos mortos; que as almas dos mortos renascem ainda." (Phèdre)

A noite estava começando e meu filho mais velho e eu comentávamos sobre fatos da História. De repente, ele fez uma pergunta difícil para sua idade:

- Será que nós fomos os maus de antigamente?

Pergunta intrigante! Católico que eu era, respondi-lhe que isso não era possível. Todavia, guardei na memória esse questionamento, principalmente porque ele perguntou se fomos os maus! Por que os maus e não os bons? Mais tarde, estudando a doutrina das vidas sucessivas, concluí que essa pergunta indicava uma reminiscência do passado, muito presente em crianças com idade inferior a sete anos.

A doutrina das vidas sucessivas ou reencarnação é chamada também de palingenesia, que se origina do grego palin (novo) e gênese (nascimento). Ela também foi aceita na Índia antiga, conforme se encontra nos Vedas: "Da mesma forma que nos desfazemos de uma roupa usada para pegar uma nova, assim a alma se descarta de um corpo usado para se revestir de novos corpos."

A doutrina da reencarnação foi introduzida na Grécia por Pitágoras, o matemático famoso que deu nome ao teorema de que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Sócrates e seu discípulo Platão adotaram as idéias de Pitágoras sobre as vidas sucessivas. A escola platônica da Alexandria ensinava a reencarnação precisando a vantagem desta evolução progressiva para as condições da alma.

Há, na Antigüidade, outros adeptos da doutrina das vidas sucessivas, como Plotino, que a cita várias vezes no curso de suas Eneidas. É um dogma, disse ele, muito antigo e universalmente ensinado que, se a alma comete faltas, é condenada a expiá-las submetendo-se a punições nos infernos tenebrosos, depois do que é admitida a voltar em um novo corpo para recomeçar suas provas. Diz ele que "a providência de Deus assegura a cada um de nós a sorte que lhe convém e que é harmônica com seus antecedentes, segundo suas existências sucessivas."

Jamblico trata do mesmo assunto: "Assim as penas que nos afligem são freqüentemente castigos de um pecado do qual a alma se rende culpada em sua vida anterior. Algumas vezes, a razão do castigo nos é ocultada por Deus, mas nós não devemos duvidar de sua justiça."

Entre os romanos que adquiriram a maior parte de seus conhecimentos na Grécia, Virgílio exprime claramente a idéia dos renascimentos nestes termos: "Todas as almas, ainda que por milhares de anos tenham retornado à roda desta existência (no Elísios ou no Tártaro), Deus as chama em numerosos enxames ao rio Léthé, a fim de que, privadas de recordações, revejam os lugares superiores e convexos e comecem a querer voltar ao corpo."

Os Gauleses acreditavam nas vidas sucessivas. César escreveu na Guerra de Gales: "Uma crença que eles buscam sempre estabelecer, é que as almas não perecem de forma alguma e que após a morte elas passam de um corpo para outro."

Em suas obras, o historiador Joseph fez profissão de sua fé na reencarnação; relata que essa era a crença dos fariseus.

O Zoar diz: "Todas as almas são submetidas às provas da transmigração" e a Cabala: "São os renascimentos que permitem aos homens se purificar."

Os judeus tinham uma idéia muito confusa a respeito da reencarnação, mas há indícios no Talmude de que o assunto não era desconhecido dos iniciados: "A alma de Abel passou ao corpo de Set e mais tarde ao de Moisés." Além disso, acreditavam que o retorno de Elias sobre a Terra devia preceder o do Messias.

Também alguns padres da Igreja Católica admitiram a teoria das vidas sucessivas. O Pe. Didon, em sua Vida de Jesus, diz o seguinte: "Então se crê, entre o povo (judeu) e mesmo nas escolas, no retorno à vida da alma dos mortos." O sábio beneditino Dom Calmet se exprime assim em seu Comentário: "Vários doutores judeus crêem que as almas de Adão, Abraão e Phinées animaram sucessivamente vários homens de sua nação."

Contudo, entre os padres católicos, Orígenes é o que afirmou de forma mais precisa, em numerosas passagens de seu Princípios (livro 1°), a reencarnação ou renascimento das almas. Sua tese é esta: "A justiça do Criador deve aparecer em todas as coisas."

Alguns teólogos da Igreja Católica também foram simpáticos à idéia. São Jerônimo afirma que a transmigração das almas fazia parte dos ensinamentos revelados a um certo número de iniciados. Em suas Confissões, Santo Agostinho expressa dúvida com relação à reencarnação: "Minha infância não sucedeu a um idoso morto antes dela?... Mesmo antes desse tempo, tinha já estado em qualquer parte? Fui alguma pessoa qualquer?"

Ainda no século quinze, o cardeal Nicolas de Cusa sustentava em pleno Vaticano a teoria da pluralidade das existências da alma e dos mundos habitados, não somente com o assentimento, mas com os encorajamentos sucessivos de dois papas: Eugênio IV e Nicolau V.

Por que, então, a Igreja Católica combate tão veementemente a doutrina da reencarnação? Trata-se de um erro histórico. O Imperador Justiniano tomou como esposa uma ex-prostituta, de nome Teodora. Esta, na tentativa de libertar-se de seu passado, mandou matar cerca de quinhentas antigas "colegas". Mais tarde, alertada de que havia criado para si um débito que poderia ser quitado em outras encarnações, ela se empenhou em eliminar da exegese católica toda a crença na reencarnação como se, dessa forma, estivesse eliminando, de fato, as vidas sucessivas e, por extensão, o seu débito. Seu marido mandou seqüestrar o Papa Virgílio em Roma e o manteve prisioneiro durante oito anos. Nesse período, convocou um concílio ecumênico, que tomou o nome de Segundo Concílio de Constantinopla. Do total de 165 bispos presentes, 159 eram do Oriente, o que tornou fácil o trabalho do Imperador para conquistar os votos de que necessitava. Todavia, de acordo com a doutrina católica, as decisões de um concílio ecumênico somente têm valor se assinadas pelo papa e Virgílio recusou-se terminantemente a assinar o documento aprovado pelos bispos. Os Papas que o sucederam, embora se referissem ao Segundo Concílio de Constantinopla, também não o assinaram. Dessa forma, a Igreja Católica não dispõe de um documento oficial contra a reencarnação.

Nos tempos modernos, é maior o número de pensadores que admitem a reencarnação. Leibnitz, estudando o problema da origem da alma, admitiu que o princípio inteligente, sob a forma de mônada, tinha podido se desenvolver no reino animal. Numerosos pensadores se reuniram à reencarnação: Dupont de Nemours, Charles Bonnet, Lessing, Constant Savy, Pierre Leroux, Fourier, Jean Reynaud. A doutrina das vidas sucessivas foi vulgarizada para o grande público por autores como Balzac, Théophile Gautier, George Sand e Victor Hugo.

Hoje, as provas de reencarnações são, em geral, obtidas pela terapia de vidas passadas (TVP). O homem aprendeu que, pela hipnose, pode fazer a pessoa regredir mentalmente a vidas anteriores. Entre os pesquisadores que trabalham com a TVP estão: Dr. Morris Netherton, psiquiatra americano; Dr. Dehtlesfsen, catedrático de Psicologia da Universidade de Munique, Alemanha; Dra. Helen Wambach, psiquiatra americana e autora de "Recordando Vidas Passadas"; Dr. Roger Woolger, destacado psiquiatra americano, autor de "As Várias Vidas da Alma"; Dr. Ken Wilber, célebre psicológico americano, com grande influência na Psicologia Moderna, e autor de "O Espectro da Consciência"; Dr. Joel Whitton, catedrático de Psicologia da Universidade de Toronto, Canadá, e autor de "Vida - Transição - Vida".

Se a reencarnação é objeto de análise no mundo científico, o mesmo não acontece no mundo religioso ocidental, porque padres e pastores dizem que a Bíblia fala de céu e de inferno e que ambos seriam incompatíveis com a doutrina da reencarnação.

O propósito do presente trabalho é listar algumas referências bíblicas a respeito da reencarnação. Provaremos, também, à luz da Bíblia, que a doutrina simplista do céu ou do inferno não passa de uma figura de pensamento e que Jesus jamais a sancionou. As citações bíblicas da reencarnação são, algumas vezes, mais claras, mas, em outras, somente são entendidas por aqueles que têm olhos de ver...

2) Ressurreição ou reencarnação?

Quando nossa alpercata

Já não presta mais para nada,
Atiramos no monturo
Por estar invalidada
Se ela ficasse nova
Seria ressuscitada.

Quanto à reencarnação,
O processo assim se dá:
O corpo é uma roupa
Que serve para agasalhar
O espírito e é trocada
Se ela não mais prestar.

(autor desconhecido)

Narram os evangelistas que Jesus perguntou qual era a opinião dos homens acerca de sua natureza espiritual (Mt,16,13; Mc,8,27). Os discípulos responderam:

- Uns dizem que és João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias ou algum dos profetas. (Mt, 16,14)

Pela resposta dada, podemos avaliar os comentários que deviam estar surgindo a respeito de Jesus. Uns o consideravam João Batista ressuscitado, outros a reencarnação de Elias ou de Jeremias.

João Batista havia morrido havia pouco tempo e os que diziam que Jesus e ele eram o mesmo indivíduo, estavam pensando em uma ressurreição. Deviam ser a minoria, pois a família de Jesus era conhecida. (Mc, 6,3) Os que conheciam seus familiares não poderiam pensar que Jesus fosse João Batista que voltara do túmulo.

Os outros, isto é, a maioria, devia dizer que Jesus seria Elias, Jeremias ou outro profeta. Nesse caso, como eles haviam morrido séculos antes, trata-se de um caso líquido e certo de crença na reencarnação e não de que Jesus houvesse saído do túmulo.

Façamos uma pausa e analisemos o fato de Jesus ser considerado como Elias. O 2° Livro de Reis conta que Eliseu viu Elias ser arrebatado ao céu. É estranho que alguns acreditem que Elias tenha deixado a Terra em seu corpo material, sem morrer, quando o próprio Cristo somente deixou o planeta após a cruz. É óbvio que não foi isso o que aconteceu. Se lermos atentamente 2Rs, 2,2-11, concluiremos que essa foi apenas a impressão de Eliseu. Este, sabendo que Elias estava no fim de sua missão, pediu-lhe a duplicação de seu espírito, ou seja, os seus poderes, hoje, ditos mediúnicos. Elias lhe respondeu:

- Se tu vires quando me arrebatarem de ti, terás o que me pedes. (v. 10)

Eliseu teve uma visão fugaz, que logo desapareceu: viu Elias em algo como um carro de fogo e uns cavalos de fogo. (v. 11) Em outras palavras, Eliseu viu Elias após ter-se desprendido do corpo físico. É evidente que o profeta não poderia ter deixado a Terra no meio de um fogaréu em seu corpo carnal, senão ele se queimaria todo. Tendo visto Elias partir, Eliseu demonstrou que tinha o que hoje se chama mediunidade. Prova disso é que havia cinqüenta dos filhos dos profetas, (v. 7) mas somente Eliseu viu o carro de fogo levar Elias.

Voltando à resposta dos discípulos a Jesus, percebemos que os judeus acreditavam que tanto poderia o espírito animar o próprio corpo (Jesus seria João Batista ressuscitado) como outro corpo (comentava-se que Jesus seria a reencarnação de Elias, de Jeremias ou de algum dos profetas). E Jesus, que disse dessa teoria? Não se manifestou sobre ela, apenas perguntou:

- E vós, quem dizeis que eu sou? (Mt, 16,15)

Se Jesus fosse contrário à teoria da reencarnação, certamente teria repreendido seus discípulos. Em outra ocasião, eles manifestaram novamente esse pensamento e Jesus também não os repreendeu. Trata-se do episódio da cura do cego de nascença, do qual trataremos mais adiante.

A palavra ressurreição nos textos evangélicos é, às vezes, tomada como sinônimo de aparição do espírito. Foi nesse sentido que Mateus a usou, referindo-se à visão de mortos ocorrida no dia em que Jesus foi crucificado:

E abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados. E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. (Mt, 27, 52-53)

Nesse caso, o uso da expressão apareceram a muitos demonstra que nem todos os viram e, portanto, eles não voltaram a seus corpos de carne.

3) Jesus Falou do Batismo a Nicodemos?

Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. (Jo, 3,3).

Dentre os quatro evangelistas, João é aquele que sabe ser sucinto, quando lhe convém, e detalhista, quando julga necessário. No encontro de Jesus com Nicodemos, dada a sua importância, João não economizou palavras. Boa parte do capítulo terceiro de seu evangelho é dedicada apenas a esse diálogo.

Por que terá Nicodemos procurado Jesus? Ele o via fazendo prodígios e ensinando com autoridade e imaginou que ali estivesse alguém enviado por Deus. Se fora enviado por Deus, Jesus já existia antes do próprio nascimento. Nesse caso, só podia ser verdadeira a idéia da reencarnação.

Nicodemos deve ter pedido a opinião de algum colega a respeito de Jesus, mas como ninguém pudesse lhe dar uma resposta convincente, concluiu que apenas o Mestre poderia lhe tirar essa dúvida. Decidiu-se, então, procurá-lo para indagar se ele viera da parte de Deus e como isso se dera. Chegando à casa onde Jesus estava hospedado, ele o saudou da seguinte forma:

- Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes se Deus não estivesse com ele. (v. 2)

Jesus lhe respondeu:

- Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. (v. 3)

Percebe-se que Jesus não comentou o que Nicodemos disse, mas o que ele estava pensando. Este não manifestou nenhum espanto, mas aproveitou o ensejo para perguntar:

- Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe para nascer segunda vez? (v. 4)

Percebe-se que mesmo Nicodemos, um doutor da lei, tinha idéia confusa acerca do fenômeno da reencarnação. Jesus, que sabia disso, explicou:

- Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não renasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do espírito é espírito. Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do espírito. (v. 5-8)

Essa resposta de Jesus merece ser analisada parte por parte:

Se um homem não renasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus.

A palavra água é tomada no sentido que lhe empresta a Bíblia: o elemento gerador absoluto. É o mesmo sentido que lhe foi dado nas passagens seguintes:

O Espírito de Deus era levado sobre as águas. (Gn, 1,2)

Que o firmamento seja feito no meio das águas. (Gn, 1, 6)

Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que apareça o elemento árido. (Gn, 1, 9)

Que as águas produzam animais vivos que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento. (Gn, 1,20)

Jesus faz distinção entre a água (matéria) e o espírito, dizendo que é preciso renascer da água e do espírito. Esse é o sentido original do ensinamento de Jesus. Mais tarde, alguns entenderam que ele se referia à água do batismo, o que é absolutamente improvável, devido ao tema que estava sendo discutido. Além disso, o batismo fora criado por João Batista e nem todos os judeus se batizaram. Portanto, não era um assunto que poderia preocupar Nicodemos.

O que é nascido da carne é carne, o que é nascido do espírito é espírito.

Aí está clara a distinção entre carne e espírito. É uma declaração formal de que o ato sexual produz apenas o corpo de carne; o espírito é dado por Deus. (Ecl, 12,7)

Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo.

Jesus volta a insistir no tema da reencarnação.

O espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai.

Essa frase retira qualquer dúvida a respeito do pensamento de Jesus. Você não sabe de onde o espírito veio (se ele fosse criado no instante da concepção do corpo, você saberia) nem para onde vai (coloca em cheque a doutrina simplista do céu ou do inferno), mas ouve sua voz, ou seja, quem fala pelo homem é o espírito.

Após os ensinamentos de Jesus, Nicodemos perguntou:

- Como pode isso se fazer? (v. 9)

Jesus lhe respondeu:

- Pois quê! És mestre em Israel e ignoras tais coisas? (v. 10)

Nicodemos tinha conhecimento da reencarnação, embora não a entendesse bem, não porque lhe faltassem estudos, mas porque resistia a aceitá-la. Jesus não respondeu sua pergunta porque já havia dito tudo que Nicodemos precisava saber.

Querer reduzir todo esse diálogo a uma simples apologia do batismo é um insulto ao trabalho maravilhoso que João fez de procurar reconstituí-lo.

4) A reencarnação está presente em Isaías

Os teus mortos viverão, os meus a quem tiraram a vida ressuscitarão. (Is, 26,19)

Isaías é, sem dúvida alguma, o maior dos profetas. Ele descreveu fatos da vida de Jesus com tal riqueza de detalhes que o grande teólogo católico conhecido como Santo Agostinho disse que ele mais parecia um evangelista que um profeta.

Ao dizer que “os teus mortos viverão, os meus a quem tiraram a vida ressuscitarão” ele está usando dizendo que todos viverão de novo. Se o profeta estivesse falando que os mortos iriam viver no mundo espiritual, certamente diria: ainda vivem e não: viverão. Além disso, se estivesse se referindo aos que iriam para o céu, diria alguns ressuscitarão. Mas Isaías não fala que alguns viverão de novo, mas que todos que estavam mortos ressuscitarão, ou seja, viverão de novo, e não que irão para o céu ou para o inferno. É um formal desmentido à teoria simplista do céu ou do inferno.

5) O Livro de Jó

Decerto Deus não condena sem razão, nem o Onipotente atropela a justiça. (Jó, 34,12)

Entre os livros do Antigo Testamento, aquele que mais fala veladamente da reencarnação é o Livro de Jó. Jó sofria muito, sem saber que pagava por erros que havia praticado. É advertido por Eliú (texto acima), que também lhe diz:

- Se pecares, que dano farás tu a Deus? Se as tuas iniqüidades se multiplicarem, que farás tu contra ele? Além disso, se obrares com justiça, que lhe darás ou que receberá ele da tua mão? A tua impiedade só poderá fazer mal a um homem, que é teu semelhante; e a tua justiça poderá ser útil ao filho do homem. (Jó, 35, 6-8)

Esse parágrafo tem ensinos fundamentais. Primeiramente, diz que o pecado não causa nenhum dano a Deus. Destrói, assim, a idéia de que Deus se sentiria ofendido com o pecado.

Se o pecado não produz nenhum efeito sobre Deus, também o ato positivo não o afeta em nada. Portanto, fazer o bem a alguém ou cantar hinos de louvor a Deus beneficia apenas àquele que o faz.

Mas não termina aí o parágrafo. Diz que a tua piedade só poderá fazer mal a um homem, que é teu semelhante. Mas quem é esse homem semelhante a mim, que receberá o mal causado por minha impiedade? Será outro homem ou serei eu mesmo?

A dúvida parece se extinguir quando vemos o complemento do texto:

- A tua justiça poderá ser útil ao filho do homem. (Jó, 35, 8)

Quem será esse filho do homem que se beneficiará com meu ato de justiça? Só pode ser eu mesmo, senão nesta, em outra encarnação.

O Livro de Jó, lido atentamente, vai nos apontar em direção à reencarnação. Compreenderemos as lamúrias de Jó, que se achava justo e que, mesmo assim, foi castigado por Deus.

6) O Livro de Oséias

Eu os remirei do poder do inferno e os resgatarei da morte; onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua destruição? (Os, 13,14)

Pelo texto acima, percebe-se que Oséias não admite um inferno eterno, senão não teriam sentido as suas palavras. Mas há algo mais importante nesse versículo. Ele fala em resgate da morte. Está aí uma forma velada de se falar da reencarnação. Ao perguntar onde estão as pragas da morte e a destruição do inferno, ele reforça a idéia de que, tanto um, como outro não são definitivos.

7) O primeiro mandamento

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças: este é o primeiro mandamento. (Mc, 12,30)

Todos nós que fomos católicos aprendemos no catecismo que o primeiro mandamento é: Amar a Deus sobre todas as coisas. No entanto, se formos consultar Êxodo, o primeiro mandamento tem a seguinte redação:

Não farás imagens esculpidas das coisas que estão em cima, nos céus, nem embaixo, sobre a terra, nem nas águas, sob a terra. Não te prostrarás diante delas; não as adorarás, nem as servirás, porquanto eu sou o Eterno teu Deus, o Deus forte e cioso que puno a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta gerações dos que me odeiam e que uso de misericórdia, na sucessão de mil gerações, sobre os que me amam e guardam meus mandamentos. (Ex, 20, 4-6)

Ao lermos o texto do primeiro mandamento, uma dúvida nos vem à cabeça: em que sentido está empregada a palavra gerações? É evidente que não é no sentido que normalmente lhe atribuímos, porque isso seria a negação da justiça divina. Deus puniria inocentes pela única razão de terem pais, avós ou bisavós que pecaram. É oportuna a observação de um dos maiores teólogos da Igreja Católica, conhecido como Santo Agostinho:

- Por que Deus, que me perdoa os meus próprios pecados, vai-me responsabilizar pelos pecados de outrem?

Portanto, a palavra gerações não está empregada no seu sentido usual. Como devemos, então, interpretá-la? O sentido real dessa palavra é o de encarnações. Aquele que cometeu a falta recebe, ele próprio, a punição, até a terceira e quarta encarnações. É a chamada lei do retorno, que Jesus ensinou a Pedro, quando este cortou a orelha de Malco, pensando que agia corretamente.

É interessante verificarmos como a língua hebraica era pobre e o mesmo termo tinha diferentes significados. Jesus também empregou a palavra geração diferente do sentido que lhe é próprio:

- Em verdade, em verdade vos digo que não passará essa geração sem que todas essas coisas se cumpram. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. (Mt, 24, 34-35)

Muitos interpretaram que os acontecimentos que ele havia previsto (guerras, catástrofes) aconteceriam ainda naquela geração. É o que se chamou de parusia entre os primeiros cristãos e que hoje se chama fim do mundo. No entanto, se prestarmos atenção nessas previsões, vamos perceber que o evangelista faz uma ressalva:

- ... o que lê, entenda... (Mt, 24, 15)

Isso quer dizer que a profecia está feita em sentido figurado, isto é, trata-se de uma parábola.

Portanto, nesse texto de Mateus, geração tem o sentido de grupo de entidades que habitam a Terra. No texto que se segue, essa palavra foi empregada nesse mesmo sentido:

É para que sobre vós venha todo o sangue inocente que há sido derramado na terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo que tudo isso virá sobre essa geraç