A Simbiose prejudicial
é conhecida como parasitose mental. Esse processo é tão
antigo como o próprio homem. Após a morte, os espíritos
continuam a disputar afeição e riquezas com os que permanecem
na carne ou armam empreitadas de vingança e violência contra eles.
Na parasitose mental temos o vampirismo. Por esse processo, os desencarnados
sugam a vitalidade dos encarnados, podendo determinar nos hospedeiros doenças
das mais variadas e até mesmo à morte prematura.
Para o mundo espiritual “ vampiro é toda entidade ociosa que se
vale indebitamente das possibilidades alheias e, em se tratando de vampiros
que visitam os encarnados, é necessário reconhecer que eles atendem
aos sinistros propósitos a qualquer hora, desde que encontrem guarida
no estojo de carne dos homens “
O Médico desencarnado Dias da Cruz lembra que “toda forma de vampirismo
está vinculada à mente deficitária, ociosa ou inerte que
se rende às sugestões inferiores que a exploram sem defensiva
“ E explica a técnica utilizada pelos Espíritos vampirizadores,
situando-a nos processos de hipnose. Por ação do hipnotizador,
o fluido magnético derrama-se no campo mental do paciente voluntário,
que lhe obedece o comando. Uma vez neutralizada a vontade do sujet, as células
nervosas estarão subjugadas à invasão dessa força.
Os desencarnados de condição inferior, consciente ou inconsciente,
utilizam esse processo na cultura do vampirismo.
Justapõem-se
à aura das criaturas que lhes oferecem passividade, sugando-lhes as energias,
tomam conta de suas zonas motoras e sensoriais, inclusive os centros cerebrais
[ linguagem e sensibilidade, memória e percepção] dominando-as
à maneira do artista que controla as teclas de um piano. Criam assim,
doenças fantasmas de todos os tipos, mas causam também degeneração
dos tecidos orgânicos, estabelecendo a instalação de doenças
reais que persistem até a morte. Entre essas doenças, Dias da
Cruz afirma que “ podemos encontrar desde a neurastenia até a loucura
complexa e do distúrbio gástrico à rarissima afemia estudada
por broca.”
Relaciona ainda outras moléstias: “ pelo imã do pensamento
doentio e descontrolado, o homem provoca sobre si a contaminação
fluídica de entidades em desequilíbrio, capazes de conduzi-lo
à escabiose e a ulceração, à dipsomania e a loucura,
à cirrose e aos tumores benignos ou malignos de variada procedência,
tanto quanto aos vícios que corroem a vida moral. Através do próprio
pensamento desgovernado, pode fabricar para si mesmo as mais graves eclosões
de alienação mental, como são as psicoses de angustia e
ódio, vaidade e orgulho, usura e delinqüência, desânimo
e egocentrismo, impondo ao veiculo orgânico processos patogênicos
indefiníveis que lhe favorecem a derrocada ou a morte.
Nos Domínios da Mediunidade André Luiz se refere a um caso interessante
de um homem desencarnado e uma mulher encarnada que vivem em regime de escravidão
mútua, nutrindo-se da emanação um do outro. Ela busca ajuda
na sessão do trabalho desobsessivo realizado por um centro espirita e,
com o concurso de entidades abnegadas, consegue o afastamento momentâneo
do espirito obsessor. Bastou, porém, que o espirito fosse retirado para
que ela o fosse procurar, reclamando sua presença. Há muitos casos
em que o encarnado julga querer o reajustamento, porém no intimo, alimenta-se
dos fluidos doentios do companheiro desencarnado e se apega a ele instintivamente.
Em Obreiros da Vida Eterna, André Luiz descreve cenas de vampirismo em
uma enfermaria de Hospital: “ Entidades inferiores, retidas pelos próprios
enfermos, em grande viciação da mente, postavam-se em leitos diversos,
infligindo-lhes padecimentos atrozes, sugando-lhes vampirescamente preciosas
forças, bem como atormentando-os e perseguindo-os.”, afirma. É
confessa que os quadros lhe traziam grande mal estar.
Na possessão
temos um grau mais avançado de atuação do espirito obsessor,
constrangendo de forma quase absoluta à ação do obsediado.
Kardec a compreendeu como “ uma substituição, posto que
parcial, de um espirito errante à um encarnado “ Como se trata
de um grau mais avançado de vampirismo, as patologias orgânicas
estão sempre presentes.
Dentro desse item de vampirismo com repercussões orgânicas, destacamos
os casos de epilepsia e obsessão, como por exemplo no livro: Nos Domínios
da Mediunidade, caso Pedro. Analisando essa casuística, constatamos que
a possessão tem características e mecanismos diversos. No caso
Pedro- Camilo, instalou-se ao longo de 20 anos sob a atuação de
um único obsessor. Durante esse período, o quimismo espiritual
ou a fisiologia do perispírito se desequilibrou e, consequentemente,
desencadeou distúrbios orgânicos, entre os quais a ameaça
de amolecimento cerebral.
No caso Margarida, estabeleceu mais efetivamente em dez dias, com organização
técnica competente e atuação de uma falange composta de,
aproximadamente, 60 obsessores, entre os quais dois hipnotizadores e dezenas
de parasitas ovóides, decretando a falência orgânica quase
total em virtude do controle do sistema endócrino, da pressão
sangüínea e de funções importantes da economia orgânica
Da mesma maneira
como existem infeções orgânicas, acontecem também
as fluidicas, resultantes do desequilíbrio mental.
O Instrutor Aniceto, em conversa com André Luiz, argumenta que “
se temos a nuvem de bactérias produzidas pelo corpo doente, temos a nuvem
de larvas mentais produzidas pela mente enferma, em identidade de circunstâncias.
Desse modo, na esfera das criatura desprevenidas de recursos espirituais, tanto
adoecem corpos como almas.”
Os homens não têm preparo quase nenhum para a vida espiritual.
Em geral, não tem a mínima idéia de que “ a cólera,
à intemperança, os desvarios do sexo e as viciações
de vários matizes formam criações inferiores que afetam
profundamente a vida intima”
E cada uma dessas viciações da personalidade produz as larvas
mentais que lhe são conseqüentes, contaminando o meio ambiente onde
quer que o responsável pela sua produção, circule ou estagie.
Elas não tem forma esférica, nem são do tipo bastonete
, como as bactérias biológicas, mas formam colônias densas
e terríveis. E tal qual acontece no plano físico, o contágio
também pode se verificar na esfera psíquica.
Na condição de parasitismo mental, as larvas servem de alimentação
habitual, porque são portadoras de vigoroso magnetismo animal. Para nutrir-se
desse alimento, bastará ao desencarnado agarrar-se aos companheiros de
ignorância ainda encarnados como erva daninha aos galhos das arvores e
sugar-lhes a substância vital.
Dentro do estudo a que nos propormos, temos de considerar também a produção
dos espíritos inferiores desencarnados. As “ substâncias
“ destrutivas produzidas dentro do quimismo que lhes é próprio
atingem os pontos vulneráveis de suas vitimas. Esses produtos, conhecidos
como simpatinas e aglutininas mentais, têm a propriedade de modificar
a essência do pensamento dos encarnados, que vertem contínuos dos
fulcros energéticos do tálamo, no diencéfalo. Esse ajuste
entre desencarnados e encarnados é feito automaticamente, em absoluto
primitivismo nas linhas da natureza. Os obsessores tomam conta dos neurônios
do hipotálamo. “ acentuando a dominação sobre o feixe
amielinico que o liga ao córtex frontal, controlando as estações
sensíveis do centro coronário que ai se fixam para o governo das
excitações e produzindo nas suas vitimas, quando contrariados
em seus desígnios, inibições de funções viscerais
diversas, mediante influência mecânica sobre o simpático
e o parasssimpático.”
Temos ai um intrincado processo de vampirismo, que leva as vitimas ao medo,
à guerra nervosa, alterando-lhes a mente e o corpo. É possível
compreender, assim, os casos de possessos relatados nos Evangelhos, que se curaram
de doenças físicas quando os espíritos inferiores que os
subjugavam foram retirados pela ação curadora de nosso mestre
Jesus ou dos apóstolos.
Por enquanto, os médicos estão às voltas com a extensa
variedade de microorganismos patogênicos que devem combater diuturnamente
. Mas, no futuro, “ a medicina da alma absorverá a medicina do
corpo,. Poderemos, na atualidade da terra, fornecer tratamento ao organismo
de carne, semelhante tarefa dignifica a missão do consolo, da instrução
e do alivio, mas no que concerne à cura real, somos forçados a
reconhecer que esta pertence exclusivamente ao homem-espirito.”
FONTE: REVISTA CRISTÃ DE ESPIRITISMO – ANO 02 NUMERO 12
PARASITISMO NOS REINOS INFERIORES : Comentando as ocorrências da obsessão
e do vampirismo no veiculo fisiopsicossomático é importante lembrar
os fenômenos do parasitismo nos reinos inferiores da Natureza.
Sem nos reportamos às simbioses fisiológicas, em que microorganismos
se alhergam no trato intestinal dos seus hospedadores, apropriando-se-lhes dos
sucos nutritivos, mas gerando substâncias úteis à existência
dos anfitriões, encontraremos a associação parasitária,
ao domínio dos animais, à maneira de uma sociedade, na qual uma
das partes, quase sempre após insinuar-se com astúcia, criou para
si mesma vantagens especiais, com manifesto prejuízo para a outra, que
passa, em seguida, à condição de vitima.
Em semelhante desequilíbrio, as vitimas se acomodam, por tempo indeterminado,
à pressão externa dos verdugos; contudo, em outras eventualidades,
sofrem-lhes a intromissão direta na intimidade dos próprios tecidos,
em ocupação impertinente que, as vezes, se degenera em conflito
destruidor e, na maioria dos casos, se transforma num acordo de tolerância,
por necessidade de adaptação, perdurando até à morte
dos hospedeiros espoliados, chegando mesmo a originar os remanescentes das agregações
imensamente demoradas no tempo, interferindo nos princípios da hereditariedade,
como raízes do conquistador, a se entranharem nas células que
lhes padecem a invasão nos componentes protoplasmáticos, para
além da geração em que o consorcio parasitário começa.
Em razão disso, apreciando a situação dos parasitas, perante
os hospedadores, temo-los por ectoparasitas, quando limitam a própria
ação às zonas de superfície, e endoparasitas quando
se alojam nas reentrâncias do corpo a que se impõem.
Não será licito esquecer, porem, que toda simbiose exploradora
de longo curso, principalmente a que se verifica no campo interno, resulta de
adaptação progressiva entre o hospedador e o parasita, os quais,
não obstante reagindo um sobre o outro, lentamente concordam na sociedade
em que persistem, sem que o hospedador considere os riscos e perdas a que se
expõe, comprometendo não apenas a própria vida, mas a existência
da própria espécie.
TRANSFORMACÕES DOS PARASITAS : Temos, assim, na larga escala dos acontecimentos
dessa ordem; os parasitas temporários, quais as sanguessugas e quase
todos os insetos hematofagos, que apenas transitoriamente visitam os hospedadores;
os ocasionais ou os pseudoparasitas, que sistematicamente não são
parasitas, mas que vampirizam outros animais, quando as situações
do ambiente a isso os conduzam, os permanentes de desenvolvimento direto, que
dispõem de um hospedador exclusivo e a cuja existência se encontram
ajustados por laços indissolúveis, quase todos relacionáveis
entre os endoparasitas; os parasitas chamados heteroxênicos, que se fazem
adultos, em ciclo biológico determinado, contando com um ou mais hospedeiros
intermediários, quando se encontram em período larval, para atingirem
a forma completa no hospedeiro definitivo; os hiperparasitas, que são
parasitas de outros parasitas.
Concluído-se que o parasitismo, entre os animais, não decorre
de uma condição natural, mas sim de uma autêntica adaptação
deles a modo particular de comportamento, é justo admitir se inclinem
para novos característicos na espécie.
Assim é que o parasita, no regime de adaptação a que se
entrega, experimenta mutações de vulto a se lhe exprimirem na
forma, por reduções ou acentuações orgânicas,
compreendendo-se, desse modo, que o desaparecimento de certos órgãos
de locomoção em parasitas fixados e a conseqüente formação
de órgãos necessários à estabilidade em que se harmonizam
devem ser analisados como fenômeno inerentes à simbiose injuriante,
notando-se nesses seres a facilidade da fecundação e a resistência
vital, com a extrema capacidade de encistamento, pela qual segregam recursos
protetores e se isolam dos fatores adversos do meio, com o frio e o calor, tolerando
vários períodos de abstenção de qualquer alimento,
a exemplo do que ocorre com o percevejo do leito, que consegue viver, mais de
seis meses consecutivos, em completo jejum.
Continuando a examinar as alterações nos parasitas em atividade,
assinalamos muitos platelmintos e anelideos que, em virtude do parasitismo,
perderam ao apêndices locomotores, substituindo-os por ventosas ou ganchos.
Identificamos a degeneração do aparelho digestivo em vários
endoparasitas do campo intestinal e, por vezes, a total extinção
desse aparelho, como acontece a muitos cestóides e ancantocéfalos
que, vivendo, de maneira invariável, na corrente abundante de sucos nutritivos
já elaborados no intestino de seus hospedadores, convertem os órgãos
bucais em órgãos de fixação, prescindindo de sistema
intestinal próprio, de vez que passam a realizar a nutrição
respectiva por osmose, utilizando toda a superfície do corpo.
De outras vezes, quando o parasita costuma ingerir grande massa de sangue, demonstra
desenvolvimento anormal do intestino médio, que se transforma em bolsa
volumosa a funcionar por depósito de reserva, onde à assimilação
se opera, vagarosa, para que esses animais, como sejam as sanguessugas e os
mosquitos, se sobreponham a longos jejuns eventuais.
A Sessão de
desenvolvimento mediúnico, segundo deduzi da palestra entre os amigos
encarnados, fora muito escassa em realizações para eles. Todavia,
não se verificava o mesmo em nosso ambiente, onde se podia ver enorme
satisfação em todas as fisionomias, a começar de Alexandre,
que se mostrava jubiloso.
Os trabalhos haviam tomado mais de duas horas e, com efeito, embora me conservasse
retraído, ponderando os ensinamentos da noite, minúcia a minúcia,
observei o esforço intenso despendido pelos servidores de nossa esfera.
Muitos deles, em grande numero, não somente assistiam os companheiros
terrestres, senão também atendiam a longas filas de entidades
sofredoras de nosso plano.
Alexandre, o instrutor devotado, movimentara-se de mil modos. E Tocando a tecla
que mais me impressionara, no circulo de observações do nobre
concerto de serviços, acentuou, satisfeito, em reaproximando de mim.
Graças ao Senhor, tivemos uma noite feliz. Muito trabalho contra o vampirismo.
Oh era o vampirismo a tese que me preocupava. Vira os mais estranhos bacilos
de natureza psíquica, completamente desconhecidos na microbiologia mais
avançada. Não guardavam a forma esférica das cocáceas,
nem o tipo de bastonete das bacteriáceas diversas. Entretanto, formavam
também colônias densas e terríveis. Reconhecera-lhes o ataque
aos elementos vitais do corpo físico, atuando com maior potencial destrutivo
sobre as células mais delicadas.
Que significava aquele mundo novo? Que agentes seriam aqueles, caracterizados
por indefinível e pernicioso poder? Estariam todos os homens sujeitos
à sua influenciação?.
Não me contive. Expus ao orientador, francamente, minhas duvidas e temores.
Alexandre sorriu e considerou:
Muito bem, muito bem, Você veio observar trabalhos de mediunidade e está
procurando seu lugar de médico. É natural. Se estivesse especializado
noutra profissão, teria identificado outros aspectos do assunto em análise.
E a encorajar-me, fraternalmente, acrescentou:
Você demostra boa preparação, diante da medicina espiritual
que lhe aguarda os estudos.
Depois de longa pausa, prosseguiu explicando:
Sem nos referirmos aos morcegos sugadores, o vampiro, entre os homens, é
o fantasma dos mortos, que se retira do sepulcro, alta noite, para alimentar-se
do sangue dos vivos. Não sei quem é o autor de semelhante definição,
mas, no fundo, não está errada. Apenas cumpre considerar que,
entre nós, vampiro é toda entidade ociosa que se vale, indebitamente,
das possibilidades alheias e, em se tratando de vampiros que visitam os encarnados,
é necessário reconhecer que eles atendem aos sinistros propósitos
a qualquer hora, desde que encontrem guarida no estojo de carne dos homens.
Alexandre fez ligeiro intervalo na conversação, dando a entender
que expusera a preliminar de mais sérios esclarecimentos, e continuou:
Você não ignora que, no círculo das enfermidades terrestres,
cada espécie de micróbio tem o seu ambiente preferido. O pneumococo
aloja-se habitualmente nos pulmões; o bacilo de Eberth localiza-se nos
intestinos onde produz a febre tifóide; o bacilo de Klebs-Loffler situa-se
nas mucosas onde provoca a diferia. Em condições especiais do
organismo, proliferam os bacilos de Hansen ou de Koch. Acredita você que
semelhantes formações microscópicas se circunscrevem à
carne transitória? Não sabe que o macrocosmo está repleto
de surpresas em suas formas variadas? No campo infinitesimal, as revelações
obedecem à mesma ordem surpreendente. André, meu amigo, as doenças
psíquicas são muito mais deploráveis. A patogenese da alma
está dividida em quadros dolorosos. A cólera , a intemperança,
os desvarios do sexo, as viciações de vários matizes, formam
criações inferiores que afetam profundamente a vida intima. Quase
sempre o corpo doente assinala a mente enfermiça. A organização
fisiológica, segundo conhecemos ao campo das cogitações
terrestres não vai além do vaso de barro, dentro do molde preexistente
do corpo espiritual. Atingido o molde em sua estrutura pelos golpes das vibrações
inferiores, o vaso refletirá imediatamente.
Compreendi onde o instrutor desejava chegar. Entretanto, as suas considerações
relativas às novas expressões microbianas davam ensejo a certas
indagações. Como encarar o problema das formações
iniciais? Enquadrava-se a afecção psíquica no mesmo quadro
sintomatológico que conhecera, até então, para as enfermidades
orgânicas em geral? Haveria contágio de moléstias da alma?
E seria razoável que assim fosse na esfera onde os fenômenos patológicos
da carne não mais deveriam existir?
Afirmara Virchow que o corpo humano “é um pais celular, onde cada
célula é um cidadão, constituindo a doença um atrito
dos cidadões, provocado pela invasão de elementos externos “.
De fato, a criatura humana desde o berço deve lutar contra diversas flagelações
climáticas, entre venenos e bactérias de variadas origens. Como
explicar, agora, o quadro novo que me defrontava os escassos conhecimentos?
Não sopitei a curiosidade. Recorrendo à admirável experiência
de Alexandre, perguntei:
Ouça meu amigo. Como se verificam os processos mórbidos de ascendência
psíquica? Não resulta a afecção do assédio
de forças exteriores? Em nosso domínio, como explicar a questão?
É a viciação da personalidade espiritual que produz as
criações vampiristicas ou estas que avassalam a alma impondo-lhes
certas enfermidades? Nesta ultima hipótese, poderíamos considerar
a possibilidade de contágio?
Eram vinte e uma
horas. Ainda são havíamos descansado, senão em momentos
de palestra rápida, necessária à solução
de problemas espirituais. Aqui, um doente pedia alivio; Ali, outro necessitava
passes de reconforto. Quando fomos atender a dois enfermos, no Pavilhão
11, escutei gritaria próxima. Fiz instintivo movimento de aproximação,
mas Narcisa deteve-me atenciosa:
Não prossiga – disse -; localizam-se ali os desequilibrados do
sexo. O quadro seria extremamente doloroso para seus olhos. Guarde essa emoção
para mais tarde
Não insisti. Entretanto, fervilhavam-me no cérebro mil interrogações.
Abrira-se um mundo novo à minha pesquisa intelectual. Era indispensável
recordar o conselho da genitora de Lisias, a cada momento, para não me
desviar da obrigação justa.
Logo após às vinte e uma horas, chegou alguém dos fundos
do enorme parque. Era um homenzinho de semblante singular, evidenciando a condição
de trabalhador humilde. Narcisa recebeu-o com gentileza, perguntando:
-Que há, Justino? Qual é a sua mensagem?
O operário, que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de
Retificação, respondeu, aflito:
Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro, no grande
portão que dá para os campos de cultura. Creio tenha passado despercebida
aos vigilantes das primeiras linhas...
-E por que não a atendeu? – interrogou a enfermeira.
O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou:
Segundo as ordens que nos regem, não pude fazê-lo, porque a pobrezinha
está rodeada de pontos negros.
Que me diz? – revidou Narcisa, assustada.
Sim Senhora.
Então o caso é grave.
Curioso, segui a enfermeira, através do campo enluarado. A distancia
não era pequena. Lado a lado, via-se o arvoredo tranqüilo do parque
muito extenso, agitado pelo vento caricioso. Havíamos percorrido mais
de um quilometro, quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador.
Deparou-se nos, então, a miserável figura da mulher que implorava
socorro do outro lado. Nada vi, senão o vulto da infeliz, coberta de
andrajos, rosto borrendo e pernas em chaga viva; mas Narcisa parecia divisar
outros detalhes. Imperceptíveis ao meu olhar, dado o assombro que estampou
na fisionomia, ordinariamente calma.
Filhos de Deus – bradou a mendiga ao avistar-nos -, dai-me abrigo à
alma cansada. Onde está o paraíso dos eleitos, para que eu possa
fruir a paz desejada.
Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração. Narcisa, por
sua vez, mostrava-se comovida, mas falou em tom confidencial:
Não está vendo os pontos Negros?
Não , respondi.
Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada.
E, depois de ligeira pausa, continuou:
Se tivesse em minhas mãos, abriria imediatamente a nossa porta; mas,
quando se trata de criaturas nessa condições, nada posso resolver
por mim mesma. Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe, em serviço.
Assim dizendo, aproximou-se da infeliz e informou, em tom fraterno:
Faça o obséquio de esperar alguns minutos.
Voltamos apressadamente ao interior. Pela primeira vez, entrei em contato com
o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação. Narcisa
apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência. Ele esboçou um gesto
significativo e ajuntou:
Fez muito bem, comunicando-me o fato. Vamos até lá.
Dirigimo-nos os três para o local indicado.
Chegados à cancela, o Irmão Paulo, orientador dos vigilantes,
examinou atentamente a recém-chegada do Umbral, e disse:
Está mulher, por enquanto, não pode receber nosso socorro. Trata-se
de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje. É preciso
entregá-la à própria sorte.
Senti-me escandalizado. Não seria faltar aos deveres cristãos
abandonar aquela sofredora ao azar do caminho? Narcisa, que me pareceu compartilhar
da mesma impressão, adiantou-se suplicante:
Mas, Irmão Paulo, não há um meio de acolhermos essa miserável
criatura nas Câmaras?
Permitir essa providência – esclareceu ele – seria trair minha
função de vigilante.
E indicando a mendiga que esperava a decisão, a gritar impaciente, exclamou
para a enfermeira:
Já notou, Narcisa, alguma coisa além dos pontos negros?
Agora, era minha instrutora de serviço que respondia negativamente.
Pois vejo mais – respondeu o Vigilante-chefe.
Baixando o tom de voz, recomendou:
Conte as manchas pretas.
Narcisa, fixou o olhar na infeliz e respondeu, após alguns instantes:
Cinqüenta e oito.
O Irmão Paulo, com a paciência dos que sabem esclarecer com amor,
explicou:
Esses pontos escuros representam cinqüenta e oito crianças assassinadas
ao nascerem. Em cada mancha vejo a imagem mental de uma criancinha aniquilada,
umas por golpes esmagadores, outras por asfixia. Essa desventurada criatura
foi profissional de ginecologia. A pretexto de aliviar consciências alheias,
entregava-se a crimes nefandos, explorando a infelicidade de jovens inexperientes.
A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas que,
por vezes, apresentam atenuantes de vulto.
Recordei, assombrado, os processos da medicina, em que muitas vezes enxergara
de perto, a necessidade da eliminação de nascituros para salvar
o organismo materno, nas ocasiões perigosas; mas, lendo-me o pensamento,
o Irmão Paulo acrescentou:
Não falo aqui de providências legitimas, que constituem aspectos
das provações redentoras, refiro-me ao crime de assassinar os
que começam a trajetória na experiência terrestre, com o
direito sublime da vida.
Demonstrando a sensibilidade das almas nobres, Narcisa rogou:
Irmão Paulo, também eu já errei muito no passado. Atendamos
a esta desventurada. Se me permite, eu lhe dispensarei cuidados especiais.
Reconheço, minha amiga – respondeu o diretor de vigilância,
impressionado pela sinceridade -, que todos somos espíritos endividados;
entretanto, temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas
e a boa-vontade de resgatar nossos débitos; mas esta criatura, por agora,
nada deseja senão perturbar quem trabalha. Os que trazem os sentimentos
calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas. Para que nos serve
aqui um serviço de vigilância?
E, sorrindo expressivamente, exclamou:
Busquemos a prova.
O vigilante-chefe aproximou-se, então, da pedinte e perguntou:
Que deseja a irmã do nosso concurso fraterno?
Socorro, Socorro, Socorro – respondeu lacrimosa.
Mas, minha amiga – ponderou acertadamente - é preciso sabermos
aceitar o sofrimento retificador. Por que razão tantas vezes cortou a
vida de entezinhos frágeis, que iam à luta com a permissão
de Deus?
Ouvindo-o inquieta, ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou:
Quem me atribui essa infâmia? Minha consciência está tranqüila,
canalha. ... Empreguei a existência auxiliando a maternidade na terra.
Fui caridosa e crente, boa e pura...
Não é isso que se observa na fotografia viva dos seus pensamentos
e atos. Creio que a irmã ainda não recebeu, nem mesmo o beneficio
do remorso. Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus,
reconhecendo as necessidades próprias, então, volte até
aqui.
Irada, respondeu a interlocutora:
Demônio, Feiticeiro, Sequaz de satã...Não voltarei jamais...
Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar.
Assumindo atitude ainda mais firme, falou o Vigilante-Chefe com autoridade:
Faça, então o favor de retirar-se. Não temos aqui o céu
que deseja. Estamos numa casa de trabalho, onde os doentes reconhecem o seu
mal e tentam curar-se, junto de servidores de boa-vontade.
A mendiga objetou atrevidamente:
Não lhe pedi remédio, nem serviço. Estou procurando o paraíso
que fiz por merecer, praticando boas obras.
E, endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera, perdeu
o aspecto de enferma ambulante, retirando-se a passo firme, como quem permanece
absolutamente senhor de si.
Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar, durante longos minutos e, voltando-se
para nós, acrescentou:
Observaram o Vampiro? Exibe a condição de criminosa e declara-se
inocente; é profundamente má e afirma-se boa e pura; sofre desesperadamente
e alega tranqüilidade; criou um inferno para si própria e assevera
que está procurando o céu.
Ante o silencio com que lhe ouvíamos a lição, o Vigilante-Chefe
rematou:
É imprescindível tomar cuidado com as boas aparências. Naturalmente,
a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina, mas, por principio
de caridade legitima, na posição em que me encontro, não
lhe poderia abrir nossas portas.